GABRIEL SERPA
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
Motoristas de táxi e aplicativo relatam queda na nota de crédito da Serasa após procurarem bancos e concessionárias para financiar carros novos pelo programa Move Brasil, do governo federal.
Instituições financeiras utilizam a pontuação feita por birôs de crédito, também chamada score, para medir o risco de inadimplência de consumidores que pedem empréstimos no mercado.
A redução do score pode acontecer quando uma ou mais empresas fazem consultas ao CPF (Cadastro de Pessoa Física) de um tomador de empréstimo antes de decidir se concedem o crédito. A informação consta do site oficial da Serasa e também do aplicativo para celulares do birô de crédito.
Carros flex, híbridos flex, elétricos e veículos movidos exclusivamente a etanol de até R$ 150 mil podem ser financiados pelo programa.
É o caso do educador físico Alex Sandro Ferreira, 36, que faz corridas por aplicativo há seis anos atividade responsável por metade da sua renda mensal. Após tentar o financiamento de um veículo novo e ter o pedido negado, Ferreira diz que a nota da Serasa caiu 34 pontos.
Ele conta que procurou uma concessionária em São Leopoldo (RS) para aderir ao Move Brasil. As tratativas, no entanto, não avançaram. “Me empurraram para o banco.”
Correntista do Banco do Brasil há mais de 15 anos, Ferreira afirma que o pedido foi recusado por causa da renda mensal, cujo valor ele não informou à reportagem. O financiamento só seria aceito com R$ 35 mil de entrada. No total, foram duas consultas em concessionárias diferentes e uma via agência bancária.
Pontuações a partir de 701 são classificadas como excelentes pela Serasa e têm “altas chances de aprovação”, de acordo com a tabela da empresa.
Passada a negativa, ele percebeu que a pontuação caiu de 782 para 748 no aplicativo da Serasa. A explicação apareceu na tela do aplicativo: “Quantidade de empresas que consultaram seu CPF”.
Em nota à reportagem da Folha, o Banco do Brasil diz que as contratações de financiamento de veículos pelo Move Brasil “seguem disponíveis normalmente pelos canais de atendimento do banco”, pelo celular ou na rede de agências.
Sobre a consulta ao CPF dos correntistas, o banco afirma estar “em linha com as melhores práticas de mercado” e considera na avaliação de crédito “a capacidade de pagamento do cliente, o perfil de endividamento e o histórico comportamental no sistema financeiro nacional”.
Proprietário de um veículo financiado, Ferreira diz não ter parcelas em aberto nem estar com o nome sujo.
O relato é semelhante ao de Marcelo Nogueira, 46, que afirma estar com o nome limpo. Após visitar quatro concessionárias em Maceió (AL) para simular o financiamento de um veículo de R$ 70 mil, o profissional teve o score reduzido em 32 pontos de 645 para 613 em menos de uma semana.
A justificativa foi a mesma: o CPF foi consultado por muitas empresas. Há um mês, o histórico do aplicativo no celular marcava 726 pontos. “Daqui a pouquinho está entrando nos 500”, diz.
Nogueira explica que procurou o Move Brasil por não querer trabalhar com o carro alugado. O veículo próprio, quebrado, precisa de conserto estimado em R$ 6.000, mas afirma não ter dinheiro para o reparo.
Quando tomou conhecimento do programa, interessou-se pelas condições anunciadas, com linha de crédito sem entrada e prazos de pagamento estendidos.
Mas na prática foi diferente. Para ter a aprovação, precisaria desembolsar R$ 49 mil no ato. “Se tivesse esse dinheiro para a entrada, não trabalharia com carro alugado.”
O gasto com combustível e o valor das corridas fizeram o gaúcho Alex Sandro Ferreira considerar a compra de um veículo elétrico. “Achei que o BNDES [Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social] seria avalista dos motoristas”, diz. Com a tentativa frustrada, afirma ter desistido da negociação.
“O programa não é para todo mundo.”
A queixa dele é recorrente entre profissionais da categoria, que reclamam de dificuldade para conseguir o crédito, ainda que tenham score classificado como bom ou excelente pela Serasa.
“Quem postou no grupo [de WhatsApp] que conseguiu crédito foram os motoristas que tinham tudo quitado. Mas esses não precisam do programa”, diz Marcelo Nogueira.
Em nota, a Serasa diz que a pontuação é calculada de forma individual “levando em conta o conjunto de informações disponíveis sobre o histórico de crédito de cada consumidor”.
Com relação ao Move Brasil, a Serasa diz que é possível que os motoristas tenham feito simulações ou pedido financiamento em mais de uma instituição financeira. “Quando há um volume maior de consultas em um curto período, essas informações podem ser consideradas no cálculo do Serasa Score.”
Procurados por email, o Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) e a Febraban (Federação Brasileira de Bancos) não se manifestaram até a publicação desta reportagem.
DIFICULDADES NO FINANCIAMENTO
“Olá, Helton. O Governo do Brasil tem uma informação importante para quem foi aprovado no programa Move Brasil Táxi e Aplicativos: você já pode procurar uma concessionária ou seu banco de relacionamento para financiar seu carro novo.”
A mensagem chegou no celular do motorista de aplicativo Helton Benedito, 54, após o cadastro realizado no Move Brasil, na modalidade para táxi e aplicativo, lançado no dia 19 de junho.
Após serem considerados aptos para participar, os motoristas podem procurar instituições financeiras ou concessionárias de montadoras participantes do Move Brasil, para negociar o crédito com juros menores que os do mercado para comprar carros novos.
Helton Benedito conta que foi a uma concessionária da Fiat para simular o financiamento de um carro no valor de R$ 114 mil. “Só aprovou se eu pagasse os 30% de entrada.”
Embora o programa permita o financiamento de até 100% do veículo, não é obrigatório fornecer um plano sem entrada. O banco pode exigir um sinal e definir seu valor após analisar o risco da operação.
O site oficial da montadora anuncia condições facilitadas para a aquisição de carros da empresa. A mensagem logo acima do link de análise de crédito na página é direcionada aos motoristas da categoria.
A empresa oferece financiamento por meio do Banco Stellantis. A instituição vinculada ao grupo proprietário da Fiat, é credenciada no BNDES e pode operar no programa Move Brasil.
“Não tenho restrição no meu nome, e meu score é de 809”, diz. Helton afirma ter procurado outras duas instituições financeiras para fazer simulações de financiamento uma delas foi o Banco do Brasil.
No total, foram três consultas negadas.
A Fiat afirma à Folha fazer uma análise combinada de fatores para a avaliação do crédito, como “o percentual de entrada oferecido, a renda comprovada, a proporção dessa renda comprometida com outros compromissos financeiros, a capacidade de pagamento e o histórico de relacionamento do cliente com o mercado de crédito”.
A montadora diz ser possível obter resultados diferentes em novas avaliações para um mesmo cliente, caso “os fatores que motivaram a negativa na solicitação original ou as condições da proposta tenham sido modificadas.”
Além da negativa, Benedito disse que teve redução de 73 pontos na nota da Serasa e se queixa de que a experiência não condiz com a proposta anunciada pelo ministro Guilherme Boulos nas redes sociais, quando o programa foi lançado. Em vídeo no Instagram, o chefe da Secretaria-Geral da Presidência destacou o financiamento de veículos de até R$ 150 mil sem entrada e com prazos estendidos para pagamento. “Isso não está acontecendo”, diz o motorista.