CRISTIANE GERCINA E LEONARDO VIECELI
SÃO PAULO, SP E RIO DE JANEIRO, RJ (FOLHAPRESS)
O Brasil chega às vésperas das eleições de 2026 com um cenário diferente no mercado de trabalho do que se viu em 2022: desemprego em mínimas históricas e recordes de ocupação, empregos com carteira assinada e rendimento salarial, mas com desafios para o presidente a ser eleito.
Informalidade ainda perto de 40% da mão de obra, expansão do trabalho por aplicativos (uberização), pejotização, efeitos da inteligência artificial (IA) sobre vagas de entrada, corrosão da Previdência com longevidade acelerada e descompasso entre formação e o que o mercado necessita são os principais pontos citados por especialistas ouvidos pela reportagem.
Dados da Pnad Contínua, do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), mostram que o Brasil tinha, no trimestre terminado em julho, 5,3% de desemprego, menor taxa para esse período na série histórica, iniciada em 2012. No mesmo intervalo de 2022, o patamar estava em 9,1%.
Em 2026, o nível de ocupação bateu recorde para o trimestre até julho (58,9%), enquanto o número de empregados com carteira no setor privado chegou a 39,4 milhões -o maior de toda a série.
Para a economista Janaína Feijó, do FGV Ibre (Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas), a melhora quantitativa convive com desafios qualitativos agravados pela desaceleração da economia e pelos juros altos. “O mercado está desacelerando. Se [o país] não cuidar da parte macrofiscal, todos os ganhos podem ser exauridos e, mesmo que haja cuidado, não vamos voltar a ver essas mínimas.”
Para ela, a plataformização do trabalho, com diferenças entre entregadores de delivery e motoristas de aplicativo que transportam passageiros, é um dos grandes desafios de quem for eleito. “A principal questão que nós economistas temos percebido é que a reforma trabalhista de 2017 foi insuficiente para cobrir essa modalidade. Uma parte desses trabalhadores está totalmente descoberta”, diz.
O motoboy Felipe Zuppo, 38, trocou o emprego com carteira pelo trabalho em aplicativos com a chegada das plataformas e participou, em 2023, de grupo no governo Lula (PT) que não chegou a consenso sobre a regulação da profissão.
“Esperava que o governo fosse mais duro, mas é um lobby gigantesco. A lei não foi como gostaríamos. Nós somos trabalhadores e ficamos sem direitos trabalhistas. A gente não quer ser CLT, mas queriam transformar a gente em trabalhador plataformizado, pela lei cível. Passar lei só por passar não dá”, diz.
Janaína vê no MEI (Microempreendedor Individual), criado para formalizar pequenos negócios e incluir trabalhadores no INSS (Instituto Nacional do Seguro Social), uma bomba fiscal: segundo ela, acolhe não contratados pela CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) com contribuição de 5% do salário mínimo.
Ela aponta ainda o descompasso entre formação, demanda empresarial e desigualdade. “É ruim a gente pensar que teria de fazer um curso apenas porque o mercado está demandando, mas no mercado existe a questão da demanda e da oferta”, diz. “Networking importa muito, e pessoas de comunidade não têm esse networking.”
A comunicadora social Nicole Guedes de Andrade Suvires, 22, é atendente em uma rede de pet shop no ABC paulista. Embora buscasse vaga na sua área de formação, diz estar feliz pois ficou um tempo desempregada. Durante dois anos, foi PJ. “Eu gostava de ser PJ pela flexibilidade do horário. Agora, trabalho 6×1, mas tenho benefícios.”
Na visão do economista Rodolpho Sartori, da consultoria Buysidebrazil, o mercado de trabalho mudou e parece ter ficado mais resistente a choques no Brasil. Isso, segundo ele, é ilustrado pela força dos indicadores mesmo em um cenário de desaceleração da economia sob juros altos neste ano.
Para Sartori, há hipóteses que podem explicar a resiliência dos números, incluindo a flexibilização trazida pela reforma trabalhista de 2017 e o surgimento de ocupações como as associadas a aplicativos de serviços.
O quadro contribui para a redução do desemprego e para a geração de renda, mas não afasta desafios estruturais do país, pondera Sartori. Um deles é como absorver trabalhadores com maiores níveis de qualificação.
“É aquela história do engenheiro que virou motorista de Uber. É um meme, mas é verdade”, diz.
A taxa de informalidade, que mede o percentual da mão de obra que atua sem carteira ou sem CNPJ, foi de 37,5% no trimestre até julho. O percentual já chegou a marcar mais de 40% na série histórica.
Uma das categorias com informalidade mais elevada é a dos trabalhadores de aplicativos de serviços. Em 2025, o Brasil tinha cerca de 2 milhões de pessoas exercendo o trabalho principal ou secundário por meio dessas ferramentas, segundo módulo anual da Pnad Contínua divulgado neste mês pelo IBGE.
Entre os profissionais que utilizavam as plataformas no trabalho principal, a flexibilidade foi o motivo mais apontado para o uso (26,8%). Falta de outro emprego (24,6%) e rendimento maior do que em outros trabalhos disponíveis (20,8%) vieram na sequência.
O QUE PROPÕE OS PLANOS DE GOVERNO DOS PRESIDENCIÁVEIS
- Lula (PT): ampliar a proteção trabalhista, manter a política de valorização do salário mínimo, combater a pejotização e regulamentar o trabalho em plataformas, com direitos, remuneração, transparência algorítmica e cobertura previdenciária. Defende o fim da escala 6×1, jornada de 40 horas sem redução salarial, requalificação e mudanças no financiamento da Previdência.
- Flávio Bolsonaro (PL): reduzir gradualmente o custo do trabalho, priorizar beneficiários do Bolsa Família em emprego e qualificação e criar contratos mais baratos para jovens de 18 a 24 anos e desempregados a partir de 50 anos.
- Romeu Zema (Novo): regime alternativo à CLT, com negociação de jornada, remuneração e férias, jornada diária acima de oito horas e limite de 44 semanais, e menos encargos.
- Ronaldo Caiado (PSD): ensino técnico, requalificação, currículos para IA, automação, dados e cibersegurança.
- Augusto Cury (Avante): empreendedorismo contra o desemprego da IA e transformar o Bolsa Família em porta de entrada no mercado.
- Renan Santos (Missão): sem propostas específicas para o mercado de trabalho, mas defende liberdade para o crescimento de negócios.