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Acordo de Paz com Farc faz 10 anos pressionado por ataques de Espriella e expansão de grupos armados

O documento acabou com uma guerra de 52 anos entre o Estado colombiano e a guerrilha marxista e rendeu o Nobel da Paz daquele ano

Redação Jornal de Brasília

26/09/2026 13h56

colombia politics military

Foto: RAUL ARBOLEDA / AFP

DANIELA ARCANJO
BUENOS AIRES, ARGENTINA (FOLHAPRESS)

Há dez anos, o presidente da Colômbia, Juan Manuel Santos, e o líder das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Rodrigo Londoño, apertaram as mãos diante de uma multidão vestida de branco em Cartagena.

“O que nós assinamos hoje é uma declaração do povo colombiano diante do mundo de que nos cansamos da guerra”, afirmou o político conservador no dia 26 de setembro de 2016.

“Ofereço minhas sinceras desculpas a todas as vítimas do conflito”, continuou, enquanto era aplaudido de pé, o ex-guerrilheiro conhecido como Timochenko.

O documento acabou com uma guerra de 52 anos entre o Estado colombiano e a guerrilha marxista e rendeu o Nobel da Paz daquele ano a Santos. Mas foi só o primeiro capítulo de uma jornada que terminaria —ou começaria, a depender do ponto de vista— quase dois meses depois.

Menos de uma semana após o evento, a atmosfera de otimismo deu lugar à incredulidade quando a população rejeitou o texto por uma diferença de apenas 54 mil votos (50,2% a 49,8%). O documento em vigor foi assinado em novembro, em uma cerimônia modesta de menos de uma hora no Teatro Colón, em Bogotá.

O início trôpego já anunciava as dificuldades para implementar os compromissos. Mesmo assim, seria difícil prever que, uma década depois, o país estaria enfrentando uma nova escalada de violência sob o governo de um presidente que prometeu “estripar” líderes de esquerda, em suas palavras.

Determinar o legado do acordo é um desafio. Por um lado, há uma conquista incontornável: mais de 13 mil pessoas deixaram as armas, das quais cerca de 85% seguem em processos de reincorporação à vida civil. Por outro, a violência persiste no país com a expansão de grupos armados e o consequente aumento de massacres e deslocamentos.

Desde 2016, nenhum governo conseguiu frear o crescimento de combatentes. De acordo com a Força Pública da Colômbia, havia 6.519 membros nas três principais organizações armadas do país em 2017, número que passou para 24.610 combatentes distribuídos em quatro grupos em 2025 —quase o quádruplo em oito anos.

A cifra de pessoas que passaram por deslocamentos forçados, um amargo efeito colateral nos anos de guerra, quase dobrou desde 2016, chegando a mais de 290 mil no ano passado, de acordo com a Unidade para as Vítimas, entidade encarregada de coordenar a reparação às vítimas do conflito. Cresceu na mesma proporção o número de mortos em massacres, que foi de 137 em 2016 para 256 em 2025, segundo o Indepaz (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento e a Paz).

Para muitos especialistas, a culpa do que pode ser lido como fracasso no acordo está na velocidade de implementação do texto. O Kroc, instituto de estudos para a paz da Universidade Notre Dame, nos Estados Unidos, calcula que, em 2025, apenas 36% das 578 cláusulas do acordo final foram completamente implementadas, enquanto 8% não foram nem sequer iniciadas.

Isso quando o limite para executar o que foi estipulado é 2031, 15 anos após a assinatura. “A janela para cumprir as promessas do acordo dentro do prazo estabelecido está se fechando, deixando as vítimas mais marginalizadas do conflito ainda aguardando que o processo produza resultados tangíveis”, disse o instituto em maio.

Para Paola Molano Ayala, mestre em direito internacional pela Universidade de Nova York, alguns dos mais importantes acordos cumpridos —além, é claro, da própria desmobilização das Farc e do consequente fim da guerra—, foram os previstos nos Programas de Desenvolvimento com Enfoque Territorial.

Entre 2018 e 2024, a iniciativa descrita pelo acordo reduziu, em média, em mais de 15 pontos percentuais o índice de pobreza multidimensional nos 170 municípios mais impactados pelo conflito, segundo a Agência de Renovação do Território.

“Para formular esses programas de desenvolvimento, houve uma participação muito ampla na qual as comunidades puderam expressar suas necessidades, formular planos e, a partir disso, criar caminhos que orientassem o Estado a intervir na transformação desses territórios afetados pela violência”, diz a advogada, que atuou como assessora no Gabinete do Alto Comissariado para a Paz.

Na outra ponta, um dos principais pontos não cumpridos, segundo ela, foi a proteção de ex-guerrilheiros.

O mais recente relatório da Missão de Verificação das Nações Unidas na Colômbia, divulgado em julho, destaca que 493 ex-combatentes foram mortos desde a assinatura do Acordo de Paz.

Soma-se a esse caldo o aumento nos índices de criminalidade geral, consequência da resposta inadequada às novas ameaças de segurança, segundo Ayala. “Os territórios que as Farc controlavam não foram totalmente ocupados pelas instituições, e isso permitiu um ressurgimento da violência”, afirma.

A oposição ao acordo não é nova, como mostra o plebiscito que rejeitou o texto e que, para Andrei Gómez Suárez, especialista em resolução de conflitos armados, foi um dos maiores erros do presidente Santos.

“Pensar que as pessoas iriam votar ‘sim’ porque ninguém vota contra a paz foi uma leitura muito simplista da complexidade que significa fazer uma pergunta tão difícil ao país”, afirma o autor do livro “El Triunfo del No” (Icono, 2016), sem tradução no Brasil. “A partir desse ponto, temos problemas sérios, porque a implementação começa sem legitimidade suficiente.”

Em 2017, Fernando Londoño, correligionário de Iván Duque, que viria a ser eleito presidente no ano seguinte, afirmou que o primeiro desafio de seu partido, o Centro Democrático, seria “rasgar em pedaços aquele maldito pedaço de papel que eles chamam de acordo final com as Farc”.

O ACORDO DE PAZ SOB QUATRO GOVERNOS

Como candidato, Duque se justificou pelo colega: “Sempre defendi que não se trata de destruir ou rasgar os acordos, mas sim de fazer modificações importantes naquilo que afeta o Estado de Direito”, afirmou em entrevista ao jornal El País.

Os ventos pareciam mudar em 2022, quando a Colômbia elegeu seu primeiro presidente de esquerda, Gustavo Petro. Vocal defensor do acordo, o ex-guerrilheiro tampouco conseguiu avançar nos compromissos de forma satisfatória —em vez disso, direcionou os esforços do governo à sua promessa de “paz total”.

A estratégia de negociar com grupos armados remanescentes, no entanto, acabou se revelando um ciclo vicioso: quanto mais o acordo de 2016 era relegado a segundo plano, menos os grupos armados se animavam a conversar com o governo.

“Quando se observa falta de comprometimento por parte do Estado, passa-se a ideia de que a paz é uma política de governo —ou seja, se o presidente a deseja, ele a implementa, se não a deseja, não a implementa”, afirma Suárez.

Em negociações do governo Petro das quais participou, o pesquisador na Universidade de Sussex diz que essa era uma das principais desconfianças dos grupos armados.

“E quando a Presidência de Petro terminar? Quem cumprirá suas promessas?”, perguntavam os combatentes, segundo ele. “Explicávamos que eram compromissos de Estado, mas, observando as políticas que o atual presidente está implementando, diríamos que ele não está cumprindo os compromissos assumidos pelo Estado colombiano”, diz.

O presidente Abelardo de la Espriella, que venceu Iván Cepeda em junho deste ano por uma margem parecida com a registrada no plebiscito de 2016, quer destinar 12,94 trilhões de pesos colombianos (R$ 20,5 bilhões) para a implementação do acordo no orçamento do ano que vem, valor 37% menor do que os 20,56 trilhões de pesos (R$ 32,5 bilhões) de 2026.

Apesar disso tudo, é possível ser otimista com o acordo colombiano.

“Em geral, 50% dos processos de paz fracassam cinco anos após a assinatura do acordo”, afirma Suárez.

“O caso da Colômbia é complexo, porque hoje, dez anos depois, não se pode dizer —eu não diria— que a paz com as Farc fracassou ou chegou ao fim.”

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