GABRIELA CECCHIN
FOLHAPRESS
A decisão do ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) André Mendonça que embasou a nova fase da Operação Compliance Zero, deflagrada nesta quinta-feira (14), detalha como funcionava a estrutura investigada pela Polícia Federal em torno do empresário Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.
O despacho levou à prisão de Henrique Vorcaro, pai do banqueiro, apontado pela PF como responsável por fazer pagamentos integrantes do esquema e por acioná-los. A investigação descreve dois núcleos principais: A Turma, voltada a ameaças presenciais, monitoramento e intimidação de desafetos, e Os Meninos, grupo hacker acusado de executar ataques digitais e derrubar perfis na internet.
Trechos do documento incluem referências a “manada de búfalo”, perseguições com pneus cantando, “força privada ou paramilitar” e suspeitas de vazamento de dados dentro da Polícia Federal. Abaixo, veja alguns dos principais pontos da decisão.
A TURMA, FORÇA PARAMILITAR
Segundo a investigação, A Turma era o núcleo responsável pelas ações de ameaça presencial, acompanhamento de alvos e levantamento de dados pessoais e familiares de alguns alvos.
O despacho também aponta que o núcleo tinha divisão de tarefas e comunicação constante entre seus integrantes. Em um dos trechos, Mendonça menciona suspeitas de “potencial uso de força privada ou paramilitar” em favor dos interesses da organização.
A PF afirma ainda que Henrique Vorcaro mantinha contato frequente com integrantes do grupo e atuava como operador financeiro dos pagamentos feitos à estrutura.
A defesa do empresário diz que a prisão foi desnecessária e afirma que comprovará licitude de fatos.
investigados.”TERIAM QUE IR PRA CIMA” DE EX-FUNCIONÁRIO
Em certo ponto, Daniel Vorcaro determinou que integrantes de A Turma fizessem “levantamento de tudo” sobre um ex-funcionário e seus familiares. O empresário teria dito que “teriam que ir pra cima”, segundo mensagens reproduzidas no despacho.
A investigação afirma que integrantes do núcleo passaram então a discutir monitoramento de telefone, acompanhamento presencial e uma “conversa com a mesma língua” com os alvos expressão interpretada pela PF como indicativo de intimidação direta.
O trecho aparece na parte da decisão que descreve ameaças contra Luis Felipe Woyceichoski, comandante de uma embarcação ligada a Vorcaro, e Leandro Garcia, ex-chefe de cozinha.
Segundo a investigação, ambos passaram a ser monitorados e pressionados após conflitos com o empresário. Para os investigadores, as conversas mostram que A Turma discutia diferentes níveis de abordagem, desde vigilância até intimidação presencial.
Além disso, o grupo já conversou sobre “quebrar todos os dentes” do jornalista Lauro Jardim, de O Globo. A sugestão foi dada pelo então dono do Master, Daniel Vorcaro, a Luiz Mourão, o Sicário, apelido que remete a matadores de aluguel.
OS MENINOS, BRAÇO CIBERNÉTICO
A decisão dedica dezenas de páginas ao núcleo apelidado de Os Meninos, que a PF descreve como o braço digital da organização investigada.
Segundo o documento, os integrantes seriam responsáveis por ataques cibernéticos, invasões telemáticas, monitoramento ilegal e “derrubada de perfis” de pessoas consideradas adversárias de Daniel Vorcaro.
O objetivo, segundo a investigação, era proteger a reputação online do empresário e vigiar críticos ligados ao Banco Master e ao núcleo central da organização.
ESTUDANTE HACKER
Um dos integrantes citados é Victor Lima Sedlmaier, descrito na decisão como estudante de ciência da computação e desenvolvedor. Em depoimento, ele afirmou trabalhar com software de inteligência artificial, design, banco de dados e manutenção de computadores.
Segundo o próprio relato reproduzido pela PF, suas funções incluíam conserto de computadores, deslocamento de veículos para oficina e colocação de créditos em celular.
A investigação afirma que Victor atuava subordinado a David Henrique Alves, apontado como líder de Os Meninos. Segundo o STF, David receberia cerca de R$ 35 mil mensais para coordenar o núcleo hacker.
Procurados por meio de telefones registrados na Receita Federal, Seldmaier e Alves não responderam. A reportagem tampouco conseguiu localizar a defesa dos investigados, cujos nomes foram apontados nos autos.
“ESTOU SEGURANDO UMA MANADA DE BÚFALO”
A decisão também reproduz conversas entre Henrique Vorcaro e Marilson Roseno, que a PF aponta como coordenador operacional de A Turma. Sua defesa não foi localizada.
Segundo o despacho, Henrique continuava cobrando atuação do núcleo mesmo após fases anteriores da Operação Compliance Zero. Em uma das mensagens reproduzidas, ele afirma que “no momento em que estou é que preciso de vocês”.
Em outro diálogo citado por Mendonça, Marilson afirma que estava “segurando uma manada de búfalo” e que precisava receber o “pagamento ajustado”.
Henrique responde que enviaria “400”, valor interpretado pela PF como referência a R$ 400 mil. Marilson rebate dizendo que o ideal seria “800k”.
Segundo a investigação, os valores mencionados nas mensagens seriam compatíveis com pagamentos usados para manter o funcionamento de A Turma.
FUGA COM NOTEBOOKS E SAÍDA “CANTANDO PNEUS”
Outro trecho da decisão descreve a movimentação de integrantes de Os Meninos no dia da terceira fase da Operação Compliance Zero, em março deste ano.
Segundo Mendonça, David Henrique Alves foi abordado pela Polícia Rodoviária Federal dirigindo uma Range Rover ligada a Luiz Mourão. Dentro do veículo, havia “um computador grande de mesa, dois ou três notebooks, caixas e malas”.
A PF interpretou a situação como possível tentativa de fuga e ocultação de provas digitais ligadas ao núcleo hacker.
A decisão afirma que David não conseguiu explicar de forma clara por que estava com o veículo e destaca ainda que um documento de identidade de terceiro foi encontrado dentro do carro.
Em outro trecho, o porteiro do condomínio onde David morava afirmou que ele deixou o imóvel de forma apressada, “cantando pneus”, a ponto de provocar reclamações de moradores.
Segundo a investigação, logo depois houve movimentação para retirada de móveis e equipamentos da residência, com entrada de auxiliares e até caminhão de mudança, em contexto interpretado pela PF como tentativa de “esvaziamento do ambiente residencial” e possível supressão de provas.
JOGO DO BICHO
A decisão do ministro André Mendonça cita repetidamente o jogo do bicho ao descrever o papel atribuído pela PF a Manoel Mendes Rodrigues dentro de A Turma. A reportagem não localizou seu contato.
Segundo o STF, Manoel é descrito na investigação como “operador do jogo do bicho” e líder de um braço local da organização no Rio de Janeiro com milicianos e policiais.
As referências aparecem principalmente nos relatos sobre episódios ocorridos em junho de 2024, quando integrantes de A Turma teriam ido até um hotel em Angra dos Reis (RJ) para intimidar funcionários.
Segundo uma das testemunhas, um dos homens envolvidos nas ameaças se apresentou como Manoel, amigo de Daniel Vorcaro, que “mexia com jogo do bicho”.
O STF afirma que a ligação de Manoel com o jogo do bicho ajudaria a conferir “credibilidade à ameaça” e “projetar poder coercitivo no ambiente local”. A decisão diz ainda que ele teria atuado como “intimidador qualificado”, responsável por fornecer “mão de obra intimidatória” para ações presenciais do grupo.
“BABAQUINHA DEMAIS”
A decisão ainda cita suspeitas de vazamento de informações sigilosas por integrantes da própria Polícia Federal.
Segundo a investigação, o agente Anderson Wander da Silva Lima teria feito consultas indevidas em sistemas internos da corporação e repassado dados reservados a Marilson Roseno, integrante de A Turma.
Em um dos episódios citados, Marilson pediu informações sobre uma mulher e um colega de Anderson se recusou a realizar a pesquisa. A reação descrita na decisão foi chamar o servidor de “babaquinha demais”.
O STF afirma que Anderson atuaria como uma espécie de ligação do grupo dentro da PF, usando seu acesso funcional para beneficiar a organização investigada.
A Polícia Federal do Rio de Janeiro foi contatada, mas ainda não retornou à reportagem. Anderson não foi localizado.