MATHEUS DOS SANTOS, JÚLIA MOURA E FELIPE MENDES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
O fluxo de investidores estrangeiros, que impulsionou a Bolsa ao patamar inédito de 198.657 pontos em abril e levou o dólar a R$ 4,892, tem se revertido em maio, com as incertezas em torno da guerra no Irã aumentando os temores de alta da inflação global.
Segundo dados da B3, o saldo dos investidores internacionais segue positivo em 2026, em R$ 53,9 bilhões. Em maio, contudo, o movimento é de reversão: o saldo entre compras e vendas de ações está negativo em R$ 8 bilhões.
A mudança pode ser observada já em abril, com a queda do saldo positivo do mês de R$ 15,7 bilhões no dia 15 para R$ 3,2 bilhões no dia 30. Em maio, o movimento se intensificou e todos os pregões foram de saída líquida, com retirada de R$ 609 milhões por dia, em média.
Em 13 de maio, quando o contato entre Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Daniel Vorcaro, do Banco Master, foi revelado, a saída líquida foi de R$ 1,2 bilhão, valor semelhante ao do pregão de 11 de maio.
“O que a gente está percebendo agora um movimento que começou em abril e se intensificou em maio é que esse investidor primeiro começou a tirar um pouco o pé do acelerador. E não só no Brasil, mas em emergentes de forma geral”, diz Jerson Zanlorenzi, chefe da mesa de ações e derivativos do BTG Pactual.
O banco JPMorgan sinaliza ainda que houve uma forte rotação para ações de tecnologia, o que explica o desempenho da Nasdaq, que concentra empresas do setor e acumula alta de 3% em maio.
“No médio prazo, acreditamos que as ações brasileiras devem andar de lado, considerando o ritmo mais lento de cortes de juros e as incertezas eleitorais. Além disso, o real já está em um nível forte e não deve se apreciar muito mais, o que cria um fator assimétrico para investidores estrangeiros”, diz o banco, em relatório.
No mês até aqui, a Bolsa brasileira registra queda de 7%, enquanto o dólar sobe 1,8%.
Especialistas apontam que o cenário se inverteu com a mudança nas expectativas para juros no Brasil e nos Estados Unidos com a continuidade da pressão da guerra do Irã sobre os preços.
Economistas aumentaram a previsão para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) deste ano, de 4,80% para 4,92%, segundo o Boletim Focus.
Segundo a publicação semanal do Banco Central, a Selic deve encerrar 2026 em 13,25% ao ano antes da guerra, a expectativa era de 12% e, há um mês, de 13%.
“O que frustrou é que antes os economistas tinham um cenário de CDI a 12,5% no fim do ano, alguns falavam em 12%. Então isso acabou atrapalhando”, diz Felipe Thut, diretor de renda fixa e produtos estruturados do Bradesco BBI.
Nos Estados Unidos, parte do mercado acionário também teme juros mais altos. Segundo a Bolsa de Chicago, a probabilidade de o Fed (Federal Reserve) subir os juros 0,25 ponto percentual no segundo semestre, terminando o ano em 4%, foi de zero a 40% em um mês.
“Havia uma expectativa de queda de juros. A perspectiva era de cortes de juros nos Estados Unidos, na Europa e também nos emergentes, especialmente no Brasil, onde isso já estava amplamente precificado”, diz Zanlorenzi, do BTG Pactual.
Com o petróleo próximo de US$ 110 e o temor de um repique inflacionário global, bancos centrais se tornaram mais cautelosos, o que beneficia a renda fixa em detrimento de ativos arriscados.
O banco central norte-americano manteve a taxa de juros entre 3,5% e 3,75% em abril pela terceira reunião consecutiva. No Brasil, o Copom (Comitê de Política Monetária) reduziu a Selic para 14,5% ao ano, mas evitou sinalizar cortes futuros.
“Quando juntamos guerra, reprecificação de juros nos EUA e juros ainda elevados no Brasil, temos um ambiente que reduz o apetite ao risco”, afirma Gustavo Sung, economista-chefe da Suno Research.
Além disso, o cenário político também trouxe mais volatilidade ao mercado. O dólar subiu 2,24% e a Bolsa caiu 1,79% no dia em que foram reveladas ligações entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro.
A movimentação ocorreu em meio ao temor de que a notícia dificulte uma eventual candidatura de Flávio, cenário que parte do mercado avalia como potencialmente favorável ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Analistas avaliam que o senador possui perfil mais alinhado à disciplina fiscal que o atual presidente.
“Quando você combina um ambiente internacional mais volátil e com menos apetite a risco com um aumento das incertezas locais, cria-se uma espécie de tempestade perfeita para os investidores colocarem lucro no bolso”, afirma Zanlorenzi, do BTG.
Segundo pesquisa com gestores da América Latina feita pelo Bank of America e divulgada nesta terça-feira (19), o número de gestores otimistas com a performance da Bolsa caiu. Em abril, 73% dos entrevistados viam o Ibovespa acima de 190 mil pontos. Agora, esse índice é de 66%
FLUXO DE ESTRANGEIROS PODE SER RETOMADO?
Para analistas, o cenário pode se reverter. Além do saldo anual ainda positivo, o encerramento do conflito é apontado como um fator que pode voltar a atrair investidores estrangeiros.
Gustavo Sung afirma que o fim da guerra pode ser o principal motor de retomada. “Qualquer melhora especialmente um encerramento duradouro do conflito pode beneficiar a Bolsa brasileira e até contribuir para uma queda do dólar, diante da redução do risco geopolítico.”
Zanlorenzi, do BTG, concorda. “O grande gatilho para esse investidor voltar ao Brasil talvez seja um acordo envolvendo o estreito de Hormuz e um arrefecimento do preço do petróleo, deixando claro que o impacto inflacionário existe, mas é algo mais transitório do que persistente.”
Uma surpresa negativa na temporada de balanços das empresas de tecnologia dos Estados Unidos também poderia beneficiar mercados emergentes.
“O fluxo saiu também porque lá fora se abriu uma boa janela de oportunidade em preços. As empresas tinham caído bastante em janeiro, fevereiro e março, então muita gente enxergou aquilo como oportunidade de compra […] Algum susto na temporada de balanços pode beneficiar o Brasil”, diz Zanlorenzi.