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Economia

Indústria de máquinas vai aos EUA tentar barrar tarifa de 25% e diz que medida favorece a China

Fabricantes de máquinas vão pressionar governo americano contra sobretaxa e alegam que medida prejudica empresas dos próprios EUA

Redação Jornal de Brasília

02/06/2026 13h47

indústria de máquinas

Foto: Reprodução

ANDRÉ BORGES
FOLHAPRESS

A indústria brasileira de máquinas e equipamentos vai fazer uma ofensiva nos Estados Unidos para tentar barrar –ou ao menos reduzir– os efeitos da tarifa de 25% anunciada pelo governo americano sobre o setor.

A Abimaq (Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos) pretende participar das audiências públicas e consultas abertas pelo Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR), que receberá manifestações até 1º de julho de setores afetados pela sobretaxa. O órgão americano também fará uma audiência pública em 6 de julho, antes da decisão final, prevista para 15 de julho.

À reportagem o presidente-executivo da Abimaq, José Velloso, disse que o objetivo será convencer Washington de que a medida não faz sentido econômico e que pode, inclusive, acabar prejudicando as empresas americanas.

Velloso afirmou que o setor já esperava o anúncio da tarifa, que vinha acompanhando os sinais emitidos pelas autoridades americanas, mais preocupadas em beneficiar setores de bens de consumo, como café, carne e suco de laranja. Dias antes da divulgação pelos EUA, a associação havia alertado seus associados de que a sobretaxa estava no radar e provavelmente ficaria entre 20% e 30%.

“Máquinas e equipamentos não é bem de consumo, é bem de capital. Bem de capital não está na inflação”, afirmou o executivo.

Apesar disso, a avaliação da entidade é que a decisão carece de justificativa econômica, principalmente porque os Estados Unidos mantêm superávit comercial justamente no setor de máquinas e equipamentos, ou seja, os americanos vendem mais máquinas ao Brasil do que compram dos fabricantes nacionais.

Em 2024, segundo Velloso, o Brasil exportou cerca de US$ 3,6 bilhões em máquinas e equipamentos para os Estados Unidos, enquanto importou aproximadamente US$ 4 bilhões em produtos americanos do mesmo segmento. O resultado foi um déficit comercial de cerca de US$ 400 milhões para o lado brasileiro.

“Não há a menor justificativa, não tem o menor sentido o Brasil ser penalizado pelos americanos”, disse Velloso.

A nova tarifa integra a investigação comercial aberta pelos Estados Unidos contra o Brasil e, caso seja confirmada ao fim do processo, vai elevar o custo das máquinas brasileiras vendidas ao mercado americano, que é o maior importador dos equipamentos nacionais.

Um dos principais argumentos que a entidade pretende levar às autoridades americanas é que a medida pode atingir diretamente empresas dos próprios Estados Unidos.

Segundo a Abimaq, 82% das exportações brasileiras de máquinas para o mercado americano ocorrem em operações chamadas de “intercompanhia”. Na prática, são transações entre empresas do mesmo grupo econômico, envolvendo subsidiárias instaladas no Brasil e matrizes ou unidades localizadas nos Estados Unidos.

Isso significa que uma parcela relevante das exportações brasileiras abastece cadeias produtivas controladas por empresas americanas. Os principais produtos do setor exportados aos EUA são máquinas de construções rodoviárias, equipamentos agrícolas, componentes industriais e equipamentos para transformação de plásticos.

“Veja que 82% das nossas vendas são intercompanhia. Interromper esse canal poderia levar a desinvestimento lá nos Estados Unidos”, afirmou Velloso.

Outro ponto que será usado pela entidade é o possível fortalecimento da China. A avaliação é que a tarifa pode produzir exatamente o efeito contrário ao desejado pela política comercial americana.

Hoje, fabricantes chineses enfrentam tarifas próximas de 30% para vender máquinas aos Estados Unidos. Com a imposição de uma sobretaxa de 25% sobre os produtos brasileiros, a diferença de competitividade entre os dois países diminuiria drasticamente.

“Se o objetivo é uma guerra comercial com a China, ele vai aumentar as vendas da China”, afirmou o presidente da entidade.

Para Velloso, companhias americanas que deixarem de comprar equipamentos brasileiros poderão buscar alternativas em fabricantes chineses, que contam com grande escala de produção e, em muitos casos, apoio governamental.

A decisão americana ocorre em um momento em que a participação dos Estados Unidos nas exportações brasileiras do setor já vinha diminuindo. De acordo com a Abimaq, os americanos chegaram a representar cerca de 26% de todas as exportações brasileiras de máquinas. Hoje, essa fatia caiu para aproximadamente 13%.

A queda não se deve apenas ao tarifaço do ano passado, mas também ao crescimento das vendas para outros países.

Enquanto tenta reverter a medida pela via diplomática e institucional, a indústria deve acelerar embarques sob as condições atuais, com taxa de 10%. A expectativa da entidade é que haja aumento temporário das exportações nas próximas semanas, antes da aplicação da nova alíquota.

Mesmo diante da ameaça tarifária, a indústria de máquinas tem conseguido compensar parte das perdas.

Nos últimos 12 meses, as exportações totais do setor alcançaram US$ 14,4 bilhões. Entre os destaques estão a Argentina, que ampliou em 34% suas compras de máquinas brasileiras, e Singapura, que se consolidou como centro de distribuição para equipamentos destinados à indústria de petróleo e gás.

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