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Economia

Indústria brasileira está perdendo mercado interno para a China, afirmam entidades do setor

De acordo com a entidade, dos 12 setores que a compõem, oito deverão registrar crescimento na produção abaixo de 4% em 2026

Redação Jornal de Brasília

16/05/2026 16h38

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

Foto: Wilson Dias/Agência Brasil

MÁRCIA MAGALHÃES
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

A indústria de transformação prevê um agravamento da perda de espaço dos produtos nacionais no mercado brasileiro em 2026 e cobra do governo federal medidas mais duras de defesa comercial contra importações, sobretudo chinesas.

A coalizão atribui o cenário ao que chama de “importações predatórias” e à perda de competitividade sistêmica da indústria brasileira. De acordo com a entidade, o problema não é a importação em si, mas a entrada de produtos estrangeiros em condições consideradas desleais, muitas vezes beneficiados por subsídios, custos menores de produção e diferenças tributárias.

A preocupação da coalizão ocorre em meio ao contexto da derrubada, pelo governo Lula (PT), do imposto de importação sobre compras internacionais de pequeno valor, popularmente conhecido como “taxa das blusinhas”. A medida desencadeou reação negativa do varejo nacional e mais pressão por parte da indústria brasileira, que alega desigualdade tributária no comércio eletrônico.

Segundo estimativa apresentada pela Coalizão Indústria em entrevista coletiva realizada na última terça-feira (12) em São Paulo, o déficit da balança comercial de manufaturados deve atingir US$ 146,4 bilhões em 2026, acima do saldo negativo de US$ 134 bilhões registrado em 2025, o que é preocupante dada a correlação histórica entre o desempenho da indústria de transformação e a expansão do PIB brasileiro.

“O excedente da produção chinesa tem sido direcionado ao mercado global, encontrando espaço em países nos quais os mecanismos de defesa comercial não fazem frente ao ataque predatório”, afirma a entidade.

A Coalizão Indústria reúne entidades dos setores de aço, alimentos, automotivo, brinquedos, calçados, cimento, comércio exterior, construção civil, elétrico e eletrônico, farmacêutico, máquinas e equipamentos, têxtil e transformados em plástico. Juntos, os setores representados pela coalizão respondem por 44,8% do PIB industrial brasileiro, o equivalente a cerca de R$ 1,1 trilhão, além de 60,6% das exportações da indústria manufatureira, 48,6 milhões de empregos diretos e indiretos e R$ 500 bilhões em tributos pagos por ano.

De acordo com a entidade, dos 12 setores que a compõem, oito deverão registrar crescimento na produção abaixo de 4% em 2026 e dois deles terão retração. Em 2025, dos 12 setores, 6 registraram expansão abaixo de 4% e cinco sofreram retração.

“A perspectiva de 2026 é sobreviver. Não é possível se a gente não conseguir competir de igual para igual”, afirmou Synésio Batista da Costa, presidente da Abrinq (Associação Brasileira dos Fabricantes de Brinquedos). “A indústria nacional não fica pedindo vantagens para ninguém. Mas precisamos que as condições de competitividade de fabricação aqui sejam iguais às dos concorrentes”, disse.

O grupo apresentou no evento um balanço negativo de 2025 e projeções pouco otimistas para 2026.

Segundo a coalizão, o desempenho médio dos setores representados ficou em torno de 1,2% no ano passado, abaixo do crescimento de 2,3% do PIB brasileiro. As entidades demonstraram preocupação também com a perda de participação da indústria brasileira na economia mundial.

“A constatação é de que 2025 não foi bom e 2026 também não será”, disse Marco Polo de Mello Lopes, coordenador da Coalizão Indústria e presidente executivo do Instituto Aço Brasil, que afirmou também que as importações predatórias tomaram um terço do mercado brasileiro de aço em 2025.

Para 2026, a expectativa média da coalizão é de crescimento da produção industrial abaixo de 2%, enquanto as importações devem avançar aproximadamente 6%. “Significa dizer que a indústria nacional não está conseguindo acompanhar o aumento do mercado interno, que está sendo ocupado pelas importações”, afirmou Igor Calvet, presidente da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores).

As entidades defendem o fortalecimento de instrumentos de defesa comercial, como medidas antidumping e salvaguardas contra importações consideradas desleais. Também cobram redução dos juros, controle das contas públicas e diminuição do chamado custo Brasil — conjunto de entraves estruturais que encarecem a produção nacional, como carga tributária, burocracia, logística e energia.

José Ricardo Roriz Coelho, presidente da Abiplast (Associação Brasileira da Indústria do Plástico), afirmou que os juros elevados têm comprometido investimentos, consumo e crescimento econômico.

“Um quarto do que o Brasil gasta, algo entre 25% e 28%, é com pagamento de juros. Nós estamos com as empresas muito endividadas pagando esses juros altos e as famílias também muito endividadas, boa parcela dos brasileiros negativada, que não têm nem como consumir ou usar crédito para consumir”.

Para a coalizão, o desempenho da indústria de transformação tem ligação direta com o crescimento econômico do país. “Nos últimos 76 anos, o PIB cresceu 32 vezes acima de 4%. Em 80% das vezes que o PIB cresceu acima de 4%, a indústria de transformação cresceu numa velocidade superior. Ou seja, nessas 32 vezes, sem dúvida nenhuma, foi a nossa indústria que fez esse crescimento acontecer”, afirmou Roriz.

Apesar das críticas ao cenário econômico, a coalizão afirma que os setores representados mantêm previsão de R$ 1,1 trilhão em investimentos entre 2026 e 2030.

Durante a coletiva, a entidade divulgou um “manifesto pela aceleração do crescimento sustentado do Brasil”, defendendo que o país alcance um “patamar de crescimento sustentado do PIB de, pelo menos, 3,5% ao ano” nos próximos cinco anos sob pena de “comprometer de maneira irreversível os próximos anos”.

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