Após uma manhã de oscilações mais fortes, em que flertou com o nível de R$ 5,07 ao registrar máxima a R$ 5,0694, o dólar à vista experimentou uma acomodação ao longo da tarde, operando ao redor da estabilidade. Na última hora de negócios, com a melhora do apetite ao risco no exterior e novas máximas do Ibovespa, a moeda se firmou em baixa e encerrou a sessão cotada a R$ 5,0398, queda de 0,16%. Na semana, a divisa acumula valorização de 2,18%.
A onda compradora que dominou as mesas de operação nas últimas três sessões e levou o dólar aos maiores níveis de fins de maio arrefeceu hoje. A moeda americana perdeu força em relação a pares e à maioria das divisas emergentes e de países exportadores de commodities. Principal ponto de preocupação dos investidores nos últimos dias, as taxas de juros longas dos EUA recuaram, com a T-note de 10 anos renovado mínima no fim do dia, na casa de 4,56%.
Operadores já notaram influência na formação da taxa de câmbio do típico movimento de rolagem de posições no mercado futuro, na véspera da formação da última taxa Ptax de setembro e do terceiro trimestre. Termômetro do apetite por negócios, o dólar futuro para outubro apresentou mais uma vez giro forte, acima de US$ 17 bilhões.
O economista-chefe do Banco Pine, Cristiano Oliveira, observa que o mercado de câmbio foi muito impactado nos últimos dias pela “tempestade perfeita” que atinge a economia americana, com endurecimento do discurso do Federal Reserve, aumento de risco de paralisação parcial do governo dos EUA (shutdown), forte aumento dos preços do petróleo e números mais fortes de atividade. Em tal cenário, nos três primeiros pregões desta semana o real e o peso mexicano sofreram perdas ao redor de 2,5%, ao passo que o peso colombiano, que tem o melhor desempenho no ano, caiu mais de 4%.
“Ainda assim, essas três moedas têm no acumulado no ano evolução ainda bem positiva e devolveram apenas parte da alta. O cenário internacional mais ruidoso não altera nossa visão construtiva para o real por conta dos bons fundamentos ligas às contas externas”, afirma Oliveira. “Acreditamos que o real e peso mexicano estão bem posicionados no conjunto de moedas de emergentes e devem voltar a apreciar após os ruídos atuais perderem força”.
Entre as divisas latinas, o destaque hoje foi para o peso mexicano, com ganhos de 0,70% em relação ao dólar no fim da tarde, na esteira da decisão do Banco Central do México de manter a taxa básica de juros em 11,25% a ano. O Banxico alertou para “panorama monetário complicado e incerto” e repetiu que pretende manter a taxa inalterada “por período prolongado”.
Por aqui, o Banco Central reforçou na apresentação do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) pela manhã, com presença do presidente Roberto Campos Neto, que prende manter o ritmo de redução da taxa Selic em 0,50 ponto até o fim do ano. Ele observou que a alta recente do dólar é “mais um movimento global do que local”, com dúvidas sobre a extensão do aperto monetário nos EUA. Campos Neto ressaltou que, para o BC brasileiro, o mais importante é ver como essa movimentação do câmbio afeta as expectativas de inflação.
Nos EUA, indicadores divulgados pela manhã – leitura final do PIB do segundo trimestre levemente abaixo da expectativa e aumento menor que o esperado de pedidos semanais de seguro-desemprego – não desfizeram a visão de que a economia segue aquecida. Em todo caso, o fato de não terem surpreendido para cima já ajuda a amenizar os temores de alta adicional de juros neste ano. Sem direto a voto nas reuniões de política monetária do BC americano, o presidente do Fed de Richmond, Tom Barkin, disse, à tarde, que o crescimento parece “sólido”, mas que ainda é cedo para saber se será necessário que a taxa de juros avance ainda mais.
Houve também acomodação dos preços do petróleo. Depois de subirem com força nos últimos dias, avivando temores de mais pressões inflacionárias, os contratos futuros da commodity caíram mais de 1% em movimento de realização de lucros, embora permaneçam em níveis elevados, acima da linha de US$ 90. O contrato do tipo Brent para dezembro fechou em baixa de 1,34%, a US$ 93,10 o barril.
Dólar
Após dois dias na órbita de 114 mil pontos, nos menores níveis de fechamento desde o começo de junho, o Ibovespa, com a relativa melhora de sentimento vista também no exterior nesta quinta-feira, engatou a segunda alta, agora um degrau acima, aos 115 mil pontos, no encerramento desta penúltima sessão de setembro. Ainda assim, permanece distante do melhor momento do mês, no fechamento da primeira quinzena, quando o índice alcançou os 119.391,55 no dia 14, buscando retomar, então, nível que antecedeu a forte correção da primeira metade de agosto, que o havia rebaixado aos 114 mil já naquele trecho do mês passado.
O Ibovespa parecia mostrar reação na virada de agosto para setembro, fechando a primeira sessão do novo mês um pouco abaixo dos 118 mil. Mas as dúvidas sobre o crescimento chinês e, especialmente desde o último dia 20, a incerteza quanto ao ponto a que o Federal Reserve poderá ainda elevar os juros americanos, operaram como ducha fria para o apetite por risco, em particular para os ativos de um emergente, como o Brasil, com exposição à demanda chinesa por commodities.
Em paralelo, o mercado voltou a escarafunchar sinais sobre a condução das contas públicas, cada vez menos animado com a perspectiva de que, apenas por meio de arrecadação, o governo conseguirá cumprir a promessa de equilíbrio.
Assim, tendo perdido anteontem o sinal positivo que acumulava no mês, o Ibovespa se aproxima da conclusão de setembro bem perto do zero a zero (agora -0,01%), sob risco de prolongar o revés de agosto, quando o índice havia cedido 5,09%. O tombo de agosto sucedeu avanço ininterrupto entre os meses de abril e julho, após perdas em fevereiro e março. Dessa forma, no ano, o Ibovespa ainda acumula ganho de 5,46%, perto do fim do terceiro trimestre.
Hoje, a referência da B3 oscilou entre 114.180,49 e 115.953,65 (+1,42%), do fim da tarde, para encerrar em alta de 1,23%, aos 115.730,76 pontos, saindo de abertura aos 114.327,05 pontos. Na semana, mesmo em alta nas últimas duas sessões, o Ibovespa ainda cede 0,24%. Após ter se mantido em torno de R$ 23 bilhões na terça e quarta-feira, o giro financeiro voltou a se enfraquecer hoje, a R$ 20,6 bilhões.
No contexto da recente piora do humor externo desde a reunião do Federal Reserve concluída em 20 de setembro, o presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, ressaltou nesta quinta-feira, durante entrevista à imprensa sobre o Relatório Trimestral de Inflação (RTI), que o diferencial de juros local com o dos Estados Unidos é um preço, mas também tem um componente de risco.
“A gente olhou muito no passado se existia correlação entre diferencial e câmbio, e entre diferencial e expectativas de prêmio. No fim das contas, o diferencial é um preço, e tem também um diferencial de risco”, afirmou. Ele salientou que pode haver uma situação na qual queda do diferencial de juros é acompanhada por queda na percepção de risco.
Campos Neto disse também acreditar que, à medida que projetos de receitas forem aprovados pelo Congresso, a percepção dos agentes econômicos sobre a área fiscal vai melhorar. “Entendemos que há várias medidas que poderiam atenuar, pelo lado da receita. A gente vai acompanhar a votação dessas medidas”, afirmou o presidente do BC, acrescentando que a autoridade monetária não faz comentários sobre projetos específicos, mas que entende haver medidas que melhoram o setor fiscal, pelo aumento de receitas.
No Brasil, a recente pressão sobre o câmbio e a curva de juros tem refletido não apenas o cenário externo pouco favorável, mas também as dúvidas sobre a condução do fiscal, no plano doméstico Apesar da leve queda após o spike do dia anterior, o dólar manteve-se acima do limiar de R$ 5 ao longo da sessão desta quinta-feira, com a moeda à vista sendo negociada entre R$ 5,0159, na mínima, e R$ 5,0694, na máxima. Ao fim, mostrava sinal levemente negativo (-0,16%), a R$ 5,0398.
“O dólar ficou perto do zero a zero na sessão, mas ainda acima de R$ 5, um patamar que tem sido monitorado”, diz Stefany Oliveira, head de análise de trade da Toro Investimentos. Ela destaca que, ainda pela manhã, houve alguma acomodação nos rendimentos dos Treasuries de 2 e 10 anos, o que contribuiu, antes mesmo da abertura aqui, para que os futuros sinalizassem uma sessão mais favorável para a Bolsa e o real frente ao dólar. “Tivemos mais uma adequação de preços do que, propriamente, algo que possa ser considerado como direcional”, acrescenta.
Pela manhã, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos divulgou a última leitura sobre o crescimento do PIB no segundo trimestre, que se manteve em 2,1% em termos anualizados, observa Vanessa Naissinger, especialista da Rico Investimentos. Apesar de ter ficado abaixo da projeção de analistas consultados pela FactSet, de alta de 2,3% para o intervalo, “o dado reforça que a maior economia do mundo segue resiliente, em linha com o discurso duro do Fed, que tem pressionado os juros ao redor do mundo e impulsionado o dólar”, aponta a analista da Rico.
No mercado de commodities, destaque nesta quinta-feira para a queda do petróleo, que contribuiu para que Petrobras (ON -0,50%, PN -0,20%) se descolasse do movimento comprador observado em outras ações de primeira linha, de alta liquidez e peso significativo no Ibovespa, como Vale (ON +1,52%) e as de grandes bancos (BB ON +3,21%, Itaú PN +2,64%, Bradesco PN +2,37%, Santander Unit +1,72%). Na ponta ganhadora, CVC (+7,29%), Assaí (+5,35%), Arezzo (+4,21%) e Renner (+4,03%), com Natura (-2,87%), Prio (-2,19%), 3R Petroleum (-0,92%) e Klabin (-0,80%) no lado oposto.
“Os preços do petróleo deram uma trégua hoje nos avanços recentes, mas seguem nos maiores níveis em mais de um ano, fato que contribui para a manutenção da pressão altista sobre os juros globais”, observa em nota a Guide Investimentos.
Juros
Em uma sessão marcada pela volatilidade, os juros futuros terminaram a sessão estáveis na ponta curta e em queda nos demais trechos. Um alívio no mercado de Treasuries no fim da tarde resultou em melhora generalizada para os ativos globais. Até então, a quinta-feira era de avanço firme para a ponta curta, atribuída a apostas mais conservadoras para o ciclo de quedas da Selic, que já vinha se desenhando nos últimos dias e hoje ganhou força com a entrevista do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.
Os longos flertaram com a estabilidade durante toda a sessão em meio à pausa na escalada dos Treasuries e com leilão pequeno de prefixados do Tesouro. Em mais uma sessão de giro expressivo, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2025 fechou em estável em 10,89%, e a do DI para janeiro de 2026 caiu de 10,78% para 10,67%. O DI para janeiro de 2027 terminou com taxa de 10,88%, de 11,05%. A do DI para janeiro de 2029 encerrou em 11,37%, de 11,55%.
O dia foi de volatilidade nos DIs, importada dos Treasuries, que só firmaram tendência no fim do tarde, atribuída a ajustes técnicos após a escalada das últimas sessões. As declarações de Campos Neto foram o ingrediente doméstico a adicionar instabilidade, refreando qualquer tentativa de melhora e puxando as taxas curtas para cima, especialmente o DI para janeiro de 2025, que chegou à máxima de 11,07%.
“A fala mais emblemática é quando cita que a barra para acelerar o ritmo está mais alta”, destacou o economista-chefe do PicPay, Marco Caruso. Segundo Campos Neto, há grande incerteza no cenário externo e dado o aumento recente da curva de juros dos Estados Unidos, há consequências para os emergentes.
Caruso também ressalta a menção de Campos Neto ao “guidance”, o que, para o economista, traz dúvidas sobre o quanto a autoridade monetária tem clareza sobre o orçamento total dos cortes.
“Em momento de mais incerteza, trocar o guidance gera ruídos de credibilidade”, disse Campos Neto, na coletiva de imprensa do Relatório Trimestral de Inflação (RTI). Ele reforçou que o entendimento do Copom é de que, mesmo iniciado o ciclo de afrouxamento, a taxa Selic precisa permanecer em patamar ainda contracionista para alcançar os objetivos inflacionários.
As declarações alimentaram a ideia que vinha amadurecendo nos últimos dias de que não há espaço para aceleração do ritmo para 0,75 ponto, embora para o Copom de novembro a curva preserve 10% de probabilidade para esta opção. Para as reuniões de dezembro e janeiro, porém, as apostas em 0,75 não só estão zeradas, como os DIs já indicam 30% de chance de redução da dose para 0,25 ponto. “Para março temos 50% de chance de 0,5 ponto e 50% para 0,25 ponto”, disse o economista-chefe do banco Bmg, Flávio Serrano, que informou os cálculos.
Com isso, houve ajuste também nas projeções para a Selic terminal, com a possibilidade de que esteja em um dígito parecendo cada vez mais remota. Para o fim de 2023, a projeção de Selic é de 11,75% e para o fim de 2024 agora já é de 10,50%.
Na gestão da dívida, o Tesouro optou por lotes mínimos de prefixados, poupando assim mais estresse na curva pela manhã. Da pequena oferta de 150 mil LTN, foram vendidas 125 mil e apenas 18.750 NTN-F do lote de 100 mil.
Estadão Conteúdo