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Economia

Governo vê lobby contra o Pix; agro e indústria pedem negociação

As operadoras apontam um suposto tratamento preferencial ao sistema de pagamentos, o que prejudicaria as companhias dos EUA

Redação Jornal de Brasília

02/06/2026 20h35

Foto: Agência Brasil

Brasília, 2 – Ao criticar o tarifaço imposto pelos EUA por meio da Seção 301, o governo brasileiro indicou ontem que parte do movimento teria relação direta com o lobby de empresas americanas de cartões de crédito contra o Pix. As operadoras apontam um suposto tratamento preferencial ao sistema de pagamentos, o que prejudicaria as companhias dos EUA.

Representantes do governo brasileiro descartaram a possibilidade de negociar termos para atender às empresas dos EUA. “Não tem a menor lógica o Pix entrar nisso, porque ele não prejudica ninguém e é extremamente benéfico à população brasileira”, disse ontem, em entrevista coletiva, o vice-presidente Geraldo Alckmin, após uma reunião com ministros para tratar do tema no Palácio do Planalto, em Brasília.

Também presente na entrevista, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, criticou as alegações do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) sobre o Pix e defendeu o sistema de pagamentos. “Mais do que estar fora de debate, e é evidente que está fora de debate, o Pix é o maior símbolo da nossa soberania financeira”, disse.

Autoridades brasileiras interpretaram as críticas ao sistema, presentes na decisão do USTR, como resultado de uma pressão de empresas americanas de pagamento para privatizar o Pix. Durigan também acusou a família do ex-presidente Jair Bolsonaro de estar por trás da ação contra o Pix, que classificou como um sistema “cobiçado” no mundo.

“Mais uma vez, a família Bolsonaro faz um movimento contrário ao Pix”, disse, sem citar nominalmente o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que se reuniu com o presidente americano, Donald Trump, na semana passada.

Durigan afirmou ainda que as premissas utilizadas na investigação que resultou na proposta de tarifas estão “desatualizadas”. “Se as premissas e os parâmetros forem atualizados, sem nenhuma dúvida nós vamos explicar que o governo tem combatido o desmatamento, que as condições de trabalho no Brasil melhoraram, que a renda das famílias aumentou, que o trabalho não é predatório e que a propriedade intelectual é respeitada no País”, disse.

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) defendeu o Pix em nota. No comunicado, a entidade afirmou que as avaliações do órgão dos EUA resultam de informações “incompletas” sobre os objetivos e funcionamento do meio de pagamento. A entidade também nega as alegações de que o Pix seja discriminatório e chama atenção para o modelo aberto. “O Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos e consequentemente da atividade econômica”, disse.

AGRO E INDÚSTRIA

Setores produtivos disseram estar preocupados com a medida.

A vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) no Senado, Tereza Cristina (PP-MS), afirmou ontem considerar difícil que o Brasil reverta as tarifas até 15 de julho, data marcada para a entrada em vigor da medida.

“Ela (a investigação) ainda tem algum prazo para respostas e defesas que o Brasil pode apresentar, mas achamos muito difícil reverter esse quadro até o dia 15 (de julho). Vou me aprofundar agora em entender como ocorreu a reversão desse processo em outros países, caso a medida seja mantida até 15 de julho”, declarou ela.

Entidades que representam a indústria também se queixaram do tarifaço imposto pelo governo americano.

“A relação econômica entre Brasil e Estados Unidos é estratégica, sólida e construída ao longo de décadas. A eventual adoção de tarifas adicionais vai prejudicar a indústria brasileira e o mercado norte-americano.

O momento exige diálogo e análise técnica”, disse, em nota, Ricardo Alban, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI). “De nossa parte, estamos prontos para contribuir com as negociações.”

Dados analisados pela CNI mostram que, no ano passado, as exportações brasileiras de bens da indústria de transformação para os Estados Unidos já registraram queda de 4,2% em comparação com o ano anterior. As vendas do setor para o mercado americano totalizaram US$ 30,2 bilhões.

Segundo números da confederação, nove dos 15 principais setores da indústria de transformação registraram queda nas exportações em 2025. As maiores reduções ocorreram nos segmentos de produtos de metal (-31,6%), madeira (-20%), celulose e papel (-19,9%) e veículos automotores (-17,6%).

A Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) também afirmou acompanhar com “profunda preocupação” o relatório do USTR.

“A diplomacia empresarial cumpriu um papel relevante na negociação das exclusões de uma lista de produtos até aqui. Neste momento, no entanto, é fundamental uma atuação rápida e firme do governo brasileiro para evitar a confirmação de prejuízos graves às exportações do País antes da decisão final, esperada para julho”, disse, em nota, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf.

A mesma linha é seguida pela Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg). Segundo a entidade, embora a medida ainda esteja em fase de consulta pública e não tenha sido aplicada, a proposta pode gerar impactos relevantes para a economia brasileira.

“A imposição de tarifas adicionais, mesmo que parcial, tende a reduzir a competitividade dos produtos brasileiros, ampliar o ambiente de incerteza para as empresas exportadoras e afetar investimentos, empregos e negócios ligados ao comércio exterior”, afirmou a Fiemg, em nota.

Estadão Conteúdo

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