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Economia

Fim da escala 6×1 pode reduzir lucro de empresas na Bolsa, dizem analistas

O impacto sobre as ações dependerá da capacidade de cada companhia de absorver as despesas adicionais ou repassá-las aos preços

Redação Jornal de Brasília

15/10/2026 11h36

Foto: Agência Brasil

Foto: Agência Brasil

JÚLIA GALVÃO E MATHEUS DOS SANTOS
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)

A redução da jornada de trabalho de 44 horas para 40 horas semanais pode elevar os custos das empresas listadas na Bolsa e pressionar seus lucros, sobretudo daquelas que dependem de equipes numerosas para manter suas operações, segundo analistas ouvidos pela reportagem.

O impacto sobre as ações dependerá da capacidade de cada companhia de absorver as despesas adicionais ou repassá-las aos preços.

Varejistas, redes de farmácias, supermercados, hospitais, construção civil e shoppings estão entre os setores mais expostos à mudança. Para manter as operações, essas empresas podem precisar contratar funcionários, pagar horas extras ou reorganizar os turnos de trabalho.

Companhias maiores, com mais capacidade de investir em tecnologia, tendem a ter mais alternativas para conter os custos, enquanto empresas menores podem enfrentar maior pressão sobre a rentabilidade.

Na manhã desta quinta-feira (15), o Ibovespa recuava 1,26%, aos 203.897 pontos, às 10h33, em meio à repercussão do avanço da proposta e às incertezas eleitorais. Entre as maiores baixas estavam ações de Lojas Renner, C&A, Assaí, Azzas, Raia Drogasil e Iguatemi. Bancos, Vale e Petrobras, que têm peso relevante no índice, também registravam perdas, embora não sejam diretamente expostos aos efeitos da mudança na jornada de trabalho.

Os juros futuros subiam diante das preocupações com os possíveis efeitos da redução da jornada sobre a inflação, já que o aumento dos custos trabalhistas pode ser repassado aos preços e dificultar a queda dos juros. O dólar avançava 0,61%, a R$ 5,062, na contramão da moeda americana no exterior. O mercado acompanha ainda as pesquisas eleitorais mais recentes, que indicam empate técnico entre o presidente Lula (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL).

Para Pedro Moreira, sócio da One Investimentos, o impacto da aprovação da PEC deve ser mais significativo para empresas que atuam em contato direto com o consumidor final, especialmente no varejo, que depende de equipes presenciais e de estabelecimentos abertos ao longo de toda a semana.

“No setor, muitas empresas operam sete dias por semana e já possuem uma estrutura relevante de horas extras, o que exigiria a reorganização das escalas e, possivelmente, novas contratações para manter o nível atual de atendimento.”

Segundo ele, a aprovação da proposta pode influenciar a percepção dos investidores, uma vez que a perspectiva de aumento dos custos operacionais tende a pressionar os resultados das empresas, ao menos no curto prazo.

Arthur Bonifácio, analista da Eleven Financial, também aponta o varejo entre os setores mais expostos,com atenção especial para o varejo farmacêutico, como Pague Menos (PGMN3), Panvel (PNVL3) e RD Saúde (RADL3).

Ele afirma que os gastos com folha costumam responder por cerca de 30% a 50% das despesas com vendas dessas companhias, e grande parte das equipes atua em jornada superior a 40 horas semanais ou em escala 6×1. No caso da RD Saúde, contudo, o analista diz que os funcionários já trabalham no modelo 5×2, o que a coloca em posição mais favorável de adaptação frente a concorrentes menores.

Felipe Cima, analista de renda variável da Manchester Investimentos, afirma que ainda há incerteza sobre como as empresas vão absorver os custos adicionais.

“Entre as empresas listadas no varejo estão Riachuelo, C&A, Lojas Renner, Grupo Mateus, Assaí, Magazine Luiza e Casas Bahia. O problema é que não se sabe como essa mudança vai ser absorvida pelas empresas.”

Para ele, a medida pode reduzir a oferta de mão de obra ou levar ao repasse de despesas aos preços. “É muito difícil que as empresas renunciem a margem. E a margem, enfim, é o que importa para o investidor em Bolsa. Então, em um momento de bastante depreciação das ações, com possibilidade de uma queda de juros, parece que o mercado ainda deixa a dúvida de pé.”

O impacto direto da redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, sem corte salarial, é um aumento de cerca de 10% no custo por hora trabalhada, antes de eventuais ganhos de produtividade, afirma Maria Carolina Luchesi, analista de investimentos da Hike Capital.

A transição de 14 meses prevista na PEC, no entanto, permite que as empresas adaptem suas operações antes da aplicação integral da medida.

Segundo Luchesi, setores como petróleo, mineração e energia tendem a ser menos afetados, porque os gastos com pessoal representam uma parcela menor dos custos. O setor bancário também deve sentir menos os efeitos, já que a jornada da categoria é reduzida por lei.

Ruy Hungria, analista da Empiricus, afirma que as empresas podem recorrer à automação e a outras medidas de eficiência para conter os gastos, mas diz que as menores, com menos recursos para investir, tendem a enfrentar mais dificuldades.

Para Gabriel Felix, especialista de alocação da Blue3 Investimentos, parte dos custos adicionais pode ser repassada aos preços, pressionando a inflação e dificultando a queda dos juros. Ele também vê risco de perda de competitividade para varejistas de vestuário e eletrônicos, que já enfrentam juros elevados, endividamento dos consumidores e concorrência de plataformas estrangeiras, como Shopee e Shein.

Enrico Cozzolino, sócio da Zermatt Partners, diz que a mudança pode acelerar a concentração de mercado. Empresas maiores, com escala, caixa e menor endividamento, tendem a se adaptar melhor e podem ganhar participação, enquanto companhias menores ficam sob maior pressão. Por outro lado, setores de tecnologia e automação podem se beneficiar da busca por eficiência, assim como lazer e turismo, caso a redução da jornada amplie o tempo livre dos trabalhadores.

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