GABRIELA CECCHIN
FOLHAPRESS
O Fed (Federal Reserve, o banco central dos Estados Unidos) manteve novamente a taxa básica de juros na faixa entre 3,5% e 3,75% na decisão de política monetária desta quarta-feira (29). A decisão já era esperada pelo mercado e foi aprovada por 9 votos a 3, com três dirigentes (Beth M. Hammack, Neel Kashkari, and Lorie K. Logan) defendendo uma alta imediata de 0,25 ponto percentual.
No comunicado, o Comitê Federal de Mercado Aberto (responsável por definir a política monetária no Fed) afirmou que a atividade econômica continua crescendo em ritmo sólido apesar da elevada incerteza causada pelo conflito no Oriente Médio.
O texto também diz que o crescimento da produtividade e do investimento permanece forte, mas a inflação continua acima da meta de 2%, em parte devido aos choques de oferta que elevaram os preços da energia. O Fed reiterou o compromisso de garantir a estabilidade dos preços.
Ao longo do mês, investidores acompanharam atentamente declarações do presidente do Fed, Kevin Warsh que manteve as intenções sobre a taxa em sigilo, em busca de sinais sobre os próximos passos da política monetária. O banco divulgou a decisão às 15h (horário de Brasília).
Os contratos futuros de juros indicavam, na véspera da decisão, maior probabilidade de manutenção das taxas, mas ainda atribuíam chances relevantes a uma elevação imediata. Ao longo do mês, a chance de alta ganhou força após uma sequência de declarações de dirigentes do Fed defendendo cautela diante da persistência da inflação.
Em junho, o índice de preços dos Estados Unidos caiu 0,4%, de 4,2% para 3,5%, mas segue acima da meta de 2% perseguida pelo banco central.
Gastos ligados à inteligência artificial foram apontados, por Janet Yellen, ex-secretária do Tesouro americano e ex-presidente do Fed, como um fator de pressão sobre a demanda, por conta da forte expansão dos gastos com data centers, semicondutores e infraestrutura elétrica. Ainda, os preços sofreram pressão recente pelos custos de energia e pelos efeitos do conflito no Oriente Médio.
Desde que assumiu a presidência do Fed, em maio, Kevin Warsh evita antecipar os próximos movimentos da autoridade monetária. O novo chairman abandonou a prática de oferecer orientações futuras explícitas (“forward guidance”) e afirmou em diferentes ocasiões que as decisões dependerão da evolução dos dados econômicos. A reunião desta quarta foi considerada uma das mais difíceis de prever dos últimos meses.
Na reunião anterior, realizada em junho, o Comitê também manteve a taxa entre 3,5% e 3,75%, mas divulgou projeções mostrando que mais da metade dos dirigentes passou a esperar pelo menos uma elevação dos juros até o fim do ano. A decisão desta quarta expôs as divergências dentro do colegiado, com três dirigentes votando por uma elevação imediata da taxa.
Nas últimas semanas, Warsh voltou a defender que indicadores de oferta monetária passem a integrar o conjunto de informações analisadas pelo Fed, embora tenha ressaltado que eles não substituirão os demais indicadores econômicos na definição da política monetária.
Ainda, as reuniões da autoridade monetária acontecem sob pressão do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que defende juros mais baixos para estimular a atividade econômica.
O chairman, entretanto, reitera que o Fed continuará atuando de forma independente. Desde a posse, ele repete que a autoridade monetária não possui “tolerância” para uma inflação persistentemente acima da meta e que prefere evitar qualquer sinalização antecipada sobre futuras decisões.
A decisão do Fed costuma influenciar mercados em todo o mundo, inclusive o brasileiro.
Juros elevados nos Estados Unidos tendem a aumentar a atratividade dos títulos do Tesouro americano, reduzindo o fluxo de recursos para economias emergentes. Esse movimento pode pressionar o dólar frente ao real e limitar o desempenho da Bolsa brasileira.
Por outro lado, a manutenção das taxas, dependendo do tom adotado pelo Fed para as próximas reuniões, pode aliviar parte dessa pressão, principalmente em um momento em que investidores esperam novo corte da taxa Selic até o fim do ano. A próxima reunião do Banco Central está programada para a próxima terça-feira (4) e quarta-feira (5).
Além da decisão do Fed, os mercados seguem monitorando a evolução do conflito no Oriente Médio, o comportamento dos preços do petróleo, a temporada de balanços das grandes empresas de tecnologia e os novos indicadores de inflação e atividade econômica nos Estados Unidos, que poderão influenciar as próximas reuniões da autoridade monetária.
Fed mantém juros entre 3,5% e 3,75% nos EUA, mas três dirigentes defendem alta
Decisão já era esperada pelo mercado e foi aprovada por 9 votos a 3
Sede do Federal Reserve, o Banco Central dos EUA. Foto: Federal Reserve Board.