Um empreendimento inovador para o agronegócio brasileiro promete trazer substanciais investimentos para o país e a garantia da ampliação do protagonismo nacional no cenário de exportação e distribuição de alimentos para nações integrantes da Liga Árabe e no mundo. O lançamento oficial da empresa deverá acontecer entre janeiro e fevereiro de 2025, mas a Farmland Global Solutions já desponta como potência na interlocução comercial entre o Brasil e o Oriente Médio – e futuramente a Ásia.
A empresa de assessoria de investimentos foi criada pelo ex-presidente do Banco do Brasil, Fausto de Andrade Ribeiro, sócio-fundador que chamou uma equipe de peso para atrair investidores externos. Entre eles, Celso Moretti, ex-presidente da Embrapa; Evaristo de Miranda, ex-diretor da Embrapa Territorial e Marcos Troyjo, ex-presidente do Novo Banco de Desenvolvimento, o Banco dos Brics.
Também são sócios o ex-secretário especial de Assuntos Estratégicos do governo Bolsonaro, almirante Flávio Rocha, e alguns ex-diretores do Banco do Brasil.
Em vista da necessidade de crescimento das armazenagens alimentícias e da demanda por segurança alimentar em países do Oriente Médio, investidores árabes encontram na Farmland a assessoria para a compra de terras produtoras e o investimento de capital em terras brasileiras, acompanhando desde a escolha de um fazendeiro-sócio até o monitoramento das produções para o árabe comprador. Porém, o que se propõe para o projeto vai além da compra de terras no Brasil por estrangeiros árabes.
Serão três frentes de atuação da Farmland: a compra de terras, o investimento em armazenagem de produtos e commodities em silos e armazéns no Brasil, e a compra de ações de empresas alimentícias. Os recursos virão de fundos soberanos, capitais governamentais que funcionam como uma reserva financeira para proteger a economia nacional, financiar o desenvolvimento e diversificar commodities.
Compra de terras
A primeira mencionada consiste na compra de terras de fazendas já produtoras em variadas regiões do país. À medida em que o investidor árabe adquirir a terra, ele terá direitos sobre a produção, mas quem irá administrar as plantações serão os sócios fazendeiros que venderam as terras.
Trata-se do modelo de contrato Sale Lease Back (SLB), que permite a locação (arrendamento) do mesmo imóvel ou terreno para o antigo proprietário após a venda efetuada. Em um cenário em que o árabe compra 50% da propriedade, o produtor terá, além da capitalização na negociação, o uso da propriedade vendida como garantia de mercado com o ente internacional.
A partir da produção, o fazendeiro poderá entregar os resultados das safras de duas maneiras: em commodities para a garantia de estoque para o novo dono de parte das terras, ou em recursos financeiros decorrentes da comercialização dos produtos. Quem definirá como será feito o pagamento será o investidor árabe, conforme julgar o mais adequado no momento.
De acordo com Ribeiro, o agronegócio brasileiro vive atualmente um cenário de desconforto, uma vez que há muito patrimônio, mas com uma capitalização ainda aquém do potencial. Em termos de fluxo financeiro, os rendimentos decorrentes do agronegócio têm muito a expandir, segundo ele. Nesse sentido, o investimento externo de países árabes é a parceria ideal, e a Farmland atuará para garantir as melhores conexões e negociações.
“A Farmland Global Solutions vai ter o desafio de identificar um possível sócio para o árabe. Esse sócio tem que ter o know-how, a expertise de plantio, de colheita, usando as melhores práticas, ter equipamentos, tecnologia, histórico de produção, estar em uma terra fértil com recursos hídricos e que tenha rotas de escoamento das produções”, afirmou.
Armazenagem em silos
Como segunda frente de investimentos árabes no país, a Farmland destaca como opção a aplicação de capital em armazenagem de produtos e commodities em silos e armazéns, que estarão localizados em pontos estratégicos no Brasil. “Nossa ideia é convencer os árabes e os fundos soberanos de uma forma geral a fazerem investimentos também em silos e armazéns estratégicos aqui no Brasil, especialmente localizados próximo a portos”, explicou.
Os silos podem estar ligados ao Norte, ao Nordeste e ao Sul do Brasil, dependendo da rota marítima a ser escolhida para o transporte dos estoques. A estratégia é também benéfica para o Brasil, que atualmente tem déficit de silos e consequente perda financeira. O país teve prejuízo de R$ 30,5 bilhões em 2023 com a deficiência de armazenagem, conforme estimou a consultoria Cogo Inteligência em Agronegócio.
“Aqui no Brasil hoje nós só temos 50% de capacidade de armazenagem do que nós produzimos. A produção fica na caçamba de caminhão, fica em lonas no pasto. Temos uma estimativa que a gente perde, com as sementes estragando por causa do clima e também do transporte até o porto, cerca de 20% da produção. É um desperdício tremendo”, relatou Ribeiro.
A estimativa é que a parceria pode trazer também uma uma maior eficiência na armazenagem da safra, garantindo a venda de produtos e não correndo o risco de desperdício. “[Será exponencial] se a gente tiver rotas melhores dos escoamento da mercadoria e se nós tivermos também mais silos e armazéns”, acrescentou.
Compra de empresas
Em último lugar, a Farmland prestará assessoria também na compra de empresas alimentícias nacionais, principalmente na forma de ações, uma vez que a indústria de produção de alimentos processados também é importante para a Liga Árabe.
Até o momento, o Fundo Soberano da Arábia Saudita, o Salic (Saudi Agricultural and Livestock Investment Company, em inglês) já se tornou um dos maiores acionistas de duas gigantes brasileiras do mercado alimentício mundial: a BRF e a Minerva Foods.
Para a primeira, o Salic contratou o fornecimento, por ano, de até 200 mil toneladas em produtos quando houver estado de emergência alimentar na Arábia Saudita. Já com a segunda, o fundo se confirmou, entre 2015 e 2020, como o acionista majoritário do frigorífico, detendo mais de 30% da companhia.
Time de credibilidade
De acordo com Fausto Ribeiro, fundador da Farmland, a equipe reunida é a garantia de segurança para os investidores externos, sejam árabes ou de outras nacionalidades. O time montado pelo empresário já é conhecido dentro do segmento de mercado e possui boas referências do notável trabalho realizado ao longo dos anos, cada qual em sua área de expertise.
Para o empresário, a escolha pelos parceiros do empreendimento foi assertiva e muito estratégica, a fim de cobrir todas as principais áreas que envolverão as negociações com “as Arábias”, desde a aproximação com os investidores até a efetivação de contratos de interesse de ambas as partes. “O que procuramos quando escolhemos essas pessoas foi, em primeiro lugar, se complementar”, destacou.
“Por exemplo, o almirante Flávio Rocha, apesar de ter tido uma carreira na Marinha e uma parte no serviço público, ele é um cara que conhece as instituições internacionais – e ele foi presidente do Conselho Nacional de Fertilizantes [CONFERT], que tem respeitabilidade na área e fez um excelente trabalho, com uma carreira maravilhosa. E ele fala oito idiomas”, afirmou, o que deve abrir muitas portas entre as negociações.
Brasil: celeiro do mundo
Diante do crescente aumento populacional mundial e da carência de commodities em países árabes, o Brasil emerge como robusta resposta a essa necessidade – e dessa potencialidade surgiu a Farmland. Desde 2020, a parceria entre os dois países tem crescido exponencialmente. Somente no primeiro semestre de 2024, as exportações do Brasil aos países árabes aumentaram 25,8%, chegando a US$ 11,217 bilhões movimentados, segundo levantamento da Câmara de Comércio Árabe-Brasileira.
Conforme mostrou o órgão, as maiores exportações foram de açúcar, minérios de ferro, carne de frango, carne bovina e milho. Os maiores compradores foram os Emirados Árabes Unidos, a Arábia Saudita, o Egito, a Argélia e o Iraque. A segurança alimentar nestes países se tornou uma preocupação, uma vez que, em muitas regiões, os estoques alimentícios são escassos.
Nesse sentido, a assessoria da Farmland surge para fomentar ainda mais as negociações com os países do Oriente Médio e demais nações a longo prazo, como a Índia – país que ultrapassou a China e se tornou o mais populoso do mundo, com mais de 1,4 bilhão de habitantes. Em 2050, de acordo com estimativa da Organização das Nações Unidas (ONU), a população da Índia deve ultrapassar os 1,6 bilhão de habitantes e a mundial deverá chegar a 9,7 bi.
Braço da ONU, a Organização para Alimentação e Agricultura (FAO, em inglês) estima que é necessário que a produção de alimentos no mundo aumente em 70% até 2050. “Teremos uma demanda maior de alguns países populosos, como a Índia. Isso tende a trazer mais concorrência. […] E o Brasil é o único país que tem as condições que são importantíssimas [para abastecer boa parte do planeta]”, afirmou Ribeiro.
“São cinco condições [propícias para o protagonismo brasileiro na produção de alimentos no mundo]: nós temos terra em abundância, recursos hídricos, um clima favorável, agricultores capacitados e tecnologia e biotecnologia [para aumento e eficiência de produção], especialmente a da Embrapa. Qual país no mundo tem isso que nós temos?”, ponderou.
A Agência Brasileira de Promoção de Exportações (ApexBrasil) publicou, em maio deste ano, dois estudos sobre as dinâmicas comerciais e de investimento entre o Brasil e duas das mais importantes economias do Oriente Médio: os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita. O levantamento reforça a tendência de aumento do consumo das exportações brasileiras e prevê o crescimento da relação econômica entre os países.