MAELI PRADO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva no segundo turno fez saltar as expectativas de inflação de analistas de mercado para os próximos anos, mostra pesquisa realizada pela corretora BGC Liquidez com cerca de 30 participantes de mercado.
A mediana das estimativas (medida que desconsidera valores muito altos ou muito baixos), coletadas junto a gestores e tesouraria de bancos, vê o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) em 5,3% no ano que vem e 4,3% no final de 2028.
É uma piora expressiva em relação à última pesquisa semanal Focus, do Banco Central, realizada antes do segundo turno das eleições presidenciais, quando a expectativa era de uma alta de preços de 4,34% em 2027 e de 3,75% em 2028. A meta de inflação é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual.
A pesquisa da BGC é feita com analistas que tradicionalmente revisam mais rápido suas expectativas, e costuma antecipar em duas semanas a pesquisa Focus, que ouve também especialistas que levam mais tempo para rever suas projeções. A próxima será divulgada pelo BC na terça-feira (3).
O economista de inflação e commodities da BGC, Carlos Thadeu, aponta que o salto nas estimativas está relacionado à ausência de uma âncora fiscal, com a avaliação de que haverá mais gastos pelo governo Lula, e à valorização do dólar, que subiu de R$ 4,99 no final da semana retrasada para R$ 5,44 no fechamento desta sexta (30).
Ele ressalta que 11% dos ouvidos no levantamento feito nesta semana veem uma inflação ainda maior, acima de 6%, em dezembro do ano que vem.
“O mercado estava disposto a dar o benefício da dúvida para o Flávio Bolsonaro, com a expectativa de cortes de gastos e Selic [a taxa básica de juros] mais baixa. Com a reeleição do Lula, essa precificação foi devolvida”, diz.
A maior fonte de pressão sobre o IPCA projetado pelo mercado para o ano que vem, afirma ele, vem dos preços administrados, que por sua vez são influenciados principalmente por combustíveis, como gasolina e diesel, que subirão mais no mercado interno com o real mais fraco.
“O preço dos combustíveis é dado no mercado internacional, e o Brasil importa 30% do seu diesel. Sem os riscos fiscais, o câmbio de equilíbrio seria algo próximo de R$ 4,50, até abaixo disso”, avalia o economista da BGC.
Thadeu ainda menciona a aprovação do fim da escala 6×1 como fonte de pressão sobre a inflação do ano que vem. “Você mudar a escala 5×2 significa precisar de pelo menos 10% a mais de mão de obra”, estima.
A preocupação dos economistas é com o cenário fiscal, que requer um ajuste de ao menos R$ 250 bilhões nos próximos quatro anos, como mostrou a Folha de S. Paulo, em um momento em que a dívida bruta do Brasil já chega a quase 83% do PIB (Produto Interno Bruto), o maior nível em cinco anos.
O governo Lula prevê um déficit de R$ 67,3 bilhões neste ano, ou 0,5% do PIB, o que significa que a dívida bruta vai subir ainda mais.
Para economistas, o saldo das contas precisaria, idealmente, subir a 2% ou 2,5% do PIB até 2030, sem recorrer a subterfúgios ou descontos, mas eles ainda não veem uma sinalização clara de que a política fiscal se encaminhará nessa direção.
Nesse cenário, Thadeu afirma que o mercado avalia que não há espaço para o Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central) cortar a taxa básica de juros (Selic) na próxima reunião, na quarta-feira (4).
Hoje os juros estão em 13,75% ao ano, e a expectativa antes do segundo turno era de que o colegiado iria reduzir a taxa a 13,25% ao ano até o final de 2026.
Segundo o economista da BGC, a curva de juros futuros precifica agora a manutenção da taxa na reunião da semana que vem, com uma chance de apenas 20% de corte de 0,25 ponto percentual. Para o ano que vem, diz ele, a curva já embute uma alta de 1,5 ponto.