JÚLIA GALVÃO
FOLHAPRESS
O circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações na Bolsa brasileira quando o Ibovespa registra quedas acentuadas, foi acionado nesta segunda-feira (26) pela primeira vez desde março de 2020, durante a pandemia de coronavírus.
A paralisação ocorreu após a vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) sobre Flávio Bolsonaro (PL) no segundo turno da eleição presidencial, realizado no domingo (25). O resultado provocou forte reação negativa dos investidores, com perdas expressivas nos ativos brasileiros.
Criado em 1997, o circuit breaker funciona como um sistema de segurança para conter movimentos bruscos de queda na Bolsa. Durante a interrupção, ficam suspensas as negociações dos ativos abrangidos pelo mecanismo, incluindo ações, derivativos e títulos de renda fixa privada.
Pelas regras da B3, a primeira suspensão ocorre quando o Ibovespa cai 10% em relação ao fechamento do pregão anterior e dura 30 minutos. Se, após a reabertura, a queda atingir 15%, as negociações são interrompidas novamente, desta vez por uma hora. Caso a desvalorização chegue a 20%, a Bolsa poderá determinar uma nova suspensão, por prazo a ser definido.
O mecanismo não é acionado nos últimos 30 minutos do pregão. Caso a interrupção ocorra na última hora de negociação, o encerramento pode ser prorrogado em até 30 minutos para permitir a retomada das operações.
Desde sua criação, o circuit breaker foi utilizado em momentos de turbulência no mercado financeiro, como a crise asiática de 1997, a crise financeira mundial de 2008 e a pandemia de coronavírus, em 2020.
VEJA QUANDO O CIRCUIT BREAKER JÁ FOI ACIONADO NA BOLSA BRASILEIRA
1997 – CRISE ASIÁTICA
A crise financeira que atingiu países asiáticos provocou uma fuga de investimentos de mercados emergentes e fortes quedas nas Bolsas ao redor do mundo. No Brasil, o circuit breaker foi acionado três vezes naquele ano.
– 28 de outubro: Ibovespa fechou em queda de 6,42%, após recuar 12,76% durante o pregão.
– 7 de novembro: fechou em queda de 6,38%, após atingir baixa de 10,43%.
– 12 de novembro: encerrou o dia em queda de 10,20%, após recuar 10,77%.
1998 – CRISE NA RÚSSIA
Em 1998, a Rússia viveu o reflexo da crise asiática do ano anterior. Com isso, o mercado financeiro russo teve fuga de capitais, bancos em crise, e queda do preço do petróleo, principal fonte de moeda forte para o país. Em apenas um ano, a Bolsa brasileira foi interrompida cinco vezes.
O governo russo, com menos recursos, se viu sem condições de pagar dívidas externa e interna -não tinha recursos para pagar salários de funcionários públicos, militares e manter serviços estatais, como hospitais
– 21 de agosto: fechou em queda de 2,85%, após recuar 10,02%.
– 4 de setembro: fechou em queda de 6,13%, após atingir baixa de 13,90%.
– 10 de setembro: o mecanismo foi acionado duas vezes. O Ibovespa encerrou o dia em queda de 15,82%.
– 17 de setembro: fechou em queda de 4,84%, após recuar 10%.
1999 – Desvalorização do real
Em janeiro de 1999, no primeiro mês após a reeleição de Fernando Henrique Cardoso, o Brasil abandonou o regime de bandas cambiais, que limitava a oscilação do dólar, e passou a adotar o câmbio flutuante. A mudança provocou forte desvalorização do real e turbulência no mercado financeiro, levando a duas interrupções na Bolsa.
– 13 de janeiro: Ibovespa fechou em queda de 5,05%, após recuar 10,78%.
– 14 de janeiro: encerrou o pregão em queda de 9,97%, após atingir baixa de 10,09%.
2008 – CRISE FINANCEIRA GLOBAL
Nos anos 2000, o mercado imobiliário americano estava aquecido pela alta oferta de crédito. Os financiamentos eram feitos com garantia em imóveis, e bancos repassavam esses créditos como investimentos. No entanto, tomaram crédito pessoas que não tinham como pagar (subprime, ou, de segunda linha, em inglês), gerando calote em série e a queda brusca do preço dos investimentos e dos imóveis.
O banco de investimento Lehman Brothers, que negociava esses papéis, faliu em 2008. No Brasil, a Bolsa de Valores foi interrompida seis vezes.
– 29 de setembro: fechou em queda de 9,36%, após recuar 13,82%.
– 6 de outubro: o mecanismo foi acionado duas vezes, após o índice atingir queda de 15,50%. O Ibovespa fechou em baixa de 5,43%.
– 10 de outubro: fechou em queda de 3,37%, após recuar 10,36%.
– 15 de outubro: encerrou o dia em queda de 11,39%, após atingir baixa de 14,81%.
– 22 de outubro: fechou em queda de 10,18%, após recuar 10,28%.
2017 – JOESLEY DAY
A divulgação da gravação de uma conversa entre o empresário Joesley Batista, da JBS, e o então presidente Michel Temer (MDB) provocou forte turbulência política e financeira. O episódio ficou conhecido como “Joesley Day”.
– 8 de maio: o Ibovespa fechou em queda de 8,80%, após recuar 10,70% durante o pregão.
2020 – PANDEMIA DE CORONAVÍRUS
O avanço da pandemia de Covid-19 e as incertezas sobre seus impactos na economia mundial provocaram uma onda de vendas nas Bolsas. Em março, o mecanismo foi acionado seis vezes, em cinco pregões.
– 9 de março: Ibovespa fechou em queda de 12,17%, após recuar 12,36%.
– 11 de março: encerrou o dia em queda de 7,64%, após atingir baixa de 12,38%.
– 12 de março: o mecanismo foi acionado duas vezes. O Ibovespa fechou em queda de 11,76%.
– 16 de março: a Bolsa acionou o mecanismo após recuar 12,52% na abertura. O índice fechou em queda de 13,92%.
– 18 de março: o Ibovespa voltou a cair mais de 10%, levando a uma nova interrupção. O índice encerrou o dia em baixa de 10,35%.
2026 – REELEIÇÃO DE LULA
A vitória de Lula sobre Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais provocou uma forte reação negativa dos investidores, com queda da Bolsa, disparada do dólar e alta dos juros futuros.
– 26 de outubro: o circuit breaker foi acionado após o Ibovespa cair mais de 10%. Depois da retomada das negociações, o índice chegou a registrar queda de 16,98%, aos 170.461 pontos, por volta das 10h46.