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Economia

Dólar vai a R$ 5,01 com exterior negativo e ajustes após rali eleitoral

A alta global da moeda norte-americana e os níveis elevados das taxas dos Treasuries pesaram sobre as divisas emergentes

Redação Jornal de Brasília

07/10/2026 18h26

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

São Paulo, 07 – Após dois pregões seguidos de queda, em que acumulou desvalorização de 4,62%, o dólar subiu nesta quarta-feira, 7, frente ao real e ultrapassou a marca de R$ 5,00 A alta global da moeda norte-americana e os níveis elevados das taxas dos Treasuries pesaram sobre as divisas emergentes, o que pode ter levado investidores a embolsar lucros obtidos com o rali eleitoral.

Depois de rondar os R$ 5,00 ao longo a tarde, o dólar à vista tocou máxima de R$ 5,0167 na reta final dos negócios, embora não tenha ocorrido aceleração dos ganhos da moeda lá fora.

Operadores não identificaram um gatilho específico para esse movimento, mas citam possível desconforto com declarações do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), de que o projeto que põe fim à escala 6×1 pode ser apreciado antes do segundo turno. Trata-se de uma das bandeiras de campanha do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

O dólar terminou o dia em alta de 0,72%, a R$ 5,0112. Com o tropeço no fim do pregão, o real amargou o pior desempenho entre as divisas latino-americanas. Na semana, a taxa de câmbio recua 3,94%, o que leva as perdas acumuladas em 2026 para 8,70%.

O economista-chefe da Bravonte Capital, Eduardo Velho, avalia que o câmbio já absorveu boa parte do impacto do fluxo estrangeiro e da queda do prêmio de risco com o chamado “trade eleitoral”. “O anúncio de apoio de outros candidatos à candidatura que o mercado considera propensa a fazer um ajuste fiscal limita a intensidade da alta do dólar frente ao real”, afirma Velho.

Em costura política para o segundo turno, o senador Flávio Bolsonaro (PL) já obteve o apoio dos candidatos derrotados Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), além do endosso do PP e do União Brasil. Ele ainda negocia com Republicanos e Podemos. A expectativa é pela divulgação, na quinta-feira, 8, da primeira pesquisa Datafolha para o segundo turno.

“Após o rali no primeiro turno, a direção dos preços dos ativos provavelmente dependerá dos sinais das pesquisas, das declarações dos candidatos sobre cargos-chave no gabinete e de um esboço mais preciso para a estratégia fiscal”, afirma o Goldman Sachs, em relatório assinado pelo diretor de pesquisa macroeconômica para a América Latina, Alberto Ramos.

Lá fora, o índice DXY – referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes – subia 0,46% perto do fim da tarde, após máxima aos 102,499. A taxa da T-note de 10 anos operava na casa de 5,28%, em ligeira queda, depois de máxima de 5,36%, maior nível em 24 anos. Após esboçar uma arrancada pela manhã, os preços do petróleo perderam força à tarde, mas o contrato do Brent para dezembro se manteve acima dos US$ 100 por barril.

Divulgada à tarde, a ata do encontro do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) em setembro, quando a taxa básica dos EUA foi elevada para a faixa entre 3,75% e 4%, reiterou que as atenções do BC dos EUA seguem voltadas para a inflação. A maioria dos dirigentes do Fed avalia como apropriado um novo aumento do juro básico até o fim do ano.

A economista Luíza Pinese, da XP, destaca que o “ambiente global segue ambíguo” para o Brasil. De um lado, há o aperto monetário nos EUA e juros mais altos nas economias avançadas. De outro, os preços de commodities relevantes para o país, como petróleo e grãos, seguem elevados, o que favorece os termos de troca.

“A escalada das taxas dos títulos soberanos de longo prazo nos Estados Unidos reduz a atratividade relativa dos ativos financeiros de economias emergentes, sendo o principal risco para a moeda brasileira”, afirma Pinese, que mantém projeção de taxa de câmbio em R$ 5,00 em dezembro deste ano e de R$ 5,30 no fim de 2027. “Caso a perspectiva de um ajuste fiscal mais profundo ganhe tração após as eleições, a apreciação recente tende a se sustentar e abrir espaço para uma taxa de câmbio mais valorizada, sobretudo em 2027.”

Bolsa

Pelo segundo dia seguido após o rali que levou o Ibovespa às máximas históricas, o índice voltou ao campo negativo, mais uma vez na combinação de ajuste de posições com um movimento mais adverso no exterior.

Com as bolsas americanas em queda e menor propensão à tomada de risco em emergentes, o índice se acomodou na faixa dos 204 mil pontos (204.302,33 pontos), com baixa de 0,74%. O giro financeiro foi de R$ 40 bilhões. No mês, o Ibovespa sobe 9,64%; no ano, 26,8%. No exterior, o EEM, maior ETF ligado a emergentes, caiu 1,3%.

O assessor de investimentos da InvestSmart, Bruno Ponciano, avalia que a correção após a forte alta recente era esperada e que o mercado tende a ficar mais contido até a definição do segundo turno, após a votação do primeiro apontar para um grande favoritismo de Flávio Bolsonaro (PL) frente o presidente Lula (PT).

O mercado segue confiante de que uma vitória de Flávio represente maior austeridade fiscal, embora a agenda econômica do candidato ainda tenha avançado pouco. “O que está faltando para o mercado andar mais é a definição do pleito. Até o segundo turno, estranharia a bolsa subindo muito mais, porque muito das expectativas foi precificado”, diz.

Apesar da queda do Ibovespa, há uma rotação importante dentro da bolsa, nota o head de execução e trading da Angatu Private, Guilherme Miranda. Segundo ele, as small caps vêm apresentando desempenho relativo melhor desde o início da semana, depois de negociarem com forte desconto por muitos meses.

“As small caps contra o Ibovespa estavam em um desconto visto anteriormente em 2011. Havia muito risco fiscal e de juros implícito no preço e, com a eleição no domingo encaminhando possivelmente uma vitória da oposição para a Presidência, elas começaram a performar melhor”, afirma.

As small caps, assim como setores cíclicos, caso de varejo, consumo e imobiliário, respondem com mais afinco ao ambiente eleitoral pelo potencial efeito de uma agenda fiscal mais austera sobre a política monetária. Com gastos menores, o Banco Central teria mais facilidade de seguir cortando a Selic, tirando a pressão financeira das companhias, sobretudo as de menor capitalização.

O sócio e estrategista da Bravonte Capital e professor da FGV-RJ, Eduardo Velho, ressalta que a força recente da bolsa brasileira pelo ‘trade’ eleitoral é o elemento de destaque, mas não elimina totalmente a influência do ambiente externo.

Segundo ele, um novo rali dependerá de sinais que ainda estão em aberto. “Vai depender muito das próximas pesquisas eleitorais, da curva externa de juros e de medidas mais críveis de política econômica para 2027. Esses são os três fatores que vão influenciar mais a bolsa brasileira”, afirma.

Juros

Os juros futuros negociados na B3 operaram sem direção única e com oscilações tímidas nesta quarta-feira, 7, ainda que o mercado siga demonstrando otimismo com a possibilidade de alternância de poder em 2027 e a esperada redução dos prêmios de risco associados ao quadro fiscal. Sem gatilhos específicos, as taxas curtas recuaram levemente, alinhadas aos cortes já precificados para a Selic no curto prazo. Já os vértices mais longos, em viés de alta, recompuseram pequena parte da expressiva queima de prêmios observada nos últimos dois dias, que passou de 100 pontos-base.

Segundo agentes, o mercado ainda não vislumbra neste momento um plano fiscal que abra espaço para uma queda maior dos juros. Esse ceticismo e o forte ajuste para baixo já ocorrido nas taxas dificultariam a continuidade do rali, em uma conjuntura global também mais pressionada para a renda fixa.

Terminados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2028 oscilou de 12,61%, no ajuste da véspera, para 12,605%. O DI para janeiro de 2029 cedeu a 12,435%, vindo de 12,46% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 subiu de 12,57% a 12,600%.

Em igual horário, o retorno da T-Note de 2 anos cedia a 4,758%, o da T-Note de 10 anos operava praticamente estável, em 5,291%, e o do T-bond de 30 anos subia a 5,670%. A renda fixa americana começou a sessão renovando máximas na ponta longa, mas a alta arrefeceu após um leilão de US$ 39 bilhões em papéis de 10 anos, o maior desde 2000, com demanda acima da média. A ata do Federal Reserve (Fed), por sua vez, sugeriu novo aumento dos juros este ano, conforme já previsto por analistas, com impacto neutro na curva.

Para o sócio-fundador e diretor de investimentos (CIO) da Persevera Asset, Guilherme Abbud, o cenário local foi o principal indutor dos negócios nas últimas semanas, assim como nesta quarta, com a mudança de expectativas sobre o resultado da eleição presidencial, que ganhou novo fôlego após o primeiro turno. Passada a primeira reação de euforia, ele avalia que os players não estão confortáveis para antever um ajuste fiscal forte que permita uma queda mais significativa dos juros, o que mantém algum prêmio nas taxas.

“Mas nós estamos na ponta contrária. Achamos que o ativo com maior potencial de todos é o pré longo porque temos uma visão fiscal completamente diferente do mercado”, disse. Segundo Abbud, as análises mais pessimistas de que uma trajetória sustentável das contas públicas exige grandes reformas se concentram mais no resultado primário do governo, na ordem de 0,5% do PIB, quando o déficit nominal ronda 10% do PIB.

Na visão do CIO, por mais que reformas sejam bem-vindas, um choque de expectativas causado por declarações mais fiscalistas de eventual novo governo já seriam suficientes para diminuir a percepção de risco dos agentes e dar conforto ao BC em um ciclo de baixa mais forte da Selic. Com juros menores, diz, uma boa parte do ajuste seria feito via redução do custo da dívida.

O economista-chefe da Bravonte Capital, Eduardo Velho, diz que um novo rali dos juros domésticos dependerá do diferencial de votos nas próximas pesquisas eleitorais, e/ou novidades no front do pacote fiscal para 2027. Amanhã, serão divulgadas Datafolha e PoderData e, na sexta-feira, saem os levantamentos dos institutos AtlasIntel e Vox.

Em sua carteira mensal de renda fixa, a EQI Research recomenda maior exposição ao mercado de juros reais, em Notas do Tesouro Nacional – Série B (NTN-B) mais longas, mas o analista de investimentos João Abdouni pondera que o momento é mais apropriado para “recalibragem gradual das alocações”, e não para grandes movimentos de carteira.

Segundo Abdouni, o mercado antecipou parte do cenário no rali de segunda-feira, e a continuidade da valorização dos ativos dependerá de medidas concretas de consolidação fiscal, reformas e capacidade de implementação de uma agenda econômica consistente.

Estadão Conteúdo

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