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Economia

Dólar tem ligeira queda e fecha a R$ 5,10 com ajustes após rali eleitoral

O real, que figurou nos últimos dias como uma das divisas com melhor desempenho no mercado global, apresentou desempenho mais modesto

Redação Jornal de Brasília

03/09/2026 18h22

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

São Paulo, 03 – Após trocas de sinal ao longo da tarde, o dólar encerrou a sessão desta quinta-feira, 3, em leve baixa, na casa de R$ 5,10, alinhado ao movimento de enfraquecimento da moeda americana no exterior, com a diminuição das apostas em alta de juros nos EUA em setembro.

O real, que figurou nos últimos dias como uma das divisas com melhor desempenho no mercado global, nesta quinta apresentou desempenho bem mais modesto. Operadores afirmam que o mercado local de câmbio passa por uma acomodação após tombo do dólar de R$ 5,19 para R$ 5,10 de 28 de agosto para cá, fruto da reconfiguração das expectativas em torno da corrida eleitoral.

Foi grande a expectativa pela divulgação nesta quinta à noite de pesquisa Datafolha, que pode confirmar o quadro de empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro desenhado pelos levantamentos mais recentes – como a Pesquisa Futura que saiu à tarde. A percepção é a de que a revelação de ligação estreita entre o ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, e Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, renda dividendos eleitorais a Flávio.

“O mercado vem precificando um cenário eleitoral mais acirrado. Isso aumenta a percepção de possível maior disciplina fiscal em 2027, o que reduz momentaneamente os prêmios de risco”, afirma o analista de câmbio Nicolas Gomes, da Manchester Investimentos, ressaltando que o real, embora tenha se apreciado, oscilou bastante nesta quinta.

Com mínima de R$ 5,0705 e máxima de R$ 5,1137, o dólar à vista encerrou o dia em baixa de 0,08%, a R$ 5,1045. Foi a quarta sessão consecutiva de queda, com a divisa passando a acumular perda de 1,77% na semana e de 1,46% nos três nos primeiros pregões de setembro. Em agosto, subiu 2,16%. A moeda brasileira exibe o segundo melhor desempenho entre emergentes neste início de mês, atrás apenas do peso colombiano.

O diretor de Pesquisa Macroeconômica do Banco Pine, Cristiano Oliveira, ressalta que houve um retorno do apetite do estrangeiro por ações brasileiras nos últimos dias de agosto, após uma saída expressiva ao longo do mês. “Houve uma melhora do humor com o cenário eleitoral doméstico e alguma recuperação do interesse por ativos latino-americanos”, afirma Oliveira, que mantém previsão de câmbio médio em R$ 5,11 neste ano e em R$ 5,15 em 2027.

Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis divisas fortes, o índice DXY furou o piso dos 99,000 pontos e rondava os 98,960 pontos perto do fim da tarde, após mínima aos 98,831 pontos. O iene se apreciou mais de 2% em meio à expectativa de alta de juros pelo Banco do Japão (BoJ, na sigla em inglês) e a rumores de intervenção cambial.

Na véspera da divulgação do relatório norte-americano de emprego (payroll) de agosto, o diretor do Federal Reserve Christopher Waller tratou de esfriar as apostas em aperto monetário neste mês ao dizer que pode apoiar a manutenção dos juros se as leituras de inflação de agosto reforçarem os sinais recentes de arrefecimento inflacionário.

“O Fed deve se manter em modo de espera, embora um aumento de juros seja possível se a inflação ao consumidor e ao produtor superarem as nossas expectativas”, afirma o Goldman Sachs, em relatório a clientes.

O banco avalia que o ambiente global deve continuar a dar suporte a estratégias de carry trade com divisas emergentes. Mas alerta que o real, embora ofereça, ao lado do peso colombiano, o carry mais elevado e se beneficie do avanço dos preços de energia, pode ser abalado por uma alta das taxas longas nos EUA e pelo aumento de ruídos domésticos com as eleições.

Bolsa

Equilibrando-se entre os ventos positivos do exterior e uma correção após a euforia com o “trade” eleitoral, o Ibovespa defendeu os 185 mil pontos (185.188,13 pontos) e encerrou perto da estabilidade, em leve queda de 0,01%, depois de 11 pregões seguidos de firme alta. Em uma ponta, ações do setor bancário e utilities (energia e saneamento) ampararam o Ibovespa, ao mesmo tempo que a Vale e a Petrobras – as duas empresas de maior peso – pressionaram o índice.

No exterior, o dia foi positivo para ativos de risco, e as bolsas americanas marcaram altas acima de 1%, após declarações do diretor do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) Christopher Waller reduzirem as expectativas de aumento nos juros na próxima reunião de política monetária do BC dos EUA.

Para Matheus Spiess, estrategista da Empiricus Research, esses dois fatores – eleições por aqui e um dia favorável lá fora – pautaram os negócios, em um momento em que o futuro da agenda econômica no Brasil ganha cada vez mais protagonismo. “O mercado vem de pregões seguidos de bom desempenho e parte disso vem de um rali eleitoral que tem se formado, com a possibilidade de um ajuste fiscal minimamente mais convincente, e um movimento mais aprofundado a partir daí são as realizações de lucros”, afirma.

A expectativa de acirramento da disputa eleitoral perde relativa força conforme o índice escala novos níveis e, a partir daqui, serão necessárias novas pesquisas eleitorais que continuem apontando para uma aproximação de Flávio Bolsonaro (PL) do presidente Lula (PT). Houve expectativa para a divulgação do novo levantamento do Datafolha, previsto para a noite desta quinta-feira.

Pedro Carneiro, gestor de renda variável da Asset1, destaca o espaço para uma acomodação do mercado agora porque, até os 170 mil pontos, a Bolsa precifica menos otimismo e uma chance mais consolidada de vitória da chapa petista. Com o Ibovespa perto dos 190 mil pontos, porém, trata-se de um mercado “mais ajustado” a um empate técnico entre Lula e Flávio. “Pode-se dizer que Flávio começa a ganhar favoritismo em pesquisas, mas não deixa de ser uma eleição apertada. Para ter uma mudança agora para os 200 mil pontos, teria que haver uma convicção maior de vitória para a oposição”, completa.

Juros

Os juros futuros encerraram o pregão desta quinta-feira, 3, em queda firme, no que foi a terceira sessão consecutiva de alívio nos prêmios de risco. Segundo agentes, é difícil apontar qual fator predominou sobre as taxas, que perderam perto de 10 pontos-base, mas nesta quinta, tanto o ânimo do mercado com a disputa presidencial quanto o alívio nas curvas de juros globais deram suporte à dinâmica benigna do mercado local de renda fixa

Terminados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 oscilou de 13,568%, no ajuste da véspera, a 13,575%. O DI para janeiro de 2029 anotou baixa a 13,885%, vindo de 13,971% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 recuou de 14,235% para 14,145%.

Ao contrário dos últimos dois dias, a curva dos Treasuries também deu suporte aos DIs. Em igual horário, o retorno da T-Note de 10 anos cedia de 4,784% a 4,77%, na medida em que o mercado passa a reconsiderar a perspectiva de que o Federal Reserve (Fed) eleve os juros este mês. A mudança veio após comentários do dirigente Christopher Waller, para quem há sinais de desinflação na economia americana e a política monetária dos EUA, como está, poderia levar a inflação de volta aos 2%. “Se houver progresso contínuo em direção à nossa meta de 2%, estou disposto a apoiar a manutenção da taxa de política monetária em seu nível atual”, disse.

Gestor de renda fixa da Lifetime, Valter Filho acrescenta que a descompressão dos juros futuros foi um movimento global, influenciado também pelos rumores de possível intervenção do governo do Japão no câmbio, o que acaba ajudando a controlar a disparada das taxas dos títulos do país e, consequentemente, dos Treasuries. Segundo a Bloomberg, ao menos na quarta, as contas do Banco do Japão (BoJ, em inglês) não mostraram sinais de uma intervenção significativa no mercado cambial, mas o tema não saiu das discussões.

Embora o mercado cambial e o de ações locais não tenham sido destaque nesta quinta, o comportamento mais lateralizado dos demais ativos contribuiu com o bom desempenho da renda fixa, avalia Filho. Mas, neste caso, os motivos seriam mais relacionados às expectativas renovadas de que as eleições presidenciais serão mais acirradas, o que aumenta as chances de que a oposição vença e, na visão do mercado, de que haja um ajuste fiscal em 2027. “Continuamos em processo de otimismo maior com a eleição”, comentou.

Publicada nesta tarde, a pesquisa Futura mostrou tendência igual aos últimos levantamentos conhecidos, com o presidente Lula e o candidato Flávio Bolsonaro (PL-RJ) empatados tecnicamente em eventual segundo turno. O petista aparece com 45,6% dos votos, contra 45,2% do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro. Mais cedo, outro levantamento, o PoderData/Aya, mostrou o senador numericamente à frente de Lula no segundo turno (45% a 44%).

Segundo o sócio-fundador da Eytse Estratégia, Sergio Goldenstein, o mercado de juros vem tendo uma boa dinâmica nos últimos dias, favorecido não só pelo ‘trade’ eleitoral, mas também pelo arrefecimento da inflação e por dados que sinalizaram moderação mais forte do que o previsto da atividade. “Nesse sentido, o processo de calibração da política monetária deverá continuar ao longo do ano”, afirmou.

Para Goldenstein, a conjuntura atual reforça a visão da Eytse de que haverá queda da Selic além de setembro, com a taxa terminando 2026 em 13,25%. Para o próximo ano, o cenário é binário: a taxa alcançaria 12% caso o atual presidente vença as eleições, podendo chegar a 9,75% num quadro de vitória da oposição.

Estadão Conteúdo

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