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Economia

Dólar tem leve alta no dia e avança 0,37% em semana de aperto monetário nos EUA

Parte do desconforto eleitoral provocado pelo resultado da pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira à noite

Redação Jornal de Brasília

18/09/2026 18h26

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

São Paulo, 18 – O dólar reduziu bastante o ritmo de alta frente ao real na segunda etapa de negócios desta sexta-feira, 18, acompanhando a desaceleração da moeda americana no exterior, em meio à diminuição das perdas do iene. Parte do desconforto eleitoral provocado pelo resultado da pesquisa Datafolha divulgada na quinta-feira à noite, que não mostrou a esperada melhora das intenções de voto do senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, preferido da maior parte do mercado financeiro, também se dissipou à tarde, contribuindo para a recuperação da moeda brasileira.

Depois de atingir R$ 5,1662 pela manhã, o dólar à vista terminou o dia a R$ 5,1442, alta de 0,10%. A divisa acumulou ganho de 0,37% nesta semana, marcada pelo fortalecimento global da moeda norte-americana, após a decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) de elevar os juros, acompanhada de discurso mais duro contra a inflação. Em setembro, o dólar ainda recua 0,69% ante o real, após alta de 2,16% em agosto.

“Apesar do estresse geopolítico e da perspectiva de que o Fed possa promover mais um ou dois aumentos nos juros, o real tem mostrado bastante resiliência. Aquele quadro de reeleição tranquila de Lula em agosto foi substituído pela perspectiva de transição de governo e mudança da política fiscal”, afirma o head de câmbio da EQI Investimentos, Alexandre Viotto.

Termômetro do comportamento do dólar ante uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operava aos 100,196 pontos por volta das 17h00, em queda de 0,05%, após atingir 100,564 pela manhã, maior nível em sete semanas. Na semana, o Dollar Index acumula ganho de pouco mais de 1% e, no ano, de quase 2%.

O iene sofreu perdas expressivas pela manhã mesmo com o aperto monetário promovido pelo Banco do Japão (BoJ), que elevou a taxa de juros em 25 pontos-base, para 1,25%, maior nível desde 1995. A decisão foi dividida, o que foi interpretado como um sinal “dovish” pelos investidores. Rumores de possível intervenção de autoridades japonesas, porém, reduziram as perdas da divisa, que ainda recuou mais de 0,40% ante o dólar.

O economista-chefe da Franklin Templeton Brasil, Adauto Lima, observa que a moeda norte-americana, apesar da alta em setembro, ainda mostra fôlego limitado, o que contribui para manter a taxa de câmbio comportada. “Os termos de troca também, com a alta do petróleo, ajudam o real, enquanto a volatilidade eleitoral prejudica. O dólar está oscilando entre R$ 5,00 e R$ 5,20. É um movimento bem contido”, afirma.

Lima também destaca a manutenção de um diferencial de juros ainda elevado, apesar da direção oposta das políticas monetárias brasileira e americana, embora ressalte que a melhora dos termos de troca é mais relevante para o real. “Os BCs desenvolvidos precisam minimizar a pressão inflacionária, mas não há a percepção de que o Fed vai subir os juros como se não houvesse amanhã”, afirma.

Pela manhã, o Banco Central vendeu US$ 1 bilhão no mercado à vista em leilão de linha (venda com compromisso de recompra), ajudando a melhorar a liquidez em meio à forte pressão por remessas de divisas ao exterior. O BC já realizou dois casadões neste mês – venda simultânea de moeda à vista com compra no segmento futuro, via contratos de swaps cambiais reversos -, no total de US$ 2 bilhões.

“No fim do trimestre, há uma descontinuidade da oferta de linhas pelos bancos estrangeiros, por questões de regulação. E o Banco Central entra com leilões para prover liquidez e evitar distorções, sem pretensão de mudar a dinâmica do câmbio”, afirma Lima, da Franklin Templeton.

Para Viotto, da EQI Investimentos, além da pressão de fim de trimestre, há sinais de aumento das remessas de divisas ao exterior em razão da corrida presidencial. O movimento tem motivado uma atuação mais firme do BC neste mês, com dois casadões e o leilão de linha. “Podemos ver novas operações desse tipo se não houver uma melhora da liquidez”, afirma.

Bolsa

Sem alteração de dinâmica desde a abertura, o Ibovespa encerrou o pregão desta sexta-feira em queda de 0,41%, aos 185.229,17 pontos, acumulando uma perda de 1,06% na semana, pautado por um ajuste de posição dos investidores, que optaram por posições mais defensivas antes do fim de semana. Mesmo assim, o índice acumula ganho de 4,4% no mês, ainda na esteira da confiança dos investidores em uma alternância de poder após as eleições e uma maior austeridade fiscal. No ano, o Ibovespa sobe 15%.

Parte da pressão sobre o índice nesta sexta veio do petróleo, que recuou e pesou sobre a Petrobras. O barril do Brent, referência para a estatal, fechou cotado a US$ 103,87, queda de 0,91%. Com isso, as preferenciais da companhia cederam 0,23%, enquanto as ordinárias, 1,09%.

Os investidores também digerem o reajuste de 15% no Bolsa Família, anunciado na quinta-feira pelo governo, e o custo fiscal da medida a partir do ano que vem.

“O investidor está ainda calculando quanto isso vai custar para o governo. Existe cautela local com a eleição voltando à pauta, mas muito mais pelo viés fiscal do que pela eleição em si”, diz a estrategista de ações da Nomad, Roberta Nossig.

O desempenho do mercado local também guarda relação com o movimento no exterior, menos propenso à tomada de risco, com as bolsas americanas encerrando o dia sem direção única e com movimentos contidos.

“Tivemos o corte da Selic pelo Copom Comitê de Política Monetária, mas também tivemos uma alta dos juros americanos pelo Federal Reserve, então é natural ver o investidor saindo um pouco de ativos de risco no ajuste”, afirma o advisor sênior da Blue3 Investimentos, Gabriel Macarini.

O economista e CEO da Corano Capital, Bruno Corano, cita a eleição apertada, o Bolsa Família e os juros mais altos lá fora como pano de fundo da correção, que bate nos pesos pesados do índice, conforme se viu nas quedas da Vale e dos bancos.

“Vejo a queda de hoje como um sinal de que o investidor está recalibrando preços diante de mais incerteza eleitoral, preocupação fiscal, juros globais menos favoráveis, dólar mais firme e pressão sobre Vale, Petrobras e bancos. É uma sessão de cautela e realização de lucro”, diz.

Juros

Os juros futuros se descolaram da pressão nos mercados globais de renda fixa, que antecipam mais aperto monetário à frente, e terminaram o pregão desta sexta-feira em queda. Agentes não viram um gatilho específico para a acomodação da curva a termo, que entrou no campo negativo no início da tarde, mas veem relação do movimento com a precificação do mercado de que a oposição pode sair vencedora das eleições. Também contribuiu um ingresso de fluxo aplicado em todos os vértices da curva, com mais força na ponta longa, segundo uma fonte.

Pode ter ajudado, ainda, o pedido do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU) para suspender o reajuste do Bolsa Família, num período do calendário em que todas as atenções se voltam às eleições.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 marcou estabilidade frente ao ajuste da véspera, em 13,555%. O DI para janeiro de 2029 cedeu levemente, a 13,840%, vindo de 13,845% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 anotou baixa de 14,061% a 14,020%. Na semana, a curva a termo perdeu de 1 a 3 pontos-base nos principais vértices.

Divulgada na quinta à noite, a pesquisa Datafolha – que mostrou empate técnico entre o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), com o petista numericamente à frente – não fez preço pela manhã: os números foram lidos como “mais do mesmo”, sem grande impulso da oposição. Os ativos costumam reagir positivamente quando Flávio melhora nas pesquisas porque, para parte do mercado, um governo de direita estaria mais inclinado a entregar um ajuste fiscal.

Mesmo com a Datafolha “neutra” e sem rumores sobre novas enquetes, agentes avaliam que foi o quadro político que permitiu o alívio nas taxas no restante da sessão, dado que os investidores têm precificado que Flávio pode ser eleito.

Para o estrategista-chefe da Sincra, Gustavo Cruz, o movimento que faria mais sentido na semana, assim como nesta sexta, seria de deslocamento para cima da curva, uma vez que ficou claro que os EUA vão subir juros ao menos mais uma vez. “Deveríamos ter visto uma reação mais forte da curva no Brasil, mas o quadro eleitoral e os acontecimentos no STF embaralharam um pouco o cenário, assim como o aumento do Bolsa Família”, disse.

No período da tarde da quinta, o MPTCU pediu a suspensão do reajuste de 15% do benefício, anunciado pelo governo federal. Na solicitação, o órgão aponta que a medida pode ter desrespeitado a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), ao não indicar a fonte de custeio, tampouco estimativas de impacto financeiro, além de ser incompatível com as leis orçamentárias. “Isso também pode ter ajudado um pouco a curva”, acrescenta Cruz.

Segundo um estrategista de uma grande casa, que falou sob anonimato, no período da tarde ocorreu um fluxo aplicado – ou seja, que aposta na queda das taxas – distribuído ao longo de todos os vencimentos da curva, com mais força no de janeiro de 2031, o que também ajudou na perda de fôlego dos juros.

Para Iván Riveros, estrategista de câmbio e juros para mercados da América Latina do Citi, os DIs podem continuar se descolando da postura mais conservadora do Fed, conforme já observado ao longo de setembro. “Nas próximas semanas, os ativos locais devem continuar sendo guiados principalmente por desdobramentos políticos, já que a divergência nos arcabouços fiscal e econômico dos candidatos moldará as expectativas do mercado para 2027”, afirmou.

Nos EUA, os títulos soberanos continuaram se ajustando no período da tarde após a elevação de 0,25 ponto porcentual nos juros pelo Fed na quarta-feira, assim como a projeções de nova alta até o fim do ano. Nesta sexta, o aumento promovido pelo Banco do Japão (BoJ, em inglês) no juro básico do país, para 1,25% – maior nível em três décadas – e perspectivas de aperto adicional também pressionaram as curvas globais. Às 18h04, a taxa da T-note de dois anos avançava de 4,683% a 4,743%, enquanto a da T-note de dez anos subia de 4,937% para 4,993%.

Estadão Conteúdo

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