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Economia

Dólar tem leve alta e volta a R$ 5,15 de olho em inflação nos EUA

Em dinâmica similar à das últimas três sessões, a divisa apresentou oscilações contidas

Redação Jornal de Brasília

26/08/2026 18h19

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

São Paulo, 26 – O dólar exibiu leve alta frente ao real nesta quarta-feira, 26, em linha com a valorização da moeda norte-americana no exterior e o avanço das taxas dos Treasuries, após leitura acima das expectativas da inflação nos Estados Unidos em julho. Em dinâmica similar à das últimas três sessões, a divisa apresentou oscilações contidas. Após o realinhamento dos prêmios de risco no início de agosto, diante da proximidade da eleição presidencial, investidores evitam movimentos mais bruscos, segundo operadores.

Apesar da expectativa de novo corte de 0,25 ponto porcentual da taxa Selic em meados de setembro, reforçada pela deflação de 0,40% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo – 15 (IPCA-15) em agosto, no piso das estimativas de Projeções Broadcast, a taxa básica seguirá elevada, o que desencoraja a sustentação de posições mais contundentes contra o real.

Com mínima de R$ 5,1405 e máxima de R$ 5,1655, o dólar à vista terminou o dia em alta de 0,22%, a R$ 5,1518, levando a variação positiva na semana a 0,13%. A moeda americana avança 1,61% frente ao real em agosto, após recuo de 1,79% no mês passado. No ano, as perdas são de 6,14%.

Para o head da Tesouraria do BS2, Ricardo Chiumento, o nível atual da taxa de câmbio já espelha a perspectiva de uma disputa acirrada entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro (PL), que, na visão de investidores, seria mais inclinado a promover ajuste fiscal rigoroso.

“É muito difícil prever o comportamento do dólar nas próximas semanas, porque vamos entrar em uma fase mais agitada da corrida eleitoral. Mas não vejo uma trajetória de alta sem freio, apesar do risco fiscal elevado”, afirma Chiumento.

O real continua a se beneficiar, no curto prazo, de um ambiente marcado por taxas de juros domésticas elevadas e volatilidade contida, mas está ameaçado pelas incertezas políticas, avalia o estrategista-chefe de investimentos do UBS Wealth Management no Brasil, Ronaldo Patah, em relatório.

“A volatilidade deve aumentar à medida que a atividade de campanha se intensificar e os resultados das pesquisas se tornarem mais influentes na precificação dos mercados”, afirma Patah, ressaltando que, apesar da atratividade do carry trade e dos bons números das contas externas, com superávits comerciais contínuos, o real vai enfrentar “riscos fiscais crescentes” nos próximos 12 meses.

Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY voltou a superar os 99,000 pontos, com máxima aos 99,231 pontos, acumulando valorização de 0,30% na semana. Em agosto, o Dollar Index recua cerca de 0,65%. As cotações do petróleo operam em leve baixa, apesar da ausência de confirmação da notícia, veiculada na terça-feira, sobre um acordo de cessar-fogo entre EUA e Irã.

Indicador de inflação preferido pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), o índice de preços de gastos de consumo (PCE, na sigla em inglês) veio levemente acima das expectativas tanto na leitura mensal quanto na anual. As atenções dos investidores se voltam agora ao Simpósio de Jackson Hole, com destaque para a fala do presidente do Fed, Kevin Warsh, nesta sexta-feira, 28.

O economista-chefe internacional do banco ING, James Knightley, pondera que, mantido o ritmo atual, a inflação anual nos EUA vai convergir para a meta de 2% ao longo do tempo. “A questão é o quão paciente o Fed realmente é. Os mercados continuam a precificar um aumento de 0,25 ponto porcentual, enquanto os economistas, em geral, preferem uma pausa prolongada”, afirma Knightley, em nota.

Bolsa

Dividido entre um cenário de relativa melhora da inflação no Brasil, mas uma marginal piora nos EUA, o Ibovespa encerrou o pregão desta quarta-feira, 26, no zero a zero (+0,01%), sustentando-se na faixa dos 174 mil pontos. O índice chegou a atingir o maior nível em três semanas (+0,98%) pela manhã, mas perdeu força ao longo do dia, indo à mínima em 174.208,48 pontos

Os ventos do exterior fizeram a cautela predominar nos negócios locais após a divulgação, pela manhã, do PCE, índice de preços mais usado pelo Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) para definir os rumos da política monetária. Os dados vieram ligeiramente acima do esperado, o que mantém viva a expectativa de que os juros nos EUA poderão seguir em nível restritivo.

Segundo a ferramenta CME FedWatch, que mede a projeção do mercado para o juro americano por meio dos negócios nos contratos de juros futuros, cerca de 64% dos investidores esperam em setembro uma manutenção dos juros na atual faixa de 3,50% a 3,75% – e os demais 36% já esperam alta das taxas.

“Após cinco sessões consecutivas de valorização, o índice chegou a avançar até 176.296 pontos, mas perdeu força ao longo do dia. O movimento sugere uma acomodação após a forte recuperação recente, com investidores realizando parte dos ganhos e adotando uma postura mais defensiva diante dos eventos relevantes no exterior”, afirma Cândido Piovesan, trader da Mesa de Alocação da Nippur.

Para Gustavo Bertotti, head de Renda Variável da Fami Capital, a incerteza trazida pelo PCE fez preço nas bolsas americanas, levando o Brasil a acompanhar a performance justamente pela dependência do mercado local do fluxo estrangeiro.

Ele destaca também o forte movimento de saída desses recursos da bolsa local ao longo do mês, que teve uma retomada recente, mas ainda em meio a fundamentos extremamente frágeis para as empresas ligadas ao ciclo doméstico. “O IPCA-15 veio melhor do que as expectativas, mas isso ainda é muito pouco, na minha visão, para trazer tranquilidade aos investidores”, diz.

Juros

Em uma sessão cuja tendência foi definida já pela manhã, mais carregada de dados, os juros futuros percorreram o restante do pregão desta quarta-feira, 26, andando de lado. A deflação de 0,4% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA-15) em agosto chegou a derrubar as taxas em um primeiro momento, mas o índice de preços de gastos com consumo pessoal (PCE, na sigla em inglês) nos EUA acima do previsto pressionou o retorno dos Treasuries, o que impactou a curva local, ainda que de forma bastante comedida.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 oscilou de 13,673%, no ajuste anterior, a 13,670%. O DI para janeiro de 2029 subiu a 14,110%, de 14,096%. O DI para janeiro de 2031 passou de 14,348% a 14,335%.

Em igual horário, o retorno da T-note de dez anos subia de 4,634% para 4,649%, enquanto o rendimento do papel de dois anos aumentava de 4,201% para 4,217%. A publicação do PCE – que avançou 0,2% no mês passado ante julho, mais do que o consenso de mercado de 0,1% -, não só deu fôlego a curva de títulos americanos, mas também apagou o alívio mostrado pelos DIs na abertura do pregão, em uma reação inicial ao IPCA-15.

“O principal movimento no mercado de juros aconteceu pela manhã”, afirmou Carlos Lopes, economista do banco BV. “Quando o PCE foi divulgado, passou a ter influência na curva dos EUA, que teve alta o dia todo, e isso trouxe os DIs para mais perto do zero a zero, com alguns vértices levemente positivos”, o que se manteve ao longo da tarde, apontou. “Acho que foi um dia de pouca movimentação”.

Segundo a consultoria BuysideBrazil, a surpresa para cima no dado veio principalmente da inflação subjacente, com aceleração tanto em bens quanto em serviços, enquanto energia e alimentos recuaram no mês e ajudaram a limitar a alta do índice cheio. “O resultado sugere que o processo de desinflação segue gradual, com a composição do núcleo ainda mostrando pressões relevantes, especialmente em serviços”, aponta a economista-chefe, Andrea Damico, em relatório.

Por aqui, a mesma tendência foi verificada, ainda que o IPCA-15 tenha recuado. Os serviços subjacentes, núcleo criado pelo Banco Central para acompanhar a evolução de preços mais sensíveis à política monetária, aceleraram de 0,43% a 0,50% na passagem mensal, e se mantêm rodando em 5% na medida acumulada em 12 meses.

Gestor de renda fixa da Armor Capital, Igor Campos aponta que o dado cheio não ficou muito longe do que o mercado previa e, analisando o índice sob ótica qualitativa, houve um alarme negativo dado pelos serviços subjacentes. “De maneira geral, o IPCA-15 não muda a opinião de ninguém. Nem de quem estava com visão mais construtiva, nem de quem estava com visão mais conservadora”, resumiu.

No final da tarde, a curva de juros futuros apontava 87% de chance de corte de 0,25 ponto porcentual na Selic em setembro, ante 13% de manutenção. Para a reunião seguinte do Comitê de Política Monetária (Copom), em novembro, as chances de corte se reduzem a 49%, com 42% de redução de 0,25 ponto e 7% de chance de 0,50 ponto, observou Campos.

Para o gestor, a autoridade monetária tem condições de prosseguir no ciclo de calibragem da Selic no próximo mês, mas caso mantivesse o juro básico nos atuais 14%, em uma postura mais conservadora, poderia entregar um ciclo mais consistente de queda à frente.

Embora o petróleo tenha fechado em tímida queda nesta quarta, Campos acrescenta que o ambiente externo segue impondo cautela, dado que, além da guerra no Oriente Médio, o conflito entre Rússia e Ucrânia voltou a se acirrar.

Estadão Conteúdo

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