São Paulo, 08 – Após rondar a estabilidade ao longo da tarde desta quinta-feira, 8, o dólar à vista ganhou força na última hora de negócios e terminou o dia em leve alta, na contramão da tendência de baixa da moeda norte-americana no exterior e do recuo das taxas dos Treasuries. Entre os pares do real, apenas o peso mexicano se depreciou, com perdas superiores a 1%.
Com máxima de R$ 5,0269, o dólar à vista avançou 0,26%, a R$ 5,0241 – acima do nível de R$ 5,00 pelo segundo pregão consecutivo. A divisa ainda recua 3,69% na semana, fruto, sobretudo, do tombo de 4,21% na última segunda-feira, auge da euforia com o resultado do primeiro turno da eleição presidencial. No ano, as perdas ainda são superiores a 8%.
Para o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, a taxa de câmbio passa por um período de acomodação, após o rali desencadeado pela queda dos prêmios de risco com a surpreendente dianteira do candidato Flávio Bolsonaro (PL) na corrida presidencial. A vitória da oposição é vista como fundamental, pelo mercado financeiro, para mudança na política fiscal a partir de 2027.
“Pode ter ocorrido um ajuste fino nas posições neste fim de pregão que levou o dólar a subir um pouco”, afirma Galhardo, ressaltando que a provável entrada de recursos nesta quinta para a bolsa e a renda fixa, com o megaleilão de prefixados realizado pelo Tesouro, não resultou em apreciação do real. “Temos visto o importador aproveitando esse dólar a R$ 5,00 para liquidar dívidas e pagar fornecedores, o que ajuda a equilibrar o câmbio “
Pela manhã, pesquisa PoderData/Aya mostrou o candidato do PL com 53% das intenções de voto, contra 47% do petista. A expectativa ficou sendo a sondagem do Datafolha, no período da noite, uma vez que o instituto trouxe Lula à frente de Flávio em seus levantamentos ao longo do primeiro turno.
O UBS vê o momento atual como propício à formação de posição “comprada” em real em relação ao dólar, com alvo de R$ 4,75. O ponto de ‘stop loss’ (ordem para limitação das perdas) é de R$ 5,11.
“Esperamos que o real se beneficie do aumento das chances de um resultado favorável a políticas pró-mercado nas eleições, o que pode levar a uma reavaliação dos ativos brasileiros”, afirma o UBS, em relatório assinado por três analistas, entre eles o diretor de investimentos do UBS Wealth Management no Brasil, Ronaldo Patah. “Além disso, o real continua a se beneficiar do carry e da melhora dos termos de troca com o aumento dos preços de energia.”
Entre os riscos para o posicionamento a favor do real estariam, segundo o banco, um desfecho da corrida presidencial desfavorável “ao mercado”, uma piora do apetite ao risco no exterior e um aumento ainda maior das taxas de juros de longo prazo nos Estados Unidos.
Apesar da nova rodada de alta do petróleo, com o contrato do Brent para novembro subindo 4,07%, a US$ 104,28, em meio a ataques no Oriente Médio, as taxas dos Treasuries longos recuaram na esteira de leilão bem-sucedido de papéis de 30 anos.
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas, o índice DXY cai 0,15% perto do fim da tarde, aos 102,082 pontos, após mínima aos 102,033 pontos. O Dollar Index sobe mais de 0,60% neste início de outubro e tem alta superior a 3,80% no ano.
Bolsa
Amparado pela alta firme das ações da Petrobras (+2,12% a PN e +3,13% a ON), o Ibovespa voltou ao campo positivo nesta quinta-feira, acompanhando o fortalecimento do petróleo no exterior. Operadores e analistas continuam pontuando que o “trade” eleitoral ainda justifica o avanço da Bolsa, à medida que Flávio Bolsonaro (PL) se consolida como candidato favorito e começa a acenar para uma agenda econômica, caso seja de fato eleito.
O principal índice da bolsa subiu 0,94%, aos 206.220,24 pontos, depois de tocar a máxima em 207.953,74 pontos. O giro financeiro no dia, de R$ 40 bilhões, ficou acima da média, mostrando um mercado ainda com apetite ao risco. O desempenho positivo já leva o Ibovespa a acumular alta de 10,67% no mês e 7,34% na semana até agora. No ano, o avanço é de 27,99%.
Por mais um dia, é destaque também o movimento dos setores dentro do índice. Desde o fim do primeiro turno, as empresas de menor capitalização (small caps) sobem com força, já acumulando retorno de 15% na semana, seguido pelo segmento imobiliário, com alta de 14%. O desempenho está diretamente ligado às perspectivas de que um suposto ajuste fiscal no governo Flávio implique em um ciclo de corte de juros sustentado, o que melhora a situação financeira dessas empresas, sobretudo.
“Temos capital estrangeiro entrando muito forte no mês, já são R$ 14 bilhões. Tem a participação dos estrangeiros, tem aqueles que fizeram ‘stop loss’ compra de ações no mercado à vista para cobrir posições vendidas em derivativos. O primeiro turno foi surpreendente e isso ainda é importante, e Flávio já vem fazendo algumas menções sobre plano de governo”, afirma o sócio fundador e gestor da Performance Invest, Daniel Guedine Serafini.
Segundo o jornal Folha de S.Paulo, a equipe econômica de Flávio estuda um ajuste fiscal de R$ 250 bilhões (2% do PIB), focado nas despesas obrigatórias. A ideia é desvincular os reajustes da Previdência e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) dos ganhos reais do salário mínimo, além de acabar com os pisos constitucionais para saúde e educação, com correção apenas pela inflação. Publicamente, o senador negou que vai mudar a forma de aumento dos dois itens.
Segundo o CEO da EqSeed, Igor Monteiro, nesse momento, é importante separar os movimentos pontuais da bolsa de valores ligado a commodities e a empresas específicas “do que parece ser uma mudança mais ampla na percepção sobre o Brasil”. “Se essa leitura doméstica se consolidar, o mercado pode continuar mostrando resiliência mesmo diante de um cenário externo menos favorável, embora a volatilidade deva permanecer elevada, especialmente enquanto petróleo e juros americanos continuarem pressionados”, diz.
Juros
Os juros futuros fecharam o pregão desta quinta-feira, 08, em firme queda, com suporte de um combo de fatores que chegou a reduzir os trechos longos em até 20 pontos-base. Principal indutor, o maior leilão de títulos prefixados do Tesouro Nacional desde 2020, ao invés de pressionar a curva, acabou por aliviar as taxas, dado que o risco adicionado ao mercado foi menor que o antecipado.
Ainda sob o pano de fundo do ‘trade eleitoral’, a renda fixa local contou também com ajuda do exterior, após a curva de Treasuries ter invertido de alta para recuo. O retorno do título de 30 anos passou ao terreno negativo nesta tarde, na esteira de leilão bem-sucedido de papéis deste prazo, embora o petróleo tenha fechado com avanço superior a 4%.
Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 oscilou de 13,433%, no ajuste da véspera, a 13,451%. O DI para janeiro de 2029 recuou de 12,43% no ajuste anterior a 12,320%, e o para janeiro de 2031 cedeu a 12,420%, de 12,589%.
As taxas aceleraram o ritmo de baixa no final da manhã, após o Tesouro anunciar os lotes do que foi o maior leilão de prefixados em volume financeiro neste ano e, também, desde dezembro de 2020, segundo cálculos da Warren Investimentos. A autoridade fiscal ofertou 35 milhões de Letras do Tesouro Nacional (LTN), com colocação total do lote, e 7 milhões de Notas do Tesouro Nacional – Série F (NTN-F), das quais 5,82 milhões foram vendidas.
Expressiva, a oferta absorvida pelo mercado somou R$ 33,3 bilhões. Por outro lado, chamou a atenção de profissionais que o risco ao mercado não tenha acompanhado o volume: em US$ 1,32 milhão, o DV01 foi somente o terceiro maior deste ano. Com a expectativa de que o Tesouro fosse ainda mais ousado diante do ambiente mais favorável a risco, o leilão atuou nesta quinta como um vetor de queda, e não de pressão, sobre a curva de DIs.
“O leilão acabou sendo menor que o esperado pelo mercado em termos de risco, e foi bastante concentrado nos vencimentos curtos. Existia uma expectativa de que o Tesouro aproveitaria o momento para emitir na parte longa da curva. Então este acabou sendo um leilão muito grande em financeiro, mas não tão grande em risco”, aponta o estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren, Luis Felipe Vital.
Do total de LTN ofertadas, 20 milhões tinham vencimento em 2028 e 13 milhões, em julho de 2029, com apenas 2 milhões vencendo em janeiro de 2032. Já nas NTN-F, o lote total de 1,5 milhão de títulos previstos para 2037 foi absorvido, mas a colocação também se concentrou em horizontes mais próximos – o mercado absorveu 4,178 milhões de papéis para janeiro de 2031.
Sob anonimato, um estrategista relatou à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) que, ao conversar com fundos e a mesa de renda fixa de sua instituição, “a percepção é que o Tesouro seria ainda mais agressivo no leilão de hoje [quinta-feira]” e, com atuação mais moderada, os DIs passaram a recuar após a divulgação dos lotes. A queda, diz ele, foi amplificada após a moderação dos Treasuries.
Além disso, um trader de outra casa afirmou que a melhora da perspectiva fiscal, motivada pela precificação do mercado de que Flávio Bolsonaro deve vencer as eleições presidenciais, ainda tem trazido fluxo para a renda fixa brasileira.
Especialista em investimentos da Nomad, Bruno Shahini também avalia que a montagem de posições após o primeiro turno ainda não acabou, embora os juros futuros já tenham devolvido bastante prêmio esta semana. O especialista, porém, dá pouco peso à primeira pesquisa de segundo turno que deve ser publicada nesta quinta para a descompressão dos DIs na sessão. A Datafolha tem previsão de divulgação após 18h.
“O cenário-base está tão favorável para a oposição que resultados de pesquisas serão menos relevantes agora, a menos que aconteça algum escândalo ou algo que mude a percepção do público e faça preço. Mas, no geral, o mercado está menos sensível a pesquisas”, comentou Shahini.
Estadão Conteúdo