São Paulo, 15 – Após trocas de sinal pela manhã, o dólar passou à tarde em leve alta frente ao real, em linha com o sinal da moeda norte-americana no exterior. As cotações do petróleo acentuaram os ganhos ao longo da segunda etapa do pregão, com o Brent voltando a se aproximar da marca de US$ 110, o que amplia os riscos inflacionários na véspera da decisão do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano).
A troca de farpas entre ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), em sessão que avalia a possível abertura de investigações contra o ministro Alexandre de Moraes no caso do Banco Master, foi acompanhada de perto por investidores e trouxe desconforto, mas não foi determinante para a formação da taxa de câmbio.
“O mercado está em compasso de espera porque ainda há muitas dúvidas sobre qual vai ser o desfecho da reunião do STF, que pode se refletir nos preços dos ativos se tiver impacto nas expectativas para a eleição”, afirma o estrategista-chefe da EPS Investimentos, Luciano Rostagno.
Depois de oscilar entre mínima de R$ 5,1270 e máxima de R$ 5,1626, o dólar à vista encerrou a terça-feira em alta de 0,14%, a R$ 5,1551. A moeda norte-americana sobe 0,58% frente ao real nos dois primeiros pregões desta semana, mas ainda recua 0,48% em setembro, após valorização de 2,16% em agosto. No ano, as perdas são de 6,08%.
A sessão plenária do STF sobre Moraes foi marcada por atritos entre ministros. Decano da Corte, Gilmar Mendes acusou André Mendonça de ter motivações políticas ao retirar o sigilo de um relatório da Polícia Federal que revelou troca de mensagens entre Moraes e Daniel Vorcaro. Mendonça rebateu e disse que Gilmar estava “sendo leviano”. Os ministros Dias Toffoli e Nunes Marques se declararam impedidos de avaliar o caso.
Rostagno lembra que a crise no STF, em especial as acusações contra Moraes, parece ter impulsionado a candidatura de Flávio Bolsonaro, o que teria aberto espaço para a recuperação do real em setembro, após o tombo de agosto. A oposição é vista pelos investidores como mais inclinada a promover um ajuste fiscal robusto.
“As últimas pesquisas mostraram que Flávio está em um momento positivo, o que ajudou o real. Além disso, a alta do petróleo, embora traga preocupações com a inflação, favorece os termos de troca. Isso ajuda a manter a moeda comportada mesmo com o aumento da percepção de risco”, afirma o estrategista-chefe da EPS.
Referência do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY avançava 0,26% por volta das 17h, aos 99,637 pontos, após máxima aos 99,687 pontos. O Dollar Index sobe 0,55% na semana, marcada por nova arrancada dos preços do petróleo, com o Brent acumulando ganhos de quase 20% no mês.
O provável desfecho da superquarta – uma alta de 0,25 ponto porcentual nos juros pelo Fed e um novo corte de 0,25 ponto da taxa Selic pelo Comitê de Política Monetária (Copom) – é, em tese, negativo para o real por reduzir o chamado diferencial de juros e, por tabela, a atratividade do carry trade.
“Com a expectativa de menor diferencial entre juros locais e externos ao longo de 2026 e eventual recuperação do dólar globalmente em meio a um frágil quadro fiscal doméstico em um ano eleitoral, esperamos que o dólar termine o ano a R$ 5,35”, afirma o economista-chefe do Rabobank para a América do Sul, Mauricio Une, em relatório.
Pela manhã, o Banco Central realizou novo “casadão”, com venda de US$ 1 bilhão em moeda à vista e compra de US$ 1 bilhão em dólar futuro por meio da oferta de 20 mil contratos de swaps cambiais reversos. A operação não tem influência direta na taxa de câmbio, mas tende a reduzir a pressão no cupom cambial (taxa de juros em dólar).
Operadores ouvidos pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) não descartam a possibilidade de novas intervenções do BC para prover liquidez, uma vez que os sinais ainda são de pressão por saída de divisas. “Combinar a redução do estoque de swap tradicional com venda no spot é admitir que o problema é no câmbio à vista, e não no mercado futuro”, afirma um gestor de recursos, que pede anonimato.
Bolsa
Na contramão das bolsas norte-americanas, o Ibovespa encerrou a sessão desta terça-feira, 15, em alta de 0,54%, aos 186.502,64 pontos, pautado pela disparada do petróleo no exterior e o efeito positivo disso para as ações da Petrobras. Embora o avanço da commodity traga dúvidas sobre os efeitos para a inflação global, justamente em um momento de alta de juros nos países desenvolvidos, o impulso forte da estatal brasileira acaba ditando o ritmo do desempenho do índice.
Ao longo da tarde, o mercado adotou um tom mais defensivo e o Ibovespa se afastou das máximas nos 187 mil pontos, com as ações do índice somando um giro financeiro de R$ 15 bilhões. A sequência de avanços já faz com o Ibovespa acumule até agora um ganho de 5,12% no mês de setembro.
“A crise no Estreito de Ormuz tem interferido demais no preço da commodity e levando a novos recordes e isso ajuda no ganho de margem da Petrobras”, afirma o assessor de investimentos independente Ricardo Freitas. “Seguiremos com volatilidade aguda nos preços pelas incertezas com esse cenário global.”
O mercado local também observa os desdobramentos no lado político, com foco no julgamento de abertura de uma investigação contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes por envolvimento com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master.
Para Marcelo Audi, sócio da Cardinal Partners, para além do movimento do petróleo, esse cenário político tem sido relevante para impulsionar os ativos locais. “O fato de a bolsa estar subindo também tem relação com o ambiente político, a história mostra que, quando temos um evento eleitoral de relevância, que mude de forma material o prêmio de risco, o mercado se descola do cenário macro, como aconteceu em 2018”, afirma.
Em meio à alta do dia, Marcos Bassani, especialista em investimentos e sócio-fundador da Boa Brasil Capital, observa que há uma forte tensão no mercado antes de um desfecho para a crise instaurada no STF. “Ter o Supremo como foco de eventuais corrupções gera incertezas em relação ao investidor nacional e estrangeiro”, diz, destacando, ainda, as decisões de política monetária na quarta-feira nos EUA e no Brasil como pontos de atenção para os negócios.
Juros
O desconforto com a possibilidade de uma crise institucional severa continuou adicionando prêmio de risco no mercado de juros futuros na tarde desta terça-feira, 15, marcada pela histórica sessão do Supremo Tribunal Federal (STF) que decide se vai investigar ou arquivar o caso envolvendo a relação suspeita entre o ministro Alexandre de Moraes e Daniel Vorcaro, que era do Banco Master.
Contudo, o movimento de inclinação da curva também teve respaldo da aversão a risco internacional, conforme o barril de petróleo Brent se aproxima do nível de US$ 110 por barril. O movimento recende preocupações inflacionárias e turbina os rendimentos dos Treasuries, que já precificam mais de 90% de chance de alta das taxa dos Fed funds amanhã.
Na véspera da superquarta, a curva doméstica mostra 96% de chance de que a taxa Selic seja reduzida dos 14% ao ano para 13,75% em setembro. A estimativa já está disseminada há semanas, o que justifica o vértice curto do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) mais resistente, amparado também pelas vendas do comércio varejista no piso das estimativas, em queda de 0,8% em julho ante junho.
Para novembro, as taxas dos DI apontam 52% de chance de outro corte de 0,25 ponto porcentual (contra 48% de manutenção). Para dezembro, há 84% de chance de manutenção, contra 16% de redução de 0,25 p.p, calcula o economista-chefe do Banco BMG, Flávio Serrano.
A taxa de DI para janeiro de 2027 fechou em 13,580%, perto do ajuste anterior de 13,585%. Já o DI para janeiro de 2029 avançou para 13,940%, de 13,867%, e o para janeiro de 2031 subiu a 14,230%, de 14,108% no ajuste de segunda-feira.
“O protagonista na abertura dos juros é a espécie de crise institucional no STF que, para a atividade econômica, é muito importante. Nesse ambiente de insegurança, o mercado financeiro captura essa incerteza e transforma em algum prêmio”, comenta o head de renda fixa da Suno Research, Guilherme Almeida.
A sessão plenária do STF sobre Moraes foi marcada por um momento de tensão entre o presidente do STF, Edson Fachin, e o ministro Flávio Dino, e também por um bate-boca dos ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça – com Moraes acusando parcialidade do colega na apuração. Gilmar Mendes chegou a apresentar uma ordem em que defendeu a suspensão do julgamento, mas por volta das 17h Fachin disse que a percepção é de que tanto Moraes quanto Mendonça devem votar.
A apreensão com essa discussão faz o mercado recolher um pouco a guarda, segundo o gestor de renda fixa da Armor Capital, Igor Campos. Fora isso, a alta dos juros desta terça se dá pelo “ambiente externo mais adverso, com escalada da guerra que faz os preços derivados do petróleo avançarem”, acrescenta.
O petróleo Brent para novembro subiu 2,9%, a US$ 108,75 por barril, diante de impactos sobre a oferta da commodity na Arábia Saudita após ataques dos houthis, do Iêmen, a um importante oleoduto no país.
No quadro técnico, o Tesouro Nacional vendeu nesta terça a oferta total de 1,15 milhão de NTN-B e de 750 mil LFT. O movimento chamou a atenção de Almeida, da Suno: “Mesmo nesse cenário de incerteza, que conta também com pesquisas eleitorais, o mercado tem mostrado apetite para absorver essas emissões, o que é positivo para o Tesouro”, avalia.
No front eleitoral, pesquisa CNT/MDA mostra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) liderando as intenções de voto no segundo turno acima da margem de erro, com 47,3%, contra 40% do senador Flávio Bolsonaro (PL). Já a pesquisa Indexa/Broadcast tem Lula com 43% das intenções de voto, ante 42% de Flávio. A diferença entre os dois passou de cinco pontos porcentuais em agosto para um ponto em setembro, configurando empate técnico.
Estadão Conteúdo