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Economia

Dólar tem leve alta com exterior em dia de sanções dos EUA ao Irã

Com agenda doméstica esvaziada e sem novidades no xadrez eleitoral, o mercado de câmbio trabalhou em marcha lenta, observam operadores

Redação Jornal de Brasília

24/08/2026 18h29

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

São Paulo, 24 – Após rondar a estabilidade ao longo da tarde, o dólar à vista encerrou a sessão desta segunda-feira, 24, cotado a R$ 5,1532, em alta de 0,16%, alinhado ao sinal da moeda norte-americana no exterior. Com agenda doméstica esvaziada e sem novidades no xadrez eleitoral, o mercado de câmbio trabalhou em marcha lenta, observam operadores.

Apesar de os EUA anunciarem que vão sancionar países que mantenham laços econômicos com o Irã, na tentativa de isolar o regime de Teerã, não houve acirramento da aversão ao risco. Em coletiva de imprensa à tarde para anunciar a chamada operação “Economic Outcast”, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, não mencionou países que serão alvo das medidas. As cotações do petróleo caíram mais de 2%, devolvendo parte dos ganhos de mais de 6% na semana passada.

“Temos um dia de pouco volume de operações. Os estrangeiros que não saíram no início do mês já fizeram hedge de suas posições em ativos domésticos. Parece já ter passado o período de maior pressão sobre o real”, afirma o gerente de câmbio da Treviso Corretora, Reginaldo Galhardo, acrescentando que investidores não se mostram sensíveis nesta segunda ao noticiário sobre o Oriente Médio.

Depois de ter superado os R$ 5,20 e atingido, na terça-feira, 18, o maior nível de fechamento desde 30 de março, o dólar perdeu força e terminou o último pregão da semana passada abaixo de R$ 5,15. Houve intensa especulação durante a sessão de sexta-feira sobre possível estreitamento relevante da vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na corrida presidencial, o que não se confirmou, pelo menos no levantamento mais aguardado, do Datafolha. Em simulação de segundo turno, a pesquisa mostrou Lula numericamente à frente de Flávio Bolsonaro (PL), mas empatado dentro da margem de erro.

Em agosto, a moeda norte-americana ainda acumula valorização de 1,63% frente ao real, refletindo, em boa parte, o aumento dos prêmios de risco associados às incertezas eleitorais. Há receio de que a reeleição de Lula implique manutenção da atual política fiscal, vista como insuficiente para frear o aumento do endividamento público em relação ao Produto Interno Bruto (PIB)

“Essa incerteza em relação ao resultado da eleição aumenta a volatilidade da taxa de câmbio”, afirma o economista Ian Lopes, da Valor Investimentos, ressaltando que, no exterior, o ambiente também é de cautela, com investidores à espera de fala do presidente do Federal Reserve no Simpósio de Jackson Hole, que começa na quinta-feira, 27.

Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operou em alta e subia 0,22% por volta das 17h, aos 99,016 pontos, após máxima aos 99,063 pontos. O Dollar Index ainda recua cerca de 0,80% em agosto, graças, em grande parte, ao tombo na semana passada com o anúncio do Tesouro dos EUA de que vai duplicar as recompras de papéis de longo prazo.

“O dólar subiu levemente hoje em relação ao real muito mais pelo fortalecimento global da moeda americana, refletindo um pouco de cautela com os próximos sinais do Fed e o futuro das negociações entre Irã e Estados Unidos”, afirma o gestor de portfólios Eduardo Gonçalves, da Aurum Wealth Management.

Bolsa

Depois de avançar aos 173 mil pontos no dia (+1,21%), o Ibovespa perdeu força durante a tarde desta segunda-feira, 24, mas seguiu para um fechamento positivo (+0,51%, aos 171.906,72 pontos), amparado pelas ações da Vale e do setor financeiro. O movimento equilibrou o desempenho negativo da Petrobras, pressionada pela queda do petróleo na sessão.

O Brent para novembro caiu 2,3% (US$ 2,13), a US$ 90,54 por barril, levando os papéis preferenciais e ordinários da petroleira a ceder mais de 2%. A estatal foi a única entre as maiores empresas da bolsa a encerrar no negativo, enquanto a mineradora, Itaú, Bradesco, B3, Itaúsa e BTG Pactual, tiveram alta firme no dia – juntos, os papéis dessas empresas somam 33% do Ibovespa.

“Vale sobe por conta de fluxo comprador de volta para a empresa. Pode ser um indício de investidores estrangeiros voltando a comprar bolsa no Brasil, já que é uma das principais ações do Ibovespa”, afirma Gabriel Magno, chefe de alocação de investimentos e sócio da AW Capital.

A queda do petróleo contrastou com novos desdobramentos negativos em relação à guerra do Oriente Médio. Os EUA sancionaram empresas e pessoas com ligação ao Irã, enquanto o secretário do Tesouro americano, Scott Bessent, ameaçou cortar países que tenham laços econômicos com Teerã do sistema financeiro do dólar.

O receio com o fim das hostilidades vem provocando o avanço da commodity nos últimos meses, mas, nesta segunda, houve espaço para uma correção, segundo operadores. E esse movimento leva os investidores a corrigirem sua exposição na renda variável, especialmente considerando as quedas recentes, que possibilitam pontos de entrada em alguns papéis.

O recuo do petróleo traz alívio na leitura para a inflação global e melhora justamente a situação das empresas diretamente afetadas pelos juros no País no curtíssimo prazo. “Quando o petróleo está caindo, as empresas sensíveis a juros performam melhor”, afirma Marcel Andrade, head de Investments Solutions da SulAmérica Investimentos, mantendo parte da expectativa de que o Banco Central possa continuar reduzindo a Selic. Nesta segunda, o Índice de Consumo (ICON) subiu 0,22%, e ação de maior peso no índice, a Ambev, avançou 1,67%.

Do ponto de vista macroeconômico, as altas do Ibovespa continuam representando um ajuste tímido positivo de grandes investidores institucionais depois de uma sequência forte de quedas ao longo de agosto – no mês, o índice ainda acumula perdas de 3,42%. Os receios globais e locais no pano de fundo, continuam impedindo uma entrada mais consistente de recursos tanto dos institucionais locais, quanto dos alocadores estrangeiros.

“Internamente, o pano de fundo macroeconômico e político continuou exigindo bastante cautela dos operadores, atuando como um contrapeso aos ganhos corporativos”, diz Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad. “Somado a isso, o ambiente político brasileiro reforçou a cobrança do seu tradicional prêmio de risco, com o avanço do calendário eleitoral adicionando uma camada extra de incerteza e volatilidade à tomada de decisão dos investidores.”

Juros

Nem mesmo as declarações do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scot Bessent, sobre a operação que pretende isolar economicamente o Irã, chamada de “Economic Outcast”, foram capazes de retirar o mercado brasileiro de juros futuros da letargia observada na sessão desta segunda-feira, 24. As taxas médias e longas chegaram a acelerar levemente a alta logo após as falas de Bessent no início da tarde, mas sem divulgação de nomes de países terceiros atingidos, nem de instituições financeiras, os vértices voltaram a subir no máximo 3 pontos-base.

Os contratos de Depósito Interfinanceiro (DIs) caminharam na contramão do alívio mostrado pela curva dos Treasuries nesta segunda-feira, mas também não encontraram fôlego para se afastar muito dos ajustes anteriores. A liquidez reduzida no pregão e ausência de gatilhos desestimularam apostas direcionais pelos investidores, resultando em oscilações comedidas na curva a termo.

Encerrados os negócios, a taxa do DI para janeiro de 2027 oscilou de 13,704%, no ajuste da última sexta-feira, a 13,700%. O DI para janeiro de 2029 subiu a 14,160%, vindo de 14,145%. O DI para janeiro de 2031 anotou leve alta, de 14,399% a 14,415%.

“Muita gente está sem grandes perspectivas sobre o futuro eleitoral. Tudo está muito incerto e em aberto, com alternativas antagônicas, o que dificulta investimentos mais incisivos”, avalia Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, acrescentando que o ambiente externo também contribuiu para o desempenho “lateralizado” dos juros futuros na abertura da semana.

“Queríamos saber o efeito das sanções econômicas nas Treasuries, mas na verdade o ‘Dia D’ acabou não sendo tão decisivo, mas sim algo que já estava meio no preço”, disse Sanchez, para quem o secretário do Tesouro dos EUA não anunciou nada de concreto, e ainda é preciso esclarecer aspectos relevantes da operação.

Em coletiva de imprensa, Bessent se limitou a dizer que as punições serão aplicadas a bancos e instituições financeiras de países terceiros, sem citar quais seriam eles, tampouco em que prazo as restrições começariam a ser impostas. Segundo o secretário, uma grande entidade pode ser alvo das sanções já nesta semana. Mesmo assim, os contratos futuros de petróleo encerraram em queda de cerca de 2% nesta segunda. O Brent para novembro recuou 2,3%, a US$ 90,54 por barril.

Por aqui, as falas do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, na abertura da Febraban Tech e o boletim Focus também não representaram vetores para o mercado de renda fixa. A apresentação de Galípolo, de cunho institucional, teve como foco a estabilidade do sistema financeiro e a agenda regulatória, destacando o aumento do endividamento e da inadimplência das famílias, mesmo em um ambiente de renda elevada e desemprego historicamente baixo, disse Andrea Bastos Damico, economista-chefe da BuysideBrazil.

“Galípolo manifestou preocupação particular com a expansão de produtos de crédito mais arriscados e sem garantia e indicou que a próxima etapa da agenda do BC se concentrará no uso mais responsável dos serviços financeiros e no alinhamento entre risco e retorno. Nesse sentido, as declarações não alteram nossa avaliação sobre a condução da política monetária no curto prazo”, apontou.

Também sem mudanças frente ao último pregão, as apostas seguem concentradas em mais um corte de 0,25 ponto porcentual da Selic na reunião de setembro do Comitê de Política Monetária (Copom). No final da tarde desta segunda, a precificação da curva de juros apontava 0,22 ponto de ajuste na ocasião – ou seja, 88% de chance de redução, contra 12% de manutenção da taxa nos atuais 14%.

Estadão Conteúdo

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