São Paulo, 13 – O dólar emendou o quarto pregão consecutivo de alta frente ao real nesta quinta-feira, 13, apesar do recuo da moeda norte-americana em relação à maioria das divisas latino-americanas. Operadores afirmam que segue em curso a redução das posições de investidores estrangeiros em ativos locais, movimento que ganhou força a partir de terça-feira, quando o JPMorgan rebaixou a recomendação para o Brasil e houve a divulgação de pesquisas eleitorais confirmando o favoritismo do presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, na corrida presidencial.
Em terreno positivo desde a abertura dos negócios e com máxima perto do teto de R$ 5,20, o dólar à vista terminou a sessão em alta de 0,25%, a R$ 5,1930 – novamente no maior nível de fechamento desde 2 de julho (R$ 5,2082).
A moeda norte-americana avança 2,15% na semana e 2,42% no mês, após queda de 1,79% em julho. O real exibe o pior desempenho em agosto entre as divisas mais líquidas.
“A sinalização é que os ativos brasileiros não estão oferecendo prêmios que justifiquem o aumento do risco com a proximidade das eleições, que tende a elevar a volatilidade da taxa de câmbio”, afirma Guilherme Casagrande, especialista em câmbio em Manchester, acrescentando que não há, por ora, indicações de mudança na política econômica em 2027 para conter a escalada do endividamento público.
Analistas ouvidos pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) teceram críticas ao projeto de lei complementar (PLP) que reduz a tributação de combustíveis. Houve introdução de “jabutis”, como benefícios à produção de fertilizantes e à exploração de minerais críticos, além da liberação de gastos fora da meta fiscal para a área de Defesa em 2026.
Em contrapartida, foi introduzida uma trava para o aumento das despesas da União a partir de 2027 – um expediente para permitir a confecção do Orçamento do ano que vem, já estrangulado pelos gastos obrigatórios, mas que não garante uma trajetória de queda da relação dívida líquida/PIB.
“Esse pacote de bondades que colocaram no projeto dos combustíveis piora o risco fiscal e contribui para a saída do estrangeiro do país”, afirma o operador de câmbio Fernando Cesar, da corretora AGK. “Se não fosse o juro real ainda elevado, o dólar já estaria em R$ 5,40 ou R$ 5,50. Ainda é muito caro sustentar apostas contra o real.”
Lá fora, o índice DXY – termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes – operou com viés de queda ao longo do dia e, por volta das 17h, recuava 0,04%, aos 99,972 pontos, após ter superado o nível dos 100,000 pontos na máxima (100,083 pontos).
As taxas dos Treasuries recuaram na esteira de leitura benigna da inflação ao produtor nos EUA em julho – após número comportado da inflação ao consumidor (CPI, na sigla em inglês) divulgado na quarta – e da baixa de mais de 2% das cotações do petróleo, que ainda seguem acima da marca de US$ 80 por barril. A ferramenta FedWatch, do CME Group, mostra que as apostas majoritárias para alta de juros pelo BC americano migraram de outubro para dezembro.
“As probabilidades de alta de juros nas reuniões de setembro e outubro recuaram, mas o mercado ainda aguarda mais um relatório de CPI (e de emprego) antes da próxima decisão”, observa o diretor da Wagner Investimentos, José Faria Junior, para quem, se houver a reabertura do Estreito de Ormuz em um ou dois meses, abrindo espaço para alívio nos preços do petróleo, o Fed provavelmente não aumentará os juros neste ano.
Bolsa
O Ibovespa deu sequência nesta quinta-feira ao movimento negativo que vem registrando desde o começo de agosto, completando a sua oitava sessão no vermelho. Com exceção da Petrobras, que subiu perto de 1% no dia, as blue chips da bolsa tiveram uma sessão negativa, ainda na esteira do ajuste de carteiras promovido pelos investidores estrangeiros. É a maior sequência de quedas do índice em três anos.
Além da retirada de recursos pelos estrangeiros, a temporada de balanços do segundo trimestre, que chega perto do fim, também desanima o mercado. “Olhando para os bancos, não nos anima muito”, afirma Guto Leite, gestor de renda variável da Franklin Templeton. “A visão que fica das teleconferências e das interações com as companhias para o restante do ano é que o discurso não está muito animador.”
O principal índice da B3 encerrou em queda de 0,23%, aos 167 100,95 pontos, afastando-se da mínima do dia (166.196,92 pontos, -0,77%), mas também longe dos 168.515,49 pontos da máxima.
Entre as grandes ações da bolsa, o destaque de queda ficou com os bancos, em especial o Banco do Brasil (-4,16%), em queda firme desde o começo da tarde em resposta a comentários feitos durante a teleconferência de resultados do segundo trimestre.
Na ocasião, o vice-presidente de Gestão Financeira e Relações com Investidores do BB, Geovanne Tobias, afirmou que as provisões deverão ficar na ponta alta das estimativas do banco, enquanto o lucro deve ficar na ponta baixa.
O resultado do BB acontece em um contexto em que as instituições financeiras também vêm enfrentando desafios em relação à inadimplência, fruto dos juros elevados no Brasil. O desempenho financeiro das companhias de outros setores também vem sendo prejudicado.
No diagnóstico do comportamento dos estrangeiros, o interesse tem sido em setores em que o Brasil está pouco presente.
“O motivo para este comportamento está associado à existência de interesse em opções de IA inteligência artificial em outras praças, como Coreia do Sul, Japão e até nos EUA, vide o comportamento do Nasdaq”, afirma o analista de investimentos Pedro Galdi.
Taxas de juros
Os juros futuros médios e longos voltaram a subir no período da tarde desta quinta-feira, 13, com investidores pedindo maior endereçamento fiscal, após o PLP dos Combustíveis aprovado na quarta pelo Congresso não acalmar as preocupações e enquanto a disputa ao Palácio do Planalto continua acirrada. Alguns operadores também consideram que a acusação dos Estados Unidos de que o Brasil e outros 40 países ajudam a China a burlar tarifas de importação pode vir acompanhada de novo estremecimento da relação diplomática entre Lula e Trump.
A ponta curta dos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI), contudo, seguiu perto do ajuste da véspera. Ainda que as vendas no varejo tenham vindo acima do esperado em junho (alta de 0,5% no conceito restrito, acima da mediana de 0,2% do Projeções Broadcast), o dado corroborou com a visão de que a atividade econômica vem desacelerando e pode dar espaço para novos cortes da taxa Selic – com a curva ainda precificando maior chance de redução de 0,25 ponto porcentual na reunião de setembro.
O DI para janeiro de 2027 fechou com taxa de 13,75%, ante 13,749% no ajuste de quarta-feira. O DI para janeiro de 2029 subiu para 14,245%, de 14,223%, enquanto a taxa do contrato para janeiro de 2031 avançou a 14,53%, contra 14,45% no ajuste da quarta.
Para o gestor de portfólio da Azimut Brasil, Marcelo Bacelar, o mercado embute prêmio de risco fiscal nos vértices mais longos. Ele considera o PLP dos Combustíveis, aprovado na quarta no Congresso, como neutro e considera que “o governo vem tentando acenar para o mercado que vai haver algum tipo de ajuste, mas precisa de atitudes mais concretas”.
A Warren observa que o PLP traz efeitos fiscais em duas direções: ao mesmo tempo em que amplia incentivos ao setor de fertilizantes e combustíveis e autoriza antecipações de gastos, também incorpora mecanismos que podem conter o crescimento de despesas no ano seguinte.
Para o economista-chefe do banco BMG, Flávio Serrano, o fiscal continua no radar, mas também entrou na equação do mercado de renda fixa o medo de que haja alguma retaliação adicional por parte dos Estados Unidos.
Isso porque a curva a termo caía pela manhã junto com os juros dos Treasuries, mas os vértices intermediários passaram a zerar queda após os EUA incluírem o Brasil no grupo de “Nível 2 – Integração Econômica Significativa” com a China, acusando que o país atua como importante plataforma regional de produção e logística ao simular a transformação de produtos em diversas categorias para alterar sua origem declarada.
O head de renda fixa da Suno Research, Guilherme Almeida, avalia que o novo relatório do governo Trump abre caminho para maior fiscalização e impacto na relação comercial com o Brasil. “O próprio incremento de incerteza já traz uma leitura de risco ao mercado, prevalecendo um processo de abertura da curva”, acrescenta.
Pela manhã, os DIs seguiam o desenho da curva dos Treasuries e cediam por todos os vértices, após o índice de preços ao produtor dos EUA afastar expectativas de aumento de juros pelo Fed e com a queda de 2% do barril de petróleo. Contudo, um leilão de T-Bonds de 30 anos com a maior taxa de rentabilidade desde 2001 limitou as perdas.
Por aqui, o Tesouro vendeu 16,11 milhões de Letras de Tesouro Nacional (LTN), de 16,15 milhões ofertadas, e todas as 2 milhões de Notas do Tesouro Nacional – Série F (NTN-F) anunciadas em leilão. Para Almeida, da Suno, o leilão não gerou grande impacto na precificação da curva.
Estadão Conteúdo