São Paulo, 31 – Terminada a disputa pela Ptax de fim de mês, o dólar à vista seguiu em alta e fechou com avanço de 0,18%, a R$ 5,0704. As tensões no Oriente Médio induzem maior cautela dos investidores antes do final de semana, com destaque para o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, reiterando que atacará o Irã com “toda a força” e Israel rejeitando o plano do Conselho da Paz para a Faixa de Gaza.
Assim como de manhã, o movimento acompanha o fortalecimento da moeda americana no exterior e a alta dos Treasuries, após dirigentes do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) – Beth Hammack, Lorie Logan e Neel Kashkari – terem justificado, em comunicado nesta sexta, o voto dissidente na reunião do Fed de julho por um aumento de 0,25 ponto porcentual no juro básico americano.
O chefe da mesa de operações do C6 Bank, Felipe Garcia, afirma que o movimento do câmbio nesta sexta-feira está associado a um ajuste, com dólar puxado pelo exterior a partir da abertura das taxas dos Treasuries e após o real ter desempenho positivo na véspera, quando inclusive fechou na melhor cotação desde 2 de junho. “Não há nada muito relevante em termos de notícia, mas com o conflito no Oriente Médio, o mercado fica mais defensivo antes do fim de semana.”
Trump reiterou no período da tarde que o Irã não terá mais nenhuma capacidade militar e disse que está perdendo a confiança em um acordo com o país, em meio a “mentiras” de Teerã. Garcia, contudo, nota que o mercado não embutiu muito preço porque “aprendeu a reagir com força só quando algo de fato acontece”.
Para a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli, a busca por proteção antes do final de semana deu um pouco de suporte para a moeda americana e, pela manhã, a questão técnica da Ptax de fim de mês fez preço. Ela faz menção à disputa entre comprados e vendidos em dólar – que, por fim, fez com que a Ptax fechasse em R$ 5,0773, alta de 0,07% em relação ao fechamento anterior, mas com queda de 1,92% no mês de julho e baixa de 7,73% no ano.
Como vislumbrado pela Ptax, em julho o real apreciou 1,79% ante o dólar no segmento à vista, com apoio da valorização de mais de 20% dos contratos futuros de petróleo e do carry trade ainda atrativo.
“No acumulado do mês, o petróleo contribuiu com os termos de troca, com balança comercial, e até fez a conta corrente vir um pouco melhor do que o esperado. Investimento direto do estrangeiro também tem vindo com números bons, e o cenário de carry alto ajudou o real”, relembra Garcia, do C6.
Esta semana – com dólar em baixa de 0,21% – também trouxe um discurso mais brando do presidente do Fed, Kevin Warsh, que contribuiu para um leve apetite a risco. “Warsh se mostrou menos duro, embora a decisão de julho tenha vindo com três votos favoráveis à alta da taxa básica de juros americana”, comenta o economista-chefe da Análise Econômica, André Galhardo.
Por volta das 17 horas, o DXY, que mede o dólar contra seis pares fortes, subia 0,10% – com alta reduzida pela recuperação do iene japonês – e o contrato do dólar para agosto avançava 0,23%, a R$ 5,0780.
Bolsa
O Ibovespa fechou a sexta-feira, a semana e o mês de julho em alta, superando as dificuldades que atrasaram no dia o início dos negócios em mais de duas horas. Após um início hesitante, o índice se firmou no azul, sustentado pelos ganhos das ações ligadas a commodities e ao setor financeiro, e pelo bom desempenho das bolsas norte-americanas.
O índice encerrou com valorização a 177.999,00 pontos (+0,47%), melhor nível de fechamento desde 14/5/2026 (178.365,86). Na mínima, logo após a abertura, caiu 0,08%, aos 177.013,85 pontos. Na máxima, chegou a 178.718,91 pontos (+0,88%). Acumulou ganho de 2,27% na semana, a segunda seguida de alta.
Com isso, o Ibovespa encerrou julho com avanço de 3,47%, após uma sequência de quatro meses de retração. Em 2026, sobe 10,47%
Em Nova York, as bolsas subiram, repercutindo o balanço da Amazon, apesar das falas duras de dirigentes do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano). O Dow Jones subiu 0,53% e o S&P 500, 0,70%, enquanto o Nasdaq avançou 1%.
Com mais de duas horas de atraso, o Ibovespa abriu sob alguma volatilidade, mas logo engatou alta. Segundo a B3, o atraso foi causado por uma intercorrência operacional em um de seus componentes tecnológicos do ambiente de pós-negociação. A instituição negou que tenha havido ataque hacker ou qualquer interferência externa nos sistemas.
De todo modo, o incidente foi visto como sem precedentes no mercado brasileiro.
A economista Bruna Centeno, sócia da Blue3 Investimentos, diz que os impactos ficaram restritos ao giro financeiro menor e à queda nas receitas, de ao menos 4%, segundo ela. “O volume financeiro ficou abaixo da média, lembrando que sexta-feira já é um dia que não tem tanta liquidez. Então, o principal efeito foi essa questão da receita que naturalmente é afetada”, disse. O volume financeiro nesta sexta somou R$ 18 bilhões.
Marco Saravalle, estrategista-chefe da Krivo Capital, explica que, apesar da fala dura do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, nesta semana, e da frustração com o encaminhamento de um acordo para o fim da guerra entre EUA e Irã nos últimos dias, a leitura dos balanços, aqui e nos EUA, tem sido em geral positiva, “com poucas decepções”. “Entre juros e atividade, o mercado tem dado mais peso à atividade”, afirmou, ilustrando que as bolsas em Nova York nesta sexta subiram mesmo com a abertura da curva dos Treasuries.
Saravalle destaca que o Brasil ainda tem a seu favor os sinais de desaceleração da inflação. Desse modo, além da provável queda da Selic no Comitê de Política Monetária (Copom) da próxima semana, ele acredita que os diretores ainda deixarão a porta aberta para um novo corte, o que reforça a sensação de que muitas ações podem estar baratas.
Os papéis da Petrobras deram sustentação ao índice desde a abertura, chegando ao fechamento com altas de 1,01% (ON) e 1,35% (PN). Além do avanço do petróleo, o papel continuou se favorecendo dos dados do relatório de produção do segundo trimestre, que trazem otimismo para o balanço que sai no dia 6.
No caso da Vale, o papel começou o dia em baixa, mas logo se recuperou, apesar da queda do minério de ferro. Centeno, da Blue3, destaca que o balanço da quinta-feira apontou forte geração de caixa e que, nesta sexta, pontos que deixaram dúvidas foram esclarecidos na teleconferência. “Esta geração de caixa é que permitiu a distribuição dos dividendos”, associou. Para Saravalle, da Krivo, o balanço da mineradora foi neutro e o destaque ficou com o anúncio de recompra de ações, o que, diz, “gera grande valor para o acionista”. Vale ON fechou em alta de 0,25%.
Por fim, o setor financeiro subiu em bloco, com a disparada de 13,35% das units do Santander, após o banco anunciar que pretende lançar oferta pública de aquisição (OPA) para adquirir ações da unidade brasileira. Os acionistas que aceitarem a oferta receberão 0,4056 novas ações do Banco Santander para cada unit do Santander Brasil. A oferta representará um prêmio de 15% sobre o preço de referência de cada unit.
As maiores altas foram units do Santander (+13,35%), Azzas ON (+3,53%) e Hapvida ON (+2,45%). Em contrapartida, a lista das maiores perdas tinha nas primeiras posições Brava ON (-2,89%), Usiminas PNA (-2,52%) e Vamos ON (-2,34%).
Juros
Em um pregão atípico e de liquidez baixa, devido a problemas técnicos da B3 na primeira etapa da sessão, a movimentação da curva de juros futuros também não fez muito sentido para agentes Mesmo com os retornos dos Treasuries em forte alta, petróleo subindo e a ausência de dados relevantes no Brasil, os vértices médios e longos registraram mínima intradia rumo ao final da sessão, invertendo o sinal de leve alta que vigorava para viés de queda. Na semana anterior à decisão do Copom, que deve reduzir a Selic, a ponta curta já operava em baixa.
Segundo um trader, que falou sob condição de anonimato, “nada” explicou o alívio, “ainda mais indo na contramão de lá fora”. A queda, porém, foi praticamente zerada no encerramento, em oscilação típica de dias sem vetores claros e com volume de negócios reduzido. No fechamento, a taxa do DI para janeiro de 2027 caiu de 13,818% no ajuste anterior a 13,81%. O DI para janeiro de 2029 oscilou de 14,123% a 14,13%. O DI para janeiro de 2031 teve leve baixa a 14,39%, vindo de 14,41%.
Na semana que antecede a próxima decisão do Banco Central, os vértices cederam em bloco, com destaque para o miolo da curva, que perdeu cerca de 35 pontos-base, seguido de recuo de cerca de 25 pontos da ponta longa e de cerca de 15 pontos do trecho curto
Economista-chefe do grupo CVPAR, Marcelo Fonseca tem em seu cenário mais dois cortes da Selic, de 0,25 ponto, mas avalia que este não seria o momento de afrouxar a taxa diante de pressões fiscais e de uma inflação ainda resiliente, mesmo com melhora na margem.
“O BC está com disposição de tomar mais risco do que seria prudente. Ele deve continuar cortando até ao menos setembro, mas acho que está cometendo um erro”, afirmou, citando uma política fiscal “fora de controle” e projeções “extremamente benignas” de inflação da autoridade monetária.
Nesta manhã, o Banco Central divulgou o resultado primário do setor público consolidado, que registrou déficit de R$ 55,313 bilhões em junho, rombo maior do que o previsto pela mediana do Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), de R$ 49,300 bilhões. “O déficit nominal está em 10% do PIB, a dívida pública cresceu mais de 3 pontos este ano, e a curva de juros tem sido também o principal termômetro da questão da incerteza eleitoral”, diz Fonseca.
Em sua visão, o quadro fiscal, junto à perspectiva de continuidade do ciclo de baixa da Selic, explicam o ganho de inclinação da curva a termo no mês de julho, período que se encerrou com recuo de 20 pontos-base do DI para janeiro de 2027, virtual estabilidade nos vértices médios, e alta de 15 pontos no contrato para janeiro de 2031.
Lá fora, esta também tem sido a dinâmica dos Treasuries, observa o economista. Às 17h10, o retorno do T-Note de dois anos subia de 4,258% a 4,270%, o juro do título de dez anos avançava de 4,677% a 4,708%; e a do T-bond de 30 anos aumentava de 5,214% para 5,250%.
Thomas Simons, economista do Jefferies Group, observa que os juros dos títulos americanos de 30 anos estão no nível mais alto desde junho de 2007, e os de 10 anos “não ficam muito atrás” do pico de 19 anos. Simons atribui a piora à divergência no Comitê de Mercado Aberto (Fomc, em inglês) do Federal Reserve (Fed), que manteve os juros essa semana, mas contou com três votos divergentes em favor de alta. “O mercado teve dificuldade para digerir a comunicação do Fomc”.
Estadão Conteúdo