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Economia

Dólar sobe 2,68% na semana e atinge pico em 4 meses com cautela eleitoral

Embora o dia tenha sido negativo para outras divisas emergentes latino-americanas, a moeda brasileira sofreu mais que seus principais pares

Redação Jornal de Brasília

14/08/2026 18h31

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

São Paulo, 14 – O dólar emendou o quinto pregão consecutivo de alta nesta sexta-feira, 14, ultrapassou o teto de R$ 5,20 no fechamento e encerrou o dia nos maiores níveis desde o fim de março. Embora o dia tenha sido negativo para outras divisas emergentes latino-americanas, a moeda brasileira sofreu mais que seus principais pares.

A decisão do governo brasileiro de iniciar o processo de adoção de mecanismo de reciprocidade contra o tarifaço americano exacerbou a percepção de risco e contribuiu para o novo tropeço do real – já abalado pela saída de estrangeiros da bolsa doméstica e pelo aumento da demanda por hedge em razão da maior sensibilidade dos investidores ao ciclo eleitoral.

Depois de flertar com os R$ 5,25 no início da tarde, quando registrou máxima de R$ 5,2490, o dólar à vista terminou a sessão em alta de 0,52%, a R$ 5,2199 – maior valor de fechamento desde 30 de março (R$ 5,2478). A moeda norte-americana fecha a semana com ganhos de 2,68%, o que leva a valorização acumulada em agosto a 2,95%, após baixa de 1,79% em julho.

“A adoção do mecanismo de reciprocidade não é o principal motor para o comportamento da moeda, mas adiciona uma nova camada de incerteza à trajetória do real ao aumentar o risco de uma escalada na disputa comercial com os EUA”, afirma o economista-chefe da Pantheon Macroeconomics, Andrés Abadia.

Segundo o economista, o real sofre com um movimento de realização de lucros por conta da “reprecificação do risco-Brasil”. Investidores estariam “revisitando” o quadro fiscal e as expectativas para a condução da política econômica a partir de 2027 diante da proximidade da eleição presidencial. “O real provavelmente vai se manter volátil e se tornará cada vez mais sensível às notícias sobre as eleições, aos sinais sobre a política fiscal e ao desenrolar da disputa comercial com os EUA”, afirma Abadia.

Para o head de câmbio da EQI Investimentos, Alexandre Viotto, o início do processo de adoção da reciprocidade abalou as chances de uma esperada recuperação, ainda que parcial, da moeda brasileira nesta sexta-feira, após a rodada de depreciação dos dias anteriores. Ele destaca que os importadores estão aumentando a busca por hedge cambial diante da possibilidade de uma alta ainda maior do dólar. “Temos uma saída de investidores da bolsa brasileira e um aumento da volatilidade do câmbio, movimento que pode se intensificar até as eleições”, afirma Viotto.

Lá fora, o índice DXY – referência do comportamento da moeda americana em relação a uma cesta de seis moedas fortes – voltou a cair e marcava 99,653 pontos por volta das 17h, em baixa de 0,31%, após mínima de 99,475 pontos. O Dollar Index recua cerca de 0,15% em agosto. Após dados mais fracos do mercado de trabalho e leituras comportadas da inflação ao consumidor e ao produtor, os dados das vendas no varejo em julho decepcionaram, com queda de 0,6% ante junho, na contramão da expectativa de analistas (+0,1%).

“Mesmo com o DXY recuando e o mercado aumentando a expectativa de manutenção de juros pelo Fed em setembro, não há apetite pelo real, que tem um desempenho pior que o de outras moedas emergentes. Isso sinaliza que as questões eleitorais e fiscais domésticas começaram a ganhar um peso maior na formação da taxa de câmbio”, afirma a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli.

Bolsa

A melhora do humor dos investidores na reta final do pregão levou o Ibovespa a recuperar os 166 mil pontos e encerrar o dia perto da estabilidade. As fortes quedas registradas ao longo de toda a sessão abriram espaço para uma recuperação marginal, com investidores aproveitando para realizar um recalibramento das carteiras.

A despeito disso, o Ibovespa registra diversas marcas negativas no encerramento dos negócios de nesta sexta-feira. O índice engatou o seu nono pregão seguido de queda (-0,10%, aos 166 934,20 pontos), maior série de perdas em três anos. Na semana, o recuo foi de 3,23%. Em agosto, a baixa acumulada já é de 6,22%. Não houve um pregão sequer de alta do índice no mês até agora.

O EWZ, principal ETF ligado a ações brasileiras negociado em Nova York, já tem a pior semana desde o começo de junho ao acumular perdas de mais de 4%, enquanto o EEM, maior ETF ligado aos emergentes, sobe 1,5% – um claro sinal de que a história negativa está mais concentrada sobre o Brasil.

De um lado, os estrangeiros seguem retirando recursos da bolsa local na esteira da revisão de recomendação para ativos brasileiros, como a do JPMorgan, que retirou o Brasil da indicação de compra para neutra nesta semana. Aliado a isso, um movimento de embolsar lucros obtidos ao longo do ano para procurar por papéis de tecnologia em outros mercados vêm enxugando a liquidez do país.

“Nesse fim de pregão, em particular depois das 16h, o Ibovespa mostrou recuperação, mas não houve nenhuma nova informação, o que sugere que a melhora pode ser considerada um ajuste técnico, após a queda acumulada do índice na semana”, afirma Marianna Costa, economista-chefe, da Mirae Asset.

O cenário eleitoral é outro tema que pesa sobre os negócios, sobretudo com o início das campanhas a partir deste domingo. “Os candidatos vão ser obrigados a fazer esse dever de casa, mas o investidor quer ver isso e não tem notícia disso”, afirma Fernando Bresciani, analista de investimentos do Andbank. “Temos uma economia que está indo devagar e uma expectativa de que os juros e a inflação vão continuar mais altos por um tempo.”

Não bastassem esses elementos, o mercado também observa com ceticismo a decisão do Brasil de acionar a Lei de Reciprocidade e notificar o governo norte-americano, como resposta ao tarifaço promovido pelo presidente dos EUA, Donald Trump. As preocupações em torno de uma escalada nas relações comerciais, com potenciais implicações econômicas, voltam a dar o tom dos mercados – e devem continuar se refletindo nos pregões seguintes, segundo os especialistas.

Taxas de juros

Os juros futuros subiram pelo quinto pregão consecutivo, acumulando prêmio de cerca de 30 pontos-base no miolo da curva e aproximadamente 40 pontos no vértice longo nesta semana – marcada por rebaixamento do Brasil pelo JPMorgan, pesquisas mostrando vantagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições e novos tensionamentos na relação comercial entre Brasil e Estados Unidos.

Nesta sexta-feira especificamente, o exterior também foi adverso, com abertura das taxas dos Treasuries e avanço no preço do petróleo, que tende a puxar a inflação global. As negociações entre Washington e Teerã para a reabertura do Estreito de Ormuz permanecem travadas.

O contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) com vencimento em janeiro de 2027 fechou com taxa de 13,765%, ante 13,746% do ajuste da quinta-feira. O DI para janeiro de 2029 subiu para 14,33%, ante 14,25% de quinta-feira. Na ponta mais longa, a taxa do DI para janeiro de 2031 avançou a 14,59%, contra 14,51%.

O gestor de renda fixa da Armor Capital, Igor Campos, avalia que a semana foi marcada pela saída de recursos estrangeiros do país, com investidores de olho na proximidade das eleições e sem muita confiança sobre uma austeridade fiscal, o que acabou batendo na Bolsa, no câmbio e na curva de juros.

Dados da B3 mostram que foram retirados R$ 13,561 bilhões de fluxo externo em agosto até a sessão de quarta-feira, 12, e a Bolsa acumulou perda de 3,23% na semana.

De forma semelhante, o dólar subiu 2,68%, a R$ 5,2199 – em um movimento que considera o quadro eleitoral, os riscos fiscais e a notícia de início do processo de reciprocidade do Brasil contra os Estados Unidos. Isso faz com que o mercado não queira ficar vendido na divisa americana, ainda mais na véspera do fim de semana, segundo o operador sênior Fernando Cesar, da AGK Corretora. “O mercado vira tomador, dólar sobe e puxa os juros”, comentou no período da tarde, quando tanto o câmbio quanto a curva a termo alcançaram o pico do estresse.

A analista Julia Thomson, da Eurasia, considera que a decisão do governo Lula de abrir um processo para aplicar a Lei de Reciprocidade é uma medida de pressão para forçar uma negociação com os Estados Unidos, mas não deve levar a ações comerciais contra a administração de Donald Trump ainda em 2026, especialmente antes das eleições.

Campos, da Armor, pondera que a questão da reciprocidade parece estar na intenção de puxar o governo americano para a mesa de negociações e não para escalar a situação.

Ainda assim, o especialista em renda fixa da Manchester Investimentos, Gustavo Danilo, afirma que o movimento do governo Lula traz um viés de cautela que adicionou mais prêmio para a curva. Ele acrescenta que o exterior atuou como mais um fator de pressão nesta sexta-feira, tendo volatilidade grande relacionada ao Oriente Médio e ao petróleo, com Brent em alta de 1,67% hoje e de 5,95% na semana, indo para US$ 88,52 por barril.

A campanha eleitoral começa oficialmente no domingo, dando início à reta final do processo eleitoral. Os presidenciáveis mais bem posicionados nas pesquisas de intenção de voto realizam atos de inauguração da campanha em seus berços eleitorais: Luiz Inácio Lula da Silva (PT) em São Bernardo do Campo (SP), Flávio Bolsonaro (PL) no Rio de Janeiro (RJ), Ronaldo Caiado (PSD) em Goiás e Romeu Zema (Novo) em Minas Gerais.

Na segunda-feira, destaque para o vencimento de mais de R$ 240 bilhões em Notas do Tesouro Nacional – Série B (NTN-B) para 2026 – o maior desde 2010 -, o que pode induzir o Tesouro Nacional a aumentar pontualmente a emissão de notas mais curtas na próxima semana, a fim de contribuir com a liquidez do mercado, que se depara com a taxa média da NTN-B de cinco anos na máxima histórica.

Operadores de renda fixa ouvidos pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) ressaltam que a estratégia do órgão tem sido priorizar vencimentos mais longos, mas ponderam que o ambiente volátil frente ao período eleitoral pode ser um limitador.

Estadão Conteúdo

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