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Economia

Dólar recua para R$ 5,15 com cenário eleitoral no radar

Operadores atribuem o fôlego do real a uma redução dos prêmios de risco embutidos nos ativos domésticos

Redação Jornal de Brasília

01/09/2026 18h22

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

São Paulo, 01 – O dólar exibiu queda firme nesta terça-feira, 1º de setembro, na contramão do comportamento da moeda norte-americana no exterior, embora algumas divisas emergentes tenham avançado. Operadores atribuem o fôlego do real a uma redução dos prêmios de risco embutidos nos ativos domésticos com a perspectiva de que a corrida presidencial será mais acirrada – quadro desenhado pelas últimas pesquisas eleitorais e reforçado nesta terça pelas notícias sobre o envolvimento do ministro do Supremo Tribunal Federal, Alexandre de Moraes, visto como adversário do bolsonarismo, com Daniel Vorcaro, do Banco Master.

A valorização de mais de 4% dos preços do petróleo, com o recrudescimento dos ataques entre EUA e Irã, tem efeitos dúbios sobre a formação da taxa de câmbio. Ao elevar a aversão ao risco e provocar um avanço das taxas dos Treasuries, pune divisas emergentes. De outro lado, traz uma melhora dos termos de troca do país, o que pode se traduzir em apreciação do câmbio. O real apresentou nesta terça o segundo melhor desempenho entre as principais divisas, atrás apenas do peso colombiano, outra moeda também favorecida, em termos líquidos, pelos desdobramentos no Oriente Médio.

Afora uma alta limitada na primeira hora de negócios, quando registrou máxima de R$ 5,2015, o dólar operou em queda ao longo do restante da sessão. As mínimas vieram no fim da manhã, quando surgiram notícias sobre as ligações entre Moraes e Vorcaro, com a divisa tocando R$ 5,1378. Após arrefecer o ritmo de baixa nas últimas horas de negociação, o dólar à vista terminou o dia em queda de 0,47% a R$ 5,1557. Em agosto, a moeda americana subiu 2,16% frente ao real.

Para o economista-chefe da CVPAR, Marcelo Fonseca, a aparente reconfiguração do quadro eleitoral desenhada pelas pesquisas de intenção de voto é o principal gatilho para a valorização do real. A oposição é hoje a aposta central dos investidores para uma mudança da política econômica a partir de 2027, com ajuste robusto das contas públicas.

“Houve uma mudança importante de uma semana para cá, com a percepção de que a corrida eleitoral se acirrou de vez. E as sinalizações de Flávio têm sido positivas, com escolha de bons nomes para o segundo escalão do governo”, afirma Fonseca, para quem o senador sinaliza com ortodoxia na economia e, ao mesmo tempo, tenta se distanciar de visões polêmicas do “bolsonarismo raiz” em temas como saúde e urnas eletrônicas. “As notícias envolvendo Moraes com o Master são favoráveis à candidatura de Flávio, que sempre esteve em confronto com o STF.”

Segundo o Blog de Fausto Macedo, do Estadão, Moraes se encontrou com Vorcaro às vésperas da primeira prisão do ex-dono do Master, mostram mensagens extraídas do celular do banqueiro. Também surgiu a informação de que o Master emitiu, em outubro de 2025, cartões de crédito com limite de R$ 300 mil para filhos de Moraes, por solicitação do escritório de advocacia comandado pela mulher do ministro, Viviane Barci, que firmou contrato de R$ 131 milhões com o Master.

Apesar de uma bateria de indicadores mais fracos que as expectativas nos EUA, a moeda norte-americana ganhou força em relação a pares, com o índice DXY em alta de 0,26% perto do fim da tarde, aos 99,689 pontos, após mais aos 99,722 pontos.

As taxas dos Treasuries avançaram em bloco em razão do aumento do risco inflacionário com a valorização do petróleo.

Bolsa

O otimismo com as eleições voltou a dar o tom dos negócios na bolsa de valores, nesta terça-feira por meio de um movimento mais específico: a montagem de posições pelos investidores, inclusive estrangeiros, em opções de compra (calls) para dezembro do EWZ, maior ETF ligado a ações brasileiras negociado em Nova York, e Petrobras.

Essa dinâmica acaba gerando demanda no mercado à vista porque quem vende essas opções precisa se proteger de uma eventual alta dos ativos e, para isso, compra ações ou cotas do ETF. No caso do EWZ, essa busca pode chegar à Bolsa brasileira por meio das operações que mantêm o ETF alinhado ao valor das ações que compõem sua carteira.

O aumento do fluxo levou o Ibovespa a subir de forma consistente desde a abertura do pregão, consolidando o décimo pregão consecutivo de altas. No fim do dia, o índice não se sustentou nos 180 mil pontos, mas cravou uma alta de 1,30%, aos 179.722,48 pontos. Em Nova York, o EWZ sobe 1,50%.

“O que estamos identificando é uma entrada de estrangeiro no EWZ, em montagem de opções EWZ e Petrobras para dezembro. É um fluxo voltando, e o mercado está à mercê de fluxo”, afirma Rodrigo Moliterno, head de renda variável da Veedha Investimentos. “As últimas pesquisas eleitorais mostram estreitamento das diferenças entre os candidatos Lula e Flávio Bolsonaro e isso anima o mercado, que espera alternância de poder para tentar mudar algo do lado fiscal.”

Para Luiz Mendes, head de alocação da Angatu Private, o desempenho forte do Banco do Brasil mais recentemente é outro indício dos investidores mais confiantes na força da chapa à direita. A ação do banco acumula sua quarta sessão seguida de alta, de 6,4%.

“Pegando desde quinta-feira passada para cá, praticamente voltou a tônica de um mercado acreditando em uma alternância de governo, e um dos cavalos em que o mercado quer estar comprado nesse contexto é o BB, apesar do cenário para o agronegócio estar desafiador”, diz ele. “BB dá pistas do mercado querendo acreditar em novo governo, enquanto grandes hedge funds estão se posicionando em calls de EWZ ou BOVA11”, diz.

Para além desses aspectos, por mais um dia, a alta do petróleo embalou os papéis da Petrobras, ainda na esteira dos conflitos entre EUA e Irã.

O fechamento do estreito de Ormuz segue dando o ritmo do movimento da commodity, atingindo diretamente a estatal. Nesta terça, contrato Brent para novembro, negociado na Intercontinental Exchange de Londres (ICE), encerrou em alta de 4,6%, a US$ 94,65 por barril – e a Petrobras avançou mais de 4%

Juros

O acirramento das tensões entre Estados Unidos e Irã, com ameaças renovadas de ambos os lados e novos ataques, e o ganho de fôlego do petróleo, que encerrou em alta de 5%, não foram suficientes para tirar os juros futuros da dinâmica de alívio observada em boa parte da sessão desta terça-feira, 1º de agosto

Em mais um dia em que o cenário externo adverso teve menor peso, as taxas chegaram a recuar pouco mais de 10 pontos-base no vértice longo, com nova rodada de pesquisas que reforçaram a percepção de que a disputa eleitoral está bastante equilibrada, podendo resultar em derrota do incumbente. Já na ponta curta, o PIB do segundo trimestre ligeiramente acima do previsto chegou a pressionar as taxas em um primeiro momento, mas a fraqueza da demanda doméstica acabou por endossar a tese de que há espaço para mais cortes da Selic.

Terminados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 cedeu de 13,61%, no ajuste da véspera, a 13,585%. O DI para janeiro de 2029 anotou baixa a 14,11%, vindo de 14,188% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 recuou de 14,499% a 14,39%.

Antes da abertura, foi publicada a pesquisa Real Time Big Data, que trouxe o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) empatados no segundo turno, com 44% das intenções de voto. Em julho, Lula tinha 45% e Flávio, 42%. Na edição atual, o petista tem 38% no primeiro turno, contra 30% de Flávio e 11% do candidato do Avante, Augusto Cury, que cresceu nas últimas enquetes.

Para Felipe Tavares, economista-chefe da BGC Liquidez, o fator político foi o principal vetor responsável pela queda dos juros nesta terça. “Todo mundo está exclusivamente focado neste assunto. Ontem [segunda-feira] tivemos dados muito ruins do fiscal e era para ter sido um dia complicado, mas as pesquisas fizeram preço e ajudaram os DIs a fechar”, disse.

Em igual sentido, nesta terça, o quadro externo piorou, apontou Tavares, e mesmo assim as taxas futuras continuaram cedendo. “É inegável que o Flávio renasceu nas últimas pesquisas, depois de ter piorado muito nas últimas duas semanas, e o mercado engatou um otimismo”, comentou o economista, observando que, toda vez que as pesquisas consolidam uma visão de melhora da direita, isso tem efeito direto nos preços, devido à expectativa de que reformas sejam implementadas no próximo governo. “O mercado vai dar o benefício da dúvida para qualquer um de oposição”.

Sobre o PIB do terceiro trimestre – que superou levemente o consenso de mercado de 0,4%, ao avançar 0,5% ante o segundo trimestre, na comparação dessazonalizada – o economista da BGC avalia que o número foi interpretado como fraco à luz do ânimo com o cenário eleitoral. “Confesso que não vejo tanta qualidade na abertura dos dados”, disse.

Apesar do headline um pouco mais forte, a leitura de economistas foi de que o resultado cheio não foi tão aquecido quanto sugere, porque a demanda doméstica perdeu tração, ao passo que, do lado da oferta, o crescimento foi impulsionado pela agropecuária e pela indústria extrativa, com desaceleração de setores mais cíclicos.

Excluindo a agropecuária, o PIB avançou apenas 0,2% frente ao trimestre imediatamente anterior, calcula o economista do Santander Henrique Danyi. Já desconsiderando o setor agro e a mineração, houve alta de 0,1% no período. “Esses números reforçam a perda de fôlego nos componentes da atividade mais sensíveis à demanda. Mantemos nossa projeção de crescimento do PIB para o ano cheio de 2026 em 1,8%”, comentou Danyi.

Segundo Flávio Serrano, economista-chefe do banco Bmg, o PIB ajudou, ainda que de forma comedida, a sustentar as apostas de novas reduções no juro básico. Em seus cálculos, a curva de juros embutia no fim desta tarde 100% de chance de corte de 0,25 ponto da Selic em setembro. Para novembro, essa probabilidade estava em 60%.

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