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Economia

Dólar recua a R$ 4,91 e fecha no menor nível desde janeiro de 2024

Em baixa desde a abertura dos negócios, o dólar à vista esboçou aproximar-se do piso de R$ 4,90 ao longo da tarde

Redação Jornal de Brasília

05/05/2026 18h29

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

São Paulo, 05 – O dólar apresentou queda firme em relação ao real nesta terça-feira, 5, acompanhando a onda de enfraquecimento da moeda norte-americana em relação a divisas emergentes. Após temores de recrudescimento no conflito no Oriente Médio na segunda-feira, 4, com relatos de ataques iranianos a instalações petrolíferas nos Emirados Árabes Unidos, declarações de autoridades dos Estados Unidos nesta terça reiterando a vigência do cessar-fogo com o Irã levaram a um arrefecimento dos prêmios de risco.

Em baixa desde a abertura dos negócios, o dólar à vista esboçou aproximar-se do piso de R$ 4,90 ao longo da tarde, ao registrar mínima de R$ 4,9066. No fim do pregão, a moeda norte-americana recuava 1,12%, a R$ 4,9119 – menor valor de fechamento desde 26 de janeiro (R$ 4,9110) de 2024.

A divisa já acumula perda de 0,82% nos dois primeiros pregões de maio, após queda de 4,36% em abril. Depois do tombo desta terça, a desvalorização em 2026 passou a ser de dois dígitos (10,51%).

Se, na segunda-feira, o real sofreu menos que os pares com o estresse geopolítico, nesta terça, a moeda brasileira liderou com folga os ganhos entre as divisas mais líquidas. A combinação de melhora dos termos de troca com manutenção de taxa de juros atrativa dá suporte ao real.

Operadores relataram também entrada de recursos estrangeiros para a bolsa e provável internalização de recursos por exportadores.

“O mercado experimentou um alívio hoje com a continuidade do cessar-fogo e até com relatos de passagem de alguns navios pelo Estreito de Ormuz”, afirma o economista-chefe da Group Holding USA, Fabrizio Velloni, ressaltando que a queda do petróleo diminuiu a aversão ao risco.

Velloni vê o Brasil bem posicionado para lidar com o choque energético provocado pela guerra no Oriente Médio. Além de ser exportador líquido de petróleo, o país tem um mercado acionário com peso relevante de empresas ligadas a commodities, o que tende a atrair recursos estrangeiros para a bolsa doméstica, observa.

“O petróleo está caindo hoje, mas se mantém em um nível ainda muito elevado e não deve recuar aos níveis vistos antes da guerra, mesmo com o fim do conflito. Isso dá uma vantagem competitiva ao real”, afirma Velloni, acrescentando a expectativa positiva para o encontro entre o presidente brasileiro, Luiz Inácio Lula da Silva, e o presidente norte-americano, Donald Trump, em Washington, Estados Unidos, na quinta-feira, 7.

As cotações do petróleo tipo Brent recuaram nesta terça, mas se mantiveram acima de US$ 110 o barril. Pela manhã, autoridades dos EUA afirmaram que o chamado Projeto Liberdade, anunciado por Trump no fim de semana, está ligado apenas à liberação do fluxo de embarcações pelo Estreito de Ormuz e não abrange qualquer operação militar.

À tarde, autoridades iranianas negaram que tenham atacado os Emirados Árabes Unidos. O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse que dois navios já atravessaram o estreito com escolta americana. Já Trump se esquivou de perguntas sobre o que constituiria uma violação do cessar-fogo no Oriente Médio e negou que o Irã tenha disparado contra navios sob a proteção dos EUA. No tradicional estilo morde-e-assopra, Trump voltou a dizer que Teerã deseja fazer um acordo, mas alertou que, na ausência de consenso, os iranianos serão “eliminados rapidamente”.

Além do petróleo elevado, o real se beneficia da perspectiva de manutenção da atratividade do carry trade nos próximos meses. Para a maioria dos analistas ouvidos pelo Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), a ata do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada pela manhã, reforçou a postura cautelosa do Banco Central no processo de “calibração” do juro básico. Na semana passada, o comitê cortou a taxa Selic em 0,25 ponto porcentual, para 10,50% ao ano.

Para o Citi, o comitê adotou um tom mais duro na ata, deixando o manejo da política monetária mais “data dependent”. O cenário-base do banco ainda é de novas reduções do juro básico ao ritmo de 0,25 ponto porcentual nos próximos encontros do Copom, dada a premissa de que as cotações do petróleo vão recuar para cerca de US$ 85 o barril até o fim do ano.

“O atual patamar de três dígitos no preço do petróleo implica um risco assimétrico de o Copom interromper o ciclo de cortes da taxa Selic acima do nível de 13,25%”, afirma o Citi.

Bolsa

O Ibovespa obteve nesta terça-feira, 5, apenas o terceiro ganho nas 13 sessões que sucederam os recordes de 14 de abril, nesta terça em alta de 0,62%, aos 186.753,82 pontos, entre mínima de 185.364,01 e máxima de 187.427,56 na sessão, em que saiu de abertura aos 185.596,67. O giro ficou em R$ 26,2 bilhões. Na semana e no mês, no agregado de duas sessões, o índice recua 0,30%, preservando ganho de 15,91% no ano.

O desempenho positivo desta terça-feira foi assegurado pelas ações do setor financeiro, o de maior peso no Ibovespa. Por outro lado, as principais empresas do índice, Vale e Petrobras, fecharam em baixa, com destaque para a estatal, que cedeu 1,38% na ON e também na PN, enquanto a mineradora recuou 0,34%. Entre os maiores bancos, os ganhos da sessão chegaram a 1,59% em Bradesco PN.

Na ponta vencedora do Ibovespa, Ambev (+15,30%) após o balanço do primeiro trimestre, à frente de Usiminas (+5,10%), Gerdau (+4,86%) e Metalúrgica Gerdau (+4,16%), as duas últimas nas respectivas máximas da sessão no fechamento. No lado oposto, Braskem (-2,00%), MBRF (-1,94%) e WEG (-1,85%).

A regressão do petróleo na sessão ocorreu a despeito da ausência de sinal de entendimento entre EUA e Irã. Pelo contrário. O presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, afirmou hoje que as exigências são “impossíveis e inalcançáveis” e criticou a combinação de pressão militar com expectativa de negociação.

Em conversa telefônica com o primeiro-ministro designado do Iraque, Ali Faleh al-Zaidi, o líder iraniano disse que “o diálogo é possível se for conduzido de forma lógica”, mas alertou que “ameaças e intimidação não levarão a lugar algum”.

Por sua vez, em conversa com jornalistas na Casa Branca, o presidente norte-americano, Donald Trump, disse hoje considerar que o aumento de custo dos combustíveis é um preço pequeno pelo conflito no Oriente Médio. Ele acrescentou que a atual situação no Estreito de Ormuz leva países a comprarem petróleo dos EUA, e reiterou que o Irã busca um acordo. “Se o Irã não chegar a um acordo, eles serão eliminados rapidamente”, reiterou.

Ainda assim, as sinalizações de que o governo Trump pretende manter o cessar-fogo com o Irã contribuiu para reduzir os receios sobre o conflito no Oriente Médio e para pressionar abaixo os preços do petróleo nesta terça-feira. A commodity, porém, continua acima dos US$ 100 o barril. O petróleo WTI para junho, negociado em Nova York, fechou em queda de 3,90% (US$ 4,15), a US$ 102,27 o barril. E o Brent para julho, em Londres, caiu 3,99% (US$ 4,57), a US$ 109,87 o barril.

As empresas de navegação avaliam que ainda não há condições seguras para retomar o tráfego comercial pelo Estreito de Ormuz, apesar da iniciativa dos Estados Unidos de criar um corredor marítimo protegido na região. Até agora, apenas duas embarcações civis – ambas navios mercantes com bandeira americana – atravessaram o estreito sob o chamado “Projeto Liberdade”, segundo autoridades dos EUA.

“Os desdobramentos da guerra continuarão sendo fundamentais para os mercados financeiros nesta semana, e as moedas não serão exceção. Até o momento, o cessar-fogo está sendo abalado por tentativas dos EUA de romper o bloqueio de Ormuz e pela retaliação iraniana”, diz Matthew Ryan, head de estratégia de mercado global da Ebury. Nos EUA, acrescenta Ryan, haverá uma série de indicadores importantes sobre o mercado de trabalho em abril, nesta semana, culminando com o relatório oficial de emprego, o payroll, na sexta-feira.

Para Nicolas Gass, estrategista de investimentos e sócio da GT Capital, a recuperação pontual do Ibovespa na sessão reflete uma redução, que precisa ainda se mostrar duradoura, com relação ao efeito do petróleo sobre a inflação. Na sessão, a relativa “melhora de humor dos mercados” ocorre em meio a um cenário ainda conflagrado, “diante das tensões externas envolvendo o Estreito de Ormuz, que permanece fechado há cerca de dois meses, gerando incertezas relevantes”.

“O dia foi marcado por uma tentativa de alívio nos mercados, mesmo com a guerra ainda no centro das atenções”, diz Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, destacando na agenda doméstica a ata da mais recente reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), divulgada pela manhã. “A ata do Copom reforçou a cautela com a inflação, mas manteve aberta a possibilidade de novos cortes na Selic, contribuindo para a queda dos juros futuros. O dólar também perdeu força frente ao real, em pregão de maior busca por risco”, acrescenta.

Juros

A correção nas cotações do petróleo, na esteira da percepção de que a guerra no Oriente Médio não teve recrudescimento adicional e o cessar-fogo entre Estados Unidos e Irã seguirá em vigor, abriu espaço para alívio nas curvas de juros globais nesta terça-feira, 5, movimento que beneficiou também o Brasil.

No fechamento, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 diminuiu de 14,209% no ajuste de segunda para 14,15%. O DI para janeiro de 2029 caiu a 13,%, vindo de 13,859% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 cedeu a 13,%, frente a 13,879% no ajuste antecedente.

Os contratos futuros de petróleo caíram cerca de 4% na sessão atual, influenciados por indicações de que o governo Trump vai manter o cessar-fogo com o Irã, apesar dos ataques realizados nesta segunda no Estreito de Ormuz. Tanto o barril do Brent quanto o do WTI, no entanto, seguem acima de US$ 100. Outra informação que ajudou a melhorar o humor dos investidores foi a passagem de um navio de bandeira americana pelo estreito. Nesta tarde, o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, disse que dois navios já atravessaram a rota estratégica com escolta americana, e estão seguros.

Além do confronto entre EUA e Irã, que tem sido o principal vetor sobre o mercado local de renda fixa desde seu início, a ata do Comitê de Política Monetária (Copom) também fez preço na curva. Embora as taxas futuras tenham cedido em bloco, agentes apontaram que a postura ‘hawkish’ do Banco Central contribuiu para redução maior no miolo da curva do que na ponta longa. Isso porque há uma resposta à expectativa de que os juros caiam menos mais à frente.

Head de renda fixa da Porto Asset, Gustavo Okuyama afirma que o maior driver sobre os DIs na sessão foi novamente o ambiente externo. Como reflexo de um dia com notícias muito negativas sobre a guerra, houve uma reprecificação global de juros nesta segunda, disse. Já nesta terça, na falta de mais incidentes e com falas marginalmente mais positivas de ambos os lados sobre o conflito, o “respiro” nos preços do petróleo permitiu um ajuste para baixo nas taxas, com os retornos dos Treasuries fechando em toda a curva. “Mas as taxas estão fechando só uma fração do que abriram hoje [segunda-feira]. O mercado precisa ver uma resolução firme para se animar mais”, avalia.

Ao contrário de outros países, observa Okuyama, o Brasil está em um ciclo de redução do juro básico, o que foi reafirmado pela ata do Copom e também, em sua visão, pode ter influenciado uma descompressão maior dos DIs nesta terça.

Profissionais ouvidos pela Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) e também o head de renda fixa da Porto Asset avaliaram que o documento trouxe elementos levemente mais hawkish do que o comunicado. Seriam eles, de acordo com o BTG Pactual, a explicitação de desancoragem adicional das expectativas inflacionárias em horizontes mais longos, em especial 2028; o destaque de que as leituras recentes de inflação vieram significativamente acima do esperado; e a reafirmação do compromisso de combater efeitos de segunda ordem do choque de petróleo.

Para Okuyama, mesmo com a guerra nos holofotes, a ata teve influência sobre o formato da curva, que foi de inclinação, se considerados apenas os vencimentos médios e longos: estes últimos recuaram menos em relação aos intermediários. “A ata fez sim um preço no formato da curva. Apesar de todos os vértices fechando, os longos fecharam menos que o miolo. Isso em geral é uma resposta a uma expectativa de que os juros caiam menos lá na frente.”

Estadão Conteúdo

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