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Economia

Dólar fecha praticamente estável com eleição e tarifaço no radar

Além de certa acomodação após o rali de terça, houve um aumento dos prêmios de risco em razão de questões domésticas

Redação Jornal de Brasília

15/07/2026 18h24

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

São Paulo, 15 – Depois de rondar a estabilidade ao longo da tarde, o dólar à vista encerrou a sessão desta quarta-feira, 15, cotado a R$ 5,0785 (+0,01%). Apesar da continuidade do movimento global de desvalorização da moeda americana, deflagrado na terça pela deflação ao consumidor nos EUA e reforçado nesta pelo recuo da inflação ao produtor, o real exibiu fôlego bem reduzido.

Além de certa acomodação após o rali de terça, houve um aumento dos prêmios de risco em razão de questões domésticas, como a ampliação do favoritismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na disputa presidencial. Também pesou sobre o real a perspectiva de confirmação, ainda nesta quarta, do tarifaço de 25% dos EUA sobre produtos brasileiros, embora com uma lista ampliada de exceções, como antecipado ao Broadcast Político (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) pela Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom).

“Com esse ambiente externo favorável a emergentes, o real deveria ter um comportamento melhor”, afirma o economista Fabrizio Velloni, para quem a ampliação da vantagem de Lula deixa os investidores na defensiva, uma vez que sinaliza a manutenção da atual política fiscal. “O carry e os preços do petróleo ainda dão sustentação ao real, apesar dos problemas internos.”

Pesquisa Genial/Quaest mostrou que a aprovação do governo Lula superou a desaprovação. As intenções de voto do petista no primeiro turno passaram de 39% para 40%, ao passo que Flávio Bolsonaro (PL-FJ) oscilou de 29% para 28%. Em eventual segundo turno, Lula tem 45% contra 37% do senador.

Apesar do gás curto do real nesta quarta, o dólar acumula queda de 0,59% na semana e de 1,64% em julho, após valorização de 2,38% em junho. Em 2026, a moeda americana recua 7,48% frente ao real, que apresenta, no período, o segundo melhor desempenho entre as divisas mais relevantes, atrás apenas do peso colombiano.

O head da Mesa Internacional da Mirae Asset, Jonathan Joo Young Lee, ressalta que a imposição de tarifas dos EUA a produtos brasileiros era o principal risco de curto prazo para a divisa local, que ainda é favorecida no ano “por um carry muito atraente, com yields implícitos perto de 13%.”

O economista-chefe da Pantheon Macroeconomics, Andres Abadia, ainda espera uma eleição “altamente competitiva”, apesar da melhora da melhor do desempenho de Lula nas pesquisas, em meio a atritos na família Bolsonaro.

“Os principais riscos para os mercados são um aumento dos gastos públicos por conta das eleições e as tensões comerciais com os Estados Unidos, que podem manter os prêmios de risco elevados”, afirma Abadia, em relatório.

Referência do comportamento da moeda americana em relação a uma cesta de seis divisas fortes, o índice DXY recuava cerca de 0,40% no fim da tarde, ao redor dos 100,526 pontos, após mínima aos 100,353 pontos. As taxas dos Treasuries recuaram com o alívio inflacionário e o comportamento mais tranquilo do petróleo, que fechou em ligeira alta.

O índice de preços ao produtor (PPI, na sigla em inglês) caiu 0,3% em junho, em linha com as expectativas. Já o núcleo, que exclui os itens mais voláteis, subiu 0,2%, abaixo do esperado. Na terça, o índice de preços ao consumidor (CPI) trouxe deflação acima das expectativas em junho.

No Senado americano, o presidente do Fed, Kevin Warsh, alertou que CPI e PPI são medidas imperfeitas da tendência da inflação subjacente e reforçou o compromisso com a estabilidade de preços As falas do chairman, contudo, tiveram impacto muito limitado na trajetória do dólar.

“O PPI reforça o alívio de terça com o CPI e reduz a pressão para que o Fed eleve os juros no curto prazo, principalmente na reunião do fim de julho”, afirma a coordenadora de inteligência e alocação da Avenue, Juliana Benvenuto.

Bolsa

O Ibovespa fechou a sessão em queda, sem conseguir acompanhar o desempenho positivo das bolsas em Nova York, em função de fatores domésticos, especialmente pela cautela relacionada à provável oficialização do tarifaço de 25% a produtos brasileiros pelos EUA. Em dia de vencimento de opções sobre índice, pesaram ainda sobre a Bolsa brasileira a pesquisa Genial/Quaest, que mostrou bom posicionamento do presidente Lula na corrida presidencial, e a cautela com o avanço das pautas-bomba no Congresso.

No melhor momento do dia, o índice da B3 não conseguiu passar da estabilidade, aos 176.663 pontos (+0,01%), na máxima pela manhã. As mínimas foram atingidas no começo da tarde, coincidindo com uma piora pontual em Wall Street. Na mínima, o índice caiu 0,77%, para 175.288 pontos. Em Nova York, Dow Jones, Nasdaq e S&P 500 percorreram a sessão majoritariamente em alta.

No meio da segunda etapa, houve certo alívio nas perdas, puxado principalmente por bancos, melhora da Petrobras e da Vale, que chegou a cair mais cedo. As ações da mineradora tiveram um dia de volatilidade, apesar do avanço do minério de ferro. Também ficou no radar a nomeação de Wilfred Theodoor Bruijn para presidente temporário do conselho de administração. No fechamento, Vale ON subia 0,68%.

O petróleo esteve em baixa durante boa parte da sessão, o que afetou as ações da Petrobras, mas acabou fechando em leve alta, reduzindo a pressão sobre os papéis. Petrobras ON subiu 0,11% e a PN caiu 0,17%.

O sócio-fundador da Private Investimentos, Gustavo Silva, considera que a Bolsa teve nesta quarta movimento lateralizado. “O que trava o mercado hoje é a expectativa da tarifa nova dos EUA sobre produto brasileiro. E ainda tem o lado fiscal pesando, depois que o Senado aprovou aposentadoria especial para agente de saúde”, explica. A Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 14/2021 tem potencial impacto de R$ 28 bilhões nas contas públicas em dez anos, segundo cálculos do Ministério da Previdência Social.

A definição do Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR, na sigla em inglês) foi a grande expectativa do dia. O ministro da Secretaria de Comunicação Social da Presidência (Secom), Sidônio Palmeira, afirmou ao Broadcast Político (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) que a tarifa de 25% sobre produtos brasileiros seria anunciada nesta tarde e que seria provável uma lista ampliada de exceções.

Para Pedro Galdi, analista do AGF, pesaram, além da questão das tarifas, a volatilidade trazida pelo exercício de opções sobre o índice, a pesquisa eleitoral e a preocupação com o quadro fiscal “A lista (de produtos tarifados) que deve ser anunciada é pequena, mas acaba fazendo barulho. E hoje [quarta-feira] é vencimento, então sempre tem uma briga de comprados e vendidos”, disse.

A pesquisa Genial/Quaest mostrou que o presidente Lula ampliou a vantagem, dentro da margem de erro, sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), tanto no primeiro quanto no segundo turno. Na simulação do 1º turno, Lula oscilou de 39% para 40% das intenções de voto e Flávio, de 29% para 28%. Em um eventual 2º turno, Lula registra 45%, enquanto Flávio alcança 37%, ante 44% e 38% no levantamento anterior.

Os números trazem preocupação, na medida em que a continuidade da gestão Lula representa poucas chances de mudança da política fiscal, considerada frouxa pelo mercado. “A liderança de Lula nos cenários de primeiro e segundo turno e o elevado porcentual de eleitores que afirmam já ter definido seu voto aumentam a atenção em relação ao risco fiscal e à condução da política econômica nos próximos anos”, afirmou Olívia Flôres de Brás, CEO da Magno Investimentos.

O Ibovespa fechou com 176.010,90 pontos, em baixa de 0,36%. O giro financeiro somou R$ 39,8 bilhões. Em julho, sobe 2,32% e no ano, 9,24%.

Juros

Depois de ter ganhado inclinação em boa parte da sessão, na esteira da aprovação da PEC dos agentes de saúde no Senado e da pesquisa Genial/Quaest que mostrou liderança do presidente Lula em cenários de primeiro e segundo turno, a curva de juros futuros perdeu ímpeto e passou a rondar os ajustes anteriores no fim da tarde. O movimento acompanhou a queda maior dos rendimentos dos Treasuries após a divulgação do Livro Bege do Fed e, no cenário local, não teve gatilho claro, segundo agentes

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 oscilou a 13,89%, de 13,9% no ajuste antecedente. Neste trecho da curva, profissionais apontaram alguma influência da Pesquisa Mensal de Serviços (PMS), do IBGE, que indicou atividade mais fraca do que o previsto no setor. A taxa do DI para janeiro de 2029 caiu de 14,041% no ajuste da véspera a 14,025%. O DI para janeiro de 2031 fechou em 14,245%, vindo de 14,235%.

Ao longo de todo o pregão, as taxas operaram sob um jogo de forças do ambiente externo, favorável ao fechamento da curva, e de fatores de pressão trazidos pelo quadro doméstico. Nos Estados Unidos, o núcleo do índice de preços ao produtor (PPI, em inglês) subiu 0,2% em junho ante maio, abaixo da alta de 0,4% projetada, corroborando o cenário mais benigno trazido ontem pelo CPI. Já por aqui, os ruídos fiscal e político voltaram a fazer preço.

Nesta manhã, a Genial/Quaest apontou que Lula ampliou a vantagem, dentro da margem de erro, sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na disputa presidencial, tanto no primeiro quanto no segundo turno. Na leitura do mercado, a continuidade do governo atual sinaliza que a política fiscal deve seguir menos austera.

Mas a maior pressão sobre os DIs durante boa parte da sessão veio do plenário do Senado, que aprovou na noite de terça, em segundo turno, a PEC 14/2021, que pode ter impacto fiscal de R$ 27,9 bilhões em dez anos, segundo o Ministério da Previdência Social (MPS). A avaliação é de Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset. “O cenário fiscal fica ainda pior do que o imaginado”, disse.

Por outro lado, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, relatou nesta tarde que pediu a Alcolumbre “cautela” sobre o momento de promulgar a pauta, uma vez que ainda é preciso fazer cálculos de impactos fiscais, inclusive em Estados e Municípios. “Isso pode ter dado algum alívio à curva. Mas reforço que não está claro o movimento”, pondera Costa.

Economista-chefe da BGC Liquidez, Felipe Tavares apontou que, na segunda parte dos negócios, houve uma melhora do cenário prospectivo para a política monetária nos EUA, desencadeada pelo Livro Bege do Federal Reserve (Fed). O documento indicou que os preços aumentaram em nível moderado, enquanto a atividade subiu em ritmo “leve a moderado” em 11 dos 12 distritos do Fed. “A T-Note de dois anos fechou com força, jogando cada vez mais à frente a chance de alta dos juros”, comentou.

Além disso, ele acrescenta que o dado de serviços do Brasil de maio, que recuou 0,4% ante abril, também ajudou a manter a ponta curta bem comportada. Segundo Rodolfo Margato e Alexandre Maluf, economistas da XP, a perspectiva é de expansão modesta do setor à frente. De um lado, o mercado de trabalho apertado e medidas de estímulo devem sustentar a demanda das famílias no curto prazo. De outro, os juros elevados tendem a limitar uma alta mais expressiva, avaliam.

Estadão Conteúdo

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