FOLHAPRESS
O dólar registra alta nesta quarta-feira (6), revertendo parte das perdas da véspera, quando fechou no menor nível desde janeiro de 2024.
O real deprecia frente a moeda norte-americana após leilão de swap reverso do BC, uma espécie de compra de dólares no mercado futuro. A operação exerce pressão de alta sobre a cotação da moeda.
Por volta das 11h50, a moeda norte-americana avançava 0,15%, a R$ 4,919, na contramão do exterior. Lá fora, o índice DXY, que mede o desempenho do dólar frente a outras seis moedas fortes, recuava 0,51%.
No mesmo horário, a Bolsa de Valores brasileira subia 0,61%, a 187.925 pontos, beneficiada pela retomada de negociações entre EUA e Irã. O noticiário geopolítico também gera a queda internacional dos preços de petróleo, que chegam a despencar mais de 10% neste pregão.
O comportamento da moeda norte-americana acompanha uma operação com swaps reversos, realizada pelo BC às 9h. Segundo a autarquia, foi aceita 1 proposta, no total de 10 mil contratos, o equivalente a US$ 500 milhões, na operação.
O efeito do leilão é equivalente à compra de dólares no mercado futuro -a operação também tende a puxar as cotações também no mercado à vista. Por isso, a moeda norte-americana costuma subir quando a instituição realiza esse tipo de leilão, como se houvesse um aumento da demanda pela divisa.
Ao contrário do que fez em outras ocasiões, o BC não promoveu nesta quarta-feira, juntamente com o leilão de swap reverso, um leilão de venda à vista de dólares -operações simultâneas conhecidas no mercado como “casadão”.
Para Marcio Riauba, head da mesa de operações da StoneX, a autoridade busca desacelerar o movimento de apreciação da moeda local e reancorar expectativas de curto prazo. “No micro, o mercado vinha carregado em posições vendidas em dólar, sustentadas pelo diferencial de juros elevado e fluxo de entrada consistente, o que abriu espaço para um movimento técnico da moeda após a intervenção”.
Durante o pregão, a possibilidade de retomada de negociações entre EUA e Irã também anima os investidores. Segundo um porta-voz do Paquistão, os dois países estão próximos de um acordo.
O funcionário confirmou à agência Reuters informações publicadas pelo site Axios de que Washington e Teerã discutem um memorando de uma página para pôr fim ao conflito e às disputas no estreito de Hormuz. Segundo ele, as negociações serão concluídas “muito em breve”.
Nesta quarta, o presidente norte-americano Donald Trump afirmou que a guerra pode terminar se Teerã aceitar os termos apresentados. “Se eles não concordarem, os bombardeios começarão, e serão, infelizmente, em um nível e intensidade muito maiores do que antes”, acrescentou.
Um porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã confirmou que o país persa está analisando a proposta e que comunicará sua posição ao mediador, o Paquistão, segundo a agência estatal Isna. Já a Guarda Revolucionária afirmou que a passagem segura por Hormuz será garantida com o fim das ameaças dos EUA, na primeira reação à pausa das operações americanas.
Com as notícias, o barril de petróleo Brent, referência mundial, chegou a desabar 11,92%, às 8h (horário de Brasília), a US$ 96,77, ficando abaixo de US$ 100 pela primeira vez desde 23 de abril. Por volta das 11h15, a commodity tinha redução de 6,40%, a US$ 102,94.
A queda dos preços internacionais do petróleo leva investidores a buscarem ativos de maior risco, como mercados emergentes e ações.
O conflito no Oriente Médio bloqueia o fluxo no estreito de Hormuz, via por onde passa cerca de 20% do abastecimento mundial de petróleo e gás. A paralisação tem gerado um temor de um repique inflacionário global por levar os preços de petróleo a dispararem.
“O principal gatilho vem do cenário internacional, após sinais de que Estados Unidos e Irã estariam próximos de um acordo para encerrar o conflito. Esse ambiente aumenta o apetite por risco nos mercados globais. No Brasil, o movimento beneficia principalmente ações ligadas a commodities e setores domésticos”, diz Gustavo Trotta, sócio da Valor Investimentos
Nos EUA, as Bolsas S&P 500 e Nasdaq registram altas de 0,76% e 1,07%, respectivamente. Na terça-feira, os índices registraram recordes de fechamento. No Brasil, a Vale avança 3,11%.
No câmbio, o dólar também se desvaloriza frente a moedas emergentes, como peso mexicano e rand sul-africano.
Nos últimos dias, o real e a Bolsa brasileiro tem se destacado pela distância em relação ao conflito no Oriente Médio e pelo diferencial de juros com os EUA.
Na terça-feira, através de ata, o Copom disse ver impacto do conflito no Oriente Médio sobre a inflação e piora nas expectativas no longo prazo. A postura mais cautelosa sinaliza que o diferencial de juros do Brasil deve se manter.
Na quarta-feira passada, o Fed manteve a taxa de juros inalterada na faixa de 3,5% a 3,75%. No mesmo dia, o Copom anunciou um corte de 0,25 ponto percentual na taxa básica de juros, levando a Selic a 14,5% ao ano.
Paula Zogbi, estrategista-chefe da Nomad, vê uma combinação de dólar global mais fraco e fluxo favorável para ativos de risco favorecendo o Brasil. “Há uma percepção de descompressão no Irã, apesar de o cessar-fogo continuar frágil. Ao mesmo tempo, o mercado local ainda se beneficia do diferencial de juros”.
Investidores aproveitam da diferença para apostar no “carry trade”. Na operação, investidores captam recursos em economias com juros mais baixos, como os Estados Unidos, e aplicam em ativos de países com taxas mais elevadas, como o Brasil, buscando ganhos com o diferencial de juros. O comportamento é citado como um dos principais responsáveis pela alta recente da Bolsa e do real.