São Paulo, 02 – O dólar emendou nesta quarta-feira, 2, o terceiro pregão consecutivo de queda firme frente ao real, apesar do dia negativo para a maioria das divisas latino-americanas, e fechou nos menores níveis desde o início de agosto. Analistas veem redução dos prêmios de risco em ativos domésticos diante da possibilidade de uma vitória da oposição na corrida presidencial.
Após a revelação, na terça-feira, de uma relação estreita do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, com o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes, visto como opositor ao bolsonarismo, pesquisa Quaest divulgada pela manhã confirmou o quadro de uma disputa acirrada pelo Palácio do Planalto.
O levantamento mostrou empate técnico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (42%) e Flávio Bolsonaro (41%) em eventual segundo turno.
À exceção de uma alta pontual pela manhã, antes da divulgação do levantamento da Quaest, o dólar operou em baixa no restante da sessão. Com mínima de R$ 5,0987 no início da tarde, terminou o dia em queda de 0,92%, a R$ 5,1084 – menor valor de fechamento desde 7 de agosto. O real apresentou o segundo melhor desempenho entre as divisas mais líquidas, atrás apenas do won sul-coreano. Depois de alta de 2,16% em agosto, a moeda americana já recua 1,38% nos dois primeiros pregões de setembro.
O economista-chefe da Bravonte Capital, Eduardo Velho, avalia que as investigações em torno da ligação de Lulinha, filho do presidente Lula, com uma lobista, e as revelações sobre a relação próxima entre Vorcaro e o ministro Alexandre de Moraes tendem a desgastar o governo. “O real se valoriza com o aumento da probabilidade de uma mudança da política econômica, sobretudo fiscal, a partir de 2027, com a vitória da oposição”, afirma Velho.
Após trocas de sinais pela manhã, os preços do petróleo se firmaram em alta ao longo da tarde, diante das incertezas sobre o conflito no Oriente Médio e o tráfego pelo Estreito de Ormuz – que, segundo o presidente Donald Trump, está sob total controle dos EUA. O contrato do Brent para novembro subiu 1,04%, a US$ 95,63 o barril.
“Temos um fluxo de estrangeiros para ativos domésticos, com a valorização do petróleo. Isso favorece o real mesmo com apetite menor ao risco no exterior”, afirma a economista-chefe do Ouribank, Cristiane Quartaroli, ressaltando que a menor volatilidade também estimula o apetite pelo carry trade.
Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY operou em leve baixa e rondava os 99,500 pontos por volta das 17h, sobretudo por conta da apreciação de quase 0,90% do iene, na esteira de fala do dirigente do Banco do Japão, que acenou com a possibilidade de alta de juros.
Pela manhã, relatório ADP mostrou que o setor privado dos EUA criou 38 mil vagas em agosto, o ritmo mais lento desde janeiro e abaixo das estimativas, de 46,5 mil. A divulgação do Livro Bege, à tarde, foi praticamente ignorada.
Investidores aguardam a divulgação, na sexta-feira, 4, do relatório de emprego (payroll) de agosto, para calibrar as apostas em torno da possibilidade de uma alta de juros nos EUA neste mês, que ganhou força após o tom duro do presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, na semana passada, durante o Simpósio de Jackson Hole.
“Com base no discurso de Warsh na sexta-feira, parece que nem dados fracos do mercado de trabalho serão suficientes para impedir uma alta de juros pelo Fed”, afirma, em nota, o chefe de estratégia global de mercados e de câmbio do banco ING, Chris Turner, ressaltando que o diretor do Fed Christopher Waller deve reforçar, durante participação em evento na manhã desta quinta-feira, 3, a possibilidade de aperto monetário.
Bolsa
Em um pregão marcado por uma firme alta, o Ibovespa voltou ao patamar dos 185 mil pontos (alta de 3,05%, aos 185.205,09 pontos), maior nível desde maio, pautado pelo “trade” eleitoral. Após a pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira, os investidores voltaram a se animar com o acirramento da disputa entre o senador Flávio Bolsonaro (PL) e o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), no segundo turno das eleições, confiantes de que uma eventual vitória da chapa à direita represente maior compromisso com as contas públicas.
Um sinal de que a bolsa contou com elementos domésticos para os ganhos é o desempenho no exterior.
O EWZ (iShares MSCI Brazil), o maior ETF de ações brasileiras negociado em Nova York, disparou 4,16% no dia, enquanto o EEM (iShares MSCI Emerging Markets), ETF de mercados emergentes, subiu apenas 0,57%.
Conforme mostrou o Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), os investidores vêm se posicionando em opções de compra (calls) de EWZ e Petrobras para dezembro, pós-eleição, justamente em meio ao aumento de confiança na possível vitória de Flávio.
Um grande destaque, e que também captura esse sentimento político, é o Banco do Brasil (+5,50%), uma estatal mais sensível ao “trade” eleições, notam operadores. As altas também passaram pela Vale, pela Petrobras, pelos bancos e pelo setor de utilities, caso da Axia e Sabesp.
“Esse movimento é relevante porque o mercado não gosta de incerteza fiscal e uma parcela importante dos investidores enxerga uma eventual troca de governo como um possível sinal de uma política econômica mais ortodoxa”, diz Marcos Bassani, economista e sócio-fundador da Boa Brasil Capital.
O bom humor dos investidores no dia aparece não apenas no Ibovespa, mas também na valorização do real e no recuo dos juros futuros, indicando uma redução momentânea do prêmio de risco exigido para os ativos brasileiros, ressalta Paulo Silva, cofundador da Advisory 360. “Empresas mais sensíveis ao ambiente doméstico e ao risco político acabam respondendo com mais intensidade a essa percepção”, afirma.
Para Pedro Galdi, analista do AGF, chama a atenção o Ibovespa iniciar o mês “se descolando da pressão do exterior”, mais um sinal claro de como o mercado brasileiro está refletindo de forma intensa o “trade” eleitoral.
Além disso, ele nota que o envolvimento do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro, ex-dono do Banco Master, ajuda a embaralhar o jogo político. Isso porque a exposição de Vorcaro ao lado de Moraes pode virar munição eleitoral: a oposição explora a imagem do ministro, visto como antagonista do bolsonarismo, para empurrar Lula à defensiva no debate institucional.
Juros
Os juros futuros negociados na B3 fecharam em queda firme no pregão desta quarta-feira, 2, alinhados ao desempenho dos demais ativos domésticos. Segundo agentes, além do ‘trade’ eleitoral, que beneficiou o real e a Bolsa na sessão, os contratos de Depósito Interfinanceiro (DI) contaram ainda com a ajuda extra da percepção de um desaquecimento mais consistente da atividade econômica, que permite que o Banco Central continue o ciclo de calibração da Selic.
Nessa seara, após o Produto Interno Bruto (PIB) do segundo trimestre ter trazido recuo do consumo das famílias em um período turbinado por estímulos, a produção industrial de julho, publicada nesta quarta pelo IBGE, cresceu menos do que o previsto, sinalizando uma economia fraca também no terceiro trimestre.
Já do lado político, o empate técnico entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no segundo turno, trazido pela pesquisa Quaest, somado às notícias negativas relacionando o ministro do STF Alexandre de Moraes ao dono do banco Master, deram novo fôlego à perspectiva de troca de governo em 2027. Na leitura do mercado, a maior chance de alternância de poder reduz os prêmios de risco, por trazer maior probabilidade de que assuma um governo comprometido com a agenda fiscal. A crise envolvendo o STF também é considerada como um fator que favoreceria a oposição.
Encerrados os negócios, a taxa do DI para janeiro de 2027 cedeu a 13,575%, vindo de 13,586% no ajuste da véspera. O DI para janeiro de 2029 terminou negociado a 13,95%, de 14,114% no ajuste. O DI para janeiro de 2031 anotou baixa de 14,403% a 14,200%.
Publicada no fim da manhã, a Quaest indicou Lula e Flávio empatados em um cenário de segundo turno, com 42% dos votos para o petista e 41% para o filho de Jair Bolsonaro. Na edição anterior, de meados de agosto, a diferença entre os dois candidatos era de três pontos. No primeiro turno, a leitura desta quarta da enquete aponta Lula com 37% dos votos, seguido por Flávio (30%) e Augusto Cury, do Avante (10%).
“A pesquisa Quaest mostrou uma disputa presidencial mais apertada, principalmente no cenário de segundo turno, levando o mercado a reprecificar parte do risco eleitoral. Na leitura dos investidores, aumentou a probabilidade de uma mudança na condução da política econômica a partir de 2027, especialmente em relação ao equilíbrio fiscal e à trajetória da dívida pública”, afirmou Paulo Silva, co-fundador da Advisory 360. Para Silva, porém, o movimento representa uma “redução momentânea” do prêmio de risco.
Gestor de portfólio da Azimut Brasil Wealth Management, Marcelo Bacelar concorda que o quadro eleitoral tem ajudado os ativos domésticos, não só devido ao resultado conhecido nesta quarta, mas afirma que, no caso do mercado local de renda fixa, 70% da melhora se deve à conjuntura de perda de ímpeto da atividade. Assim, avalia, a sessão desta quarta representa uma continuidade do movimento de terça, quando foi conhecido o PIB do segundo trimestre. O número, apesar de ter avançado 0,5% na margem, veio com retração de 0,4% do consumo das famílias.
“A parte cíclica do PIB foi pior do que o esperado, e confirmou desaceleração em um trimestre no qual o consumo deveria vir mais forte por causa da estímulos”, aponta Bacelar. “E quando vemos o PIB confirmando um desempenho pior do consumo interno, isso começa a abrir espaço para mais cortes da Selic e para menos prêmio nas taxas”, disse o gestor, que mantém posições aplicadas no miolo da curva, apostando em mais alívio monetário à frente.
Nesta quarta, o IBGE divulgou a Pesquisa Industrial Mensal – Produção Física (PIM-PF), primeiro dado econômico oficial de julho, que cresceu apenas 0,2% ante junho, feitos os ajustes sazonais. A mediana do Projeções Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado), previa alta maior, de 0,5%.
Estadão Conteúdo