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Economia

Dólar cai e volta a fechar abaixo de R$ 5,00 em dia de recuperação de emergentes

Apesar das incertezas em torno dos desdobramentos do conflito entre Estados Unidos e Irã, as taxas dos Treasuries exibiram fôlego curto

Redação Jornal de Brasília

18/05/2026 18h27

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

São Paulo, 18 – O dólar exibiu queda firme nesta segunda-feira, 18, devolvendo parcialmente os ganhos de mais de 3% da semana passada, e voltou a fechar abaixo da marca de R$ 5,00. Apesar das incertezas em torno dos desdobramentos do conflito entre Estados Unidos e Irã, as taxas dos Treasuries exibiram fôlego curto, o que abriu espaço para a recuperação das divisas emergentes.

O real liderou os ganhos entre as moedas mais líquidas, com investidores aparando prêmios embutidos na taxa de câmbio diante da reconfiguração das expectativas para a corrida eleitoral após o “Flávio Day 2.0”.

A perspectiva de estreitamento do espaço para novas reduções da taxa Selic, reforçada pelo Boletim Focus, torna muito custosa a manutenção de posições cambiais defensivas e desencoraja apostas mais contundentes contra a moeda brasileira.

Após operar acima de R$ 5,00 pela maior parte do dia, o dólar acelerou o ritmo de perdas na reta final dos negócios, com a diminuição da aversão ao risco no exterior, na esteira de declarações mais amenas do presidente dos EUA, Donald Trump, em relação ao Irã.

Com mínima de R$ 4,9960, fechou em baixa de 1,37%, a R$ 4,9985. A moeda norte-americana avança 0,92% em relação ao real em maio, após baixa de 4,36% em abril. No ano, as perdas são de 8,94%.

As cotações do petróleo operaram em alta ao longo do dia, com o vaivém de notícias sobre a guerra no Oriente Médio. O contrato do Brent para julho fechou com avanço de 2,6%, a US$ 112,10 o barril, mas passou a operar em ligeira queda no pregão eletrônico, abaixo do nível de US$ 110 o barril, após aceno de Trump ao Irã.

O republicano cancelou ataques aéreos em solo iraniano programados para a terça-feira, pretextando que há “negociações sérias” em andamento com Teerã, com expectativa de que um acordo “muito aceitável” seja alcançado.

Segundo Trump, lideranças de Catar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita solicitaram aos EUA que protelassem a ofensiva militar para permitir o avanço das tratativas diplomáticas.

“Essa declaração do Trump no fim do dia fez a Bolsa reduzir as perdas e o dólar aumentar o ritmo de queda no fim do pregão. Vamos continuar com essa guerra diplomática entre Irã e Estados Unidos”, afirma o superintendente do Banco Rendimento, Jacques Zylbergeld, acrescentando que, dados os riscos inflacionários decorrentes da alta do petróleo, não há espaço para o Federal Reserve reduzir os juros neste ano, mesmo sob a presidência de Kevin Warsh, indicado ao posto por Trump.

Para Zylbergeld, além do ambiente externo mais benigno para divisas emergentes, investidores parecem já ter digerido os desdobramentos do “Flávio Day 2.0”. Embora as pesquisas de intenção de voto mais recentes ainda não reflitam a revelação dos laços entre Flávio Bolsonaro e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, a percepção é de manutenção do filho do ex-presidente Jair Bolsonaro como principal candidato da oposição, observa.

“Não há espaço para uma terceira via competitiva. O efeito dessa notícia sobre o Flávio e o Master deve se dissipar ao longo do tempo. O mercado deve flutuar mais daqui para frente de olho nas eleições, com notícias que podem surgir para um lado ou para o outro”, afirma Zylbergeld, ressaltando que, dados os juros elevados, é muito difícil “carregar posições” contra o real.

A mediana agregada das estimativas do Boletim Focus para a taxa Selic no fim do ano subiu de 13% para 13,25%, ao passo que a projeção para o IPCA em 2026 teve alta marginal, de 4,91% para 4,92%. A expectativa para a taxa de câmbio em dezembro se manteve em R$ 5,20.

“As expectativas de alta na taxa terminal da Selic divulgada pelo Boletim Focus reforçam a perspectiva de juros brasileiros elevados por mais tempo, o que ajuda a sustentar o real perante seus pares”, afirma o especialista em investimentos Bruno Shahini, da Nomad.

Referência do comportamento da moeda americana em relação a uma cesta de seis moedas fortes, especialmente euro e iene, o índice DXY recuava cerca de 0,30% por volta das 17 horas, ao redor de 98,990 pontos, depois de atingir mínima de 98,971 pontos. Entre as divisas emergentes, destaque para o peso chileno, com ganhos de cerca de 1% frente ao dólar, em um dia de leve alta das cotações internacionais do cobre.

Bolsa

Em linha com a cautela global, a reversão do fluxo estrangeiro impôs mais um dia negativo ao Ibovespa, com os alocadores de recursos em Bolsa tendo voltado, nas últimas semanas, a mostrar preferência pelo setor de tecnologia, em índices como o Nasdaq e o S&P 500, de Nova York, que vêm de máximas históricas, e de emergentes com exposição ao segmento, como o de Seul. Em Nova York, tanto o índice amplo (S&P 500) como o tecnológico (Nasdaq) fizeram nesta segunda-feira, 18, uma pausa, após sucessão de recordes. No fechamento desta segunda-feira, cediam 0,07% e 0,51%, pela ordem.

Por aqui, a referência da B3 conseguiu limitar perdas em direção ao fim da sessão, em baixa de 0,17%, aos 176.975,82 pontos. E distanciou-se da mínima do dia, de 175.811,33 no meio da tarde, encerrando mais perto da máxima (177.329,88), quase correspondente ao nível de abertura, de 177.280,72 pontos. O giro financeiro ficou em R$ 24,2 bilhões nesta segunda-feira. No mês, o Ibovespa cai 5,52% nesta abertura de segunda quinzena, limitando o ganho do ano a 9,84%.

“O movimento dos mercados nesta segunda-feira refletiu a continuidade da aversão a risco observada no fim da semana passada, em um cenário global marcado pela pressão sobre os juros longos, preocupações fiscais em economias como Japão e Estados Unidos, e pela alta do petróleo diante das tensões no Oriente Médio e das incertezas envolvendo o Estreito de Ormuz”, diz Felipe Miranda, economista e ex-CEO da Empiricus, referindo-se à alta dos juros globais, às tensões geopolíticas e a preocupações fiscais decorrentes desse cenário ainda atribulado.

“Esse ambiente reforça o receio de inflação mais persistente e leva o mercado a revisar as expectativas para cortes de juros, tanto no exterior quanto no Brasil, com apostas em flexibilizações monetárias mais limitadas e até discussões sobre novas altas em algumas economias desenvolvidas”, acrescenta. “A tese de que o Brasil seria um dos principais beneficiários da demanda global por commodities, energia e ativos reais perdeu força após uma temporada de resultados corporativos abaixo das expectativas, enquanto o setor de tecnologia voltou a atrair fluxo para mercados desenvolvidos, especialmente nos Estados Unidos.”

Dessa forma, no meio da tarde o Ibovespa renovou mínimas da sessão abaixo de 176 mil pontos, parecendo a caminho de romper a marca de encerramento de 20 de março, encaminhando-se então para o que seria o menor nível final desde 22 de janeiro, a 175 589,35 pontos naquele fechamento – o que foi evitado com a quase garantia dos 177 mil, do meio para o fim do dia. Na ponta perdedora do Ibovespa nesta abertura de semana, CSN Mineração (-9,32%), CSN (-4,21%) e MBRF (-3,50%). No lado oposto, Copasa (+3,48%), Hapvida (+3,05%) e PetroReconcavo (+2,71%).

O petróleo fechou em alta nesta segunda-feira, ainda sustentado por preocupações persistentes com a oferta global diante do impasse nas negociações entre EUA e Irã e das incertezas sobre uma reabertura rápida do Estreito de Ormuz. O mercado também reagiu a declarações do presidente americano, Donald Trump, indicando pouca disposição para concessões a Teerã. Em Nova York, o WTI para junho fechou em alta de 3,33% (US$ 3,36), a US$ 104,38 o barril, e o Brent para o mesmo mês, em Londres, encerrou com ganho de 2,6% (US$ 2,84), a US$ 112,10 por barril.

Mas, depois do fechamento de Londres e Nova York, a decisão de Trump de não levar adiante um ataque ao Irã que o presidente dos EUA afirmou estar programado para a terça-feira resultou em alguma redução na percepção de risco global, para diferentes classes de ativos, inclusive as ações listadas na B3. Apesar da alta de Petrobras (ON +2,66%, na máxima do dia no fechamento; PN +2,13%), o sinal do Ibovespa foi definido por outros papéis de grande peso no índice, como Vale (ON -2,00%) e os do setor financeiro, com Banco do Brasil (ON -1,35%) à frente das perdas

“Como diz o velho ditado de Wall Street, sell in May and go away, venda em maio e se afaste do mercado. E, de fato, maio vem confirmando esse movimento. Temos queda acumulada na Bolsa e valorização do mercado de câmbio ao longo do mês”, no Brasil, aponta Alison Correia, analista e cofundador da Dom Investimentos.

“O mercado passou a enxergar uma desinflação mais lenta, o que reduz o espaço para cortes mais acentuados da Selic ainda este ano”, destaca Igor Monteiro, CEO da EqSeed, referindo-se a fatores como a alta do petróleo e o respectivo efeito nas expectativas de mercado compiladas semanalmente pelo Banco Central no boletim Focus – que trouxe nesta segunda, enfatiza Monteiro, piora na leitura para 2026 em dois pontos-chave: inflação e juros.

Para Eduardo Levy, economista e sócio responsável pela LB Endow Consultoria, os mercados globais voltaram a mostrar, nesta segunda, correlação à geopolítica, com efeito direto para juros de longo prazo nos EUA, com taxas acima de 5%, replicando o que se viu na crise mundial de 2007 e 2008. “Inflação continua subindo, ainda que os resultados de empresas de tecnologia tenham dado alguma ajuda para dar suporte aos índices de ações, em especial nos EUA”, diz.

Juros

Os juros futuros acentuaram o ritmo de baixa rumo ao final do pregão desta segunda-feira, 19, em sincronia com a melhora do humor nos mercados globais, depois de o presidente dos EUA, Donald Trump, ter afirmado que não vai realizar um ataque ao Irã programado para terça-feira, 19. As taxas, que já cediam, praticamente dobraram o ritmo de queda, ao mesmo tempo em que os retornos dos Treasuries e o aumento do petróleo perderam fôlego

Após o estresse da semana passada, quando taxas intermediárias e longas saltaram quase 70 pontos-base, profissionais apontam que a movimentação desta segunda, até o evento do final da tarde, representava uma correção dos prêmios de risco. Igual tendência foi observada no dólar, que recuou 1,37% no dia, para R$ 4,99, o que também deu suporte ao alívio nos contratos de Depósito Interfinanceiro (DI).

A curva a termo, porém, segue com todos os vencimentos ao redor de 14%, em meio à continuidade no bloqueio do estreito de Ormuz. Por aqui, o quadro político segue gerando cautela, após denúncias que revelaram uma relação próxima – que, inclusive, incluiu recebimento de recursos – entre o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro e o banqueiro detido Daniel Vorcaro.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 cedeu de 14,227% no ajuste de sexta-feira para 14,135%. O DI para janeiro de 2029 fechou em mínima intradia de 13,995%, vindo de 14,16% no ajuste anterior. O DI para janeiro de 2031 anotou redução de 14,251% no ajuste a 14,125%.

A primeira sessão da semana começou com alguma tranquilidade nos mercados globais, devido à notícia de que os EUA teriam aceitado suspender sanções petrolíferas ao Irã. Teerã, por sua vez, deseja uma trégua longa em múltiplas fases no conflito e pediu uma abertura gradual e segura para o Estreito de Ormuz, segundo documento do país persa obtido pela agência Al Arabiya.

A aversão ao risco, no entanto, voltou ao radar com falta de confirmação de Washington sobre os avanços nas tratativas e, também, com afirmações mais agressivas de Trump. Já de tarde, o presidente, em seu tradicional estilo “morde e assopra”, disse que há “negociações sérias” em andamento com o Irã e expectativa de que um acordo “muito aceitável” seja alcançado, razão pela qual decidiu suspender um ataque planejado para terça.

Em publicação na Truth Social, o presidente ponderou que instruiu seu gabinete de guerra a permanecer preparado para lançar “um ataque total e em larga escala contra o Irã, a qualquer momento”, caso um “acordo aceitável” não seja alcançado

Segundo um estrategista de uma grande tesouraria, que falou à Broadcast (sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado) sob anonimato, como moedas e juros sofreram bastante na sexta-feira, nesta segunda ocorreu uma devolução com uma “mini perspectiva de melhora” no front da guerra, seguida das declarações de Trump.

“O dia no mercado de juros futuros foi marcado por um movimento de correção técnica”, afirmou Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset. O fechamento da curva devolve parte da alta observada na semana anterior, apontou Costa, que havia sido motivada pela reprecificação do cenário eleitoral de 2026.

No campo dos indicadores, o Índice de Atividade Econômica do Banco Central (IBC-Br), que funciona como um termômetro mensal para o PIB, não fez preço, ao recuar 0,67% entre fevereiro e março, na comparação dessazonalizada. O consenso do mercado apontava redução de 0,3%. Apesar do recuo na passagem mensal, o dado subiu 1,3% entre o quarto trimestre de 2025 e os primeiros três meses de 2026.

Para Matheus Pizzani, economista do PicPay, a expansão observada de janeiro a março

pode gerar uma “impressão equivocada” de que a economia segue tão resiliente quanto em anos anteriores. “A atividade econômica se beneficiou sobremaneira de fatores sazonais nos primeiros meses do ano relacionados ao bom desempenho do setor agropecuário e o maior impulso ao consumo por parte das famílias”, avaliou.

No boletim Focus, a mediana de estimativas para a Selic ao final deste ano subiu de 13% para 13,25% entre a semana passada e atual, enquanto a projeção para o fim de 2027 permaneceu em 11,25%. “Segue válida a percepção de que o Banco Central continuará a cortar a taxa Selic, porém agora em um orçamento total com uma magnitude consideravelmente reduzida”, disse Costa, da Mirae.

Estadão Conteúdo

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