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Economia

Dólar cai a R$ 5,17 após Tesouro do EUA anunciar recompra de títulos; Bolsa sobe

Com mínima de R$ 5,1566, pela manhã, o dólar à vista terminou a sessão em queda de 0,86%, a R$ 5,1766

Redação Jornal de Brasília

19/08/2026 18h23

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

Foto: Marcello Casal Jr./Agência Brasil

São Paulo, 19 – O dólar apresentou queda firme em relação ao real nesta quarta-feira, 19, alinhado à onda de desvalorização global da moeda norte-americana, após o Tesouro dos Estados Unidos anunciar pela manhã que pode até duplicar o volume de recompra de títulos de longo prazo. A perspectiva de injeção de liquidez aliviou o estresse no mercado de renda fixa, que abrangia tanto os EUA quanto a Europa e o Japão, estimulou o apetite por ativos de risco e ofuscou a divulgação da ata do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano), que teve impacto nulo sobre o comportamento do dólar.

Com mínima de R$ 5,1566, pela manhã, o dólar à vista terminou a sessão em queda de 0,86%, a R$ 5,1766 – pela primeira vez abaixo da linha de R$ 5,20 no fechamento após três pregões.

Apesar do refresco nesta quarta, a moeda norte-americana ainda sobe 1,83% na semana, acumulando valorização de 2,09% em agosto, após perdas de 1,79% em julho.

“Com o anúncio da recompra, o Tesouro americano está dizendo subliminarmente que não quer as taxas longas subindo, o que tirou força do dólar. Até o iene está se valorizando hoje”, afirma o diretor da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, lembrando que recentemente houve intervenção combinada de autoridades americanas e japonesas para tentar dar suporte à moeda japonesa.

O real exibiu um dos melhores desempenhos entre as divisas emergentes, recuperando parte das expressivas perdas recentes, atribuídas ao reposicionamento dos investidores estrangeiros, que reduziram a exposição a ativos domésticos por conta da proximidade das eleições presidenciais.

“Essa valorização do real é de curto prazo. Não acredito em apreciação do câmbio até a definição das eleições. Se Lula for reeleito, o dólar deve subir. Mas pode haver uma recuperação depois, em caso de anúncio de um ajuste fiscal”, observa Weigt, acrescentando que uma vitória de um candidato da direita pode levar a uma apreciação expressiva do real.

Para os analistas Norman Liebke e Michael Pfister, do Commerzbank, o real deve seguir sob pressão até as eleições de outubro, o que levaria a taxa de câmbio para R$ 5,30, mas tende a se apreciar nos últimos dois meses do ano, amparado pela política monetária conservadora do Banco Central.

A expectativa é de apenas um corte adicional da taxa Selic em 2026, para 13,75%, o que mantém o juro real perto de 10%. “A taxa de câmbio deve estar em R$ 5,20, com a diminuição dos riscos políticos, e em R$ 4,80 no fim de 2027”, afirmam os analistas.

Termômetro do comportamento do dólar em relação a uma cesta de seis moedas fortes, o índice DXY recuava 0,87% no fim da tarde, para os 98,793 pontos, perto da mínima, de 98,770 pontos. As taxas dos Treasuries de 10 e 30 anos cederam, ao passo que o retorno do papel de dois anos, mais ligado às expectativas para os próximos passos do Fed, operou com viés de alta.

Na avaliação do economista Leonardo Costa, do ASA, a ata do encontro de política monetária do Fed em julho, quando três dirigentes votaram por uma alta da taxa básica americana, revela que a instituição segue preocupada com a inflação, em modo vigilante, mas que não há consenso para um aumento imediato dos juros.

“O Comitê continua majoritariamente em modo de espera, mas com uma ala ‘hawkish’ ainda significativa e pronta para defender novas altas”, afirma Costa, ressaltando que o documento reflete avaliação anterior aos dados benignos de inflação da semana passada e não traz detalhes sobre os dissidentes no encontro do Fed de julho.

Bolsa

Acompanhando outros ativos de risco, o Ibovespa interrompeu nesta quarta-feira a maior sequência de quedas em três anos, pautado pelo aumento do fluxo global após a decisão do Tesouro dos Estados Unidos de realizar pelo menos o dobro de recompras de títulos.

O anúncio aumenta a procura por títulos norte-americanos, puxando os preços para cima e as taxas para baixo. Isso estimula, em outra ponta, os investidores globais a procurar outros mercados de maior risco, caso dos emergentes.

No fim do dia, o Ibovespa se afastou das máximas na faixa dos 170 mil pontos, mas manteve o ritmo positivo, carregado pelas blue chips.

As ações mais líquidas da bolsa, como Petrobras, Vale e o setor bancário, fecharam com altas, impulsionando o índice aos 167 830,27 pontos, avanço de 0,90%, em dia de giro relativamente mais contido, ao redor de R$ 18 bilhões.

“Quando você tem um anúncio como o do Tesouro da maior economia do mundo, onde os títulos estavam garantindo uma rentabilidade acima da média dos últimos anos, isso faz o capital migrar, principalmente para os emergentes”, afirma Daniel Teles, sócio da Valor Investimentos. O EEM, maior ETF ligado a ações emergentes, subiu 1,16% no dia.

Gustavo Bertotti, head de renda variável da Fami Capital, afirma que a alta do dia está longe de representar uma reversão de tendência. Segundo ele, a continuidade do ambiente geopolítico desfavorável à tomada de risco, com os conflitos inacabados entre EUA e Irã no Oriente Médio, seguem determinantes para o fluxo estrangeiro para mercados mais arriscados.

A renda variável brasileira também continua sujeita ao futuro da política monetária e das decisões econômicas a partir do ano que vem no Brasil, após as eleições. Os especialistas ponderam que o cenário macro segue se deteriorando, com desancoragem das expectativas de inflação, preocupações com a agenda fiscal e com a trajetória de juros.

Taxas de juros

Ainda que sem reação expressiva à ata da última reunião do Federal Reserve, o mercado local de juros futuros foi totalmente pautado pela movimentação no exterior nesta quarta-feira. As taxas queimaram prêmios em bloco, com destaque para os vencimentos mais distantes, em reação à decisão do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos de ao menos dobrar as recompras de papéis soberanos de longo prazo, após o estresse observado nestes vértices.

Encerrados os negócios, a taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 cedeu de 13,749%, no ajuste anterior, a mínima intradia de 13,72%. O DI para janeiro de 2029 terminou negociado a 14,195%, vindo de 14,336% no ajuste O DI para janeiro de 2031 anotou baixa a 14,5%, de 14,643%.

Por volta das 18 horas, o retorno da T-note de dez anos diminuía de 4,710% a 4,646%, ao passo que a do T-bond de 30 anos tinha redução a 5,192%, de 5,284%.

O documento que detalhou a última decisão do Comitê de Mercado Aberto (FOMC, na sigla em inglês) do Fed, de manter a taxa de juros, ganhou relevância no momento atual, uma vez que três dos 12 dirigentes do banco central norte-americano votaram a favor de um aumento imediato de 0,25 ponto porcentual dos Fed Funds em julho.

O texto destaca que “vários” participantes eram favoráveis a uma elevação – o que implica que pelo menos dois dos cinco presidentes regionais do Fed que não votam teriam apoiado uma alta também, observa a Capital Economics em relatório. Mesmo assim, os rendimentos dos Treasuries seguiram mostrando alívio.

“A ata confirmou que o comitê responsável por definir os juros ficou mais inclinado a um aperto monetário desde a reunião de junho. Mas, como os dados de inflação, mercado de trabalho e atividade desde então vieram todos do lado mais fraco, há pouco a sugerir que aumentos de juros sejam iminentes”, avaliou Ariane Curtis, economista sênior para América do Norte da consultoria britânica.

Para Marianna Costa, economista-chefe da Mirae Asset, o efeito da ata sobre os preços não foi grande, tanto aqui quanto nos EUA Ela ressalta que praticamente não houve mudança nas apostas do mercado para o encontro de setembro do FOMC.

Segundo ferramenta de acompanhamento do CME Group, a expectativa mais ampla, com cerca de 65% das apostas, é que a taxa se mantenha inalterada novamente.

“Isso é interessante, porque logo após a reunião do Fed, a probabilidade de alta era bem grande”, disse. “O que queríamos saber era como os três dissidentes votam na próxima reunião, e se parte maior do colegiado votaria junto com eles”, comentou.

De qualquer forma, a economista diz que, na ausência de gatilhos domésticos, o maior indutor da queda das taxas futuras nesta quarta foi a medida do Tesouro dos EUA para dar suporte às taxas longas após a disparada recente, em que o rendimento dos papéis de 30 anos alcançou os maiores patamares desde 2007.

Em sua visão, embora as taxas dos títulos dos EUA tenham recuado de forma pronunciada nesta quarta, a recompra maior pelo Tesouro não vai resolver o problema. “O alto endividamento público e a continuidade do conflito no Oriente Médio ainda permanecem, o que faz com que os investidores tenham preferência por um duration mais curto”, explicou.

Os contratos futuros de petróleo fecharam em ligeiro avanço nesta quarta, na medida em que o ceticismo do mercado sobre a possibilidade de um acordo entre EUA e Irã aumenta. Referência para a Petrobras, o barril do Brent para outubro subiu 0,66%, para US$ 91,62.

Estadão Conteúdo

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