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Economia

Dólar cai a R$ 5,10 com tom do Copom e alta do petróleo; Bolsa recua abaixo dos 176 mil pontos

Operadores afirmam que a moeda brasileira pode ter sido beneficiada por um movimento de correção

Redação Jornal de Brasília

06/08/2026 18h22

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

Foto: Valter Campanato/Agência Brasil

São Paulo, 06 – Após encerrar o pregão da quarta-feira praticamente estável, o dólar exibiu queda firme nesta quinta-feira, 6, na contramão do sinal predominante de alta da moeda norte-americana no exterior, embora outras divisas latino-americanas, em especial o peso colombiano, também tenham ganhado terreno.

Operadores afirmam que a moeda brasileira pode ter sido beneficiada por um movimento de correção, com investidores desfazendo posições defensivas montadas antes da reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), que reduziu na quarta, como esperado, a taxa Selic de 14,25% para 14%.

Os ganhos de mais de 3% do petróleo diante do aumento das tensões no Oriente Médio, com o barril do Brent voltando a superar US$ 80, também podem ter favorecido o real, via melhora dos termos de troca.

Em baixa desde o início dos negócios e com mínima de R$ 5,0906, o dólar à vista fechou em queda de 0,41%, a R$ 5,1073, mas ainda acumula valorização de 0,73% nos quatro primeiros pregões de agosto, após recuo de 1,79% em julho. No ano, as perdas são de 6,95%.

Para o superintendente de câmbio do Banco Rendimento, Jacques Zylbergeld, o tom mais firme do Copom na quarta abriu espaço para o dólar devolver um pouco da alta vista no início da semana, quando o real foi abalado pelo aumento de ruídos políticos, como a escalada dos atritos diplomáticos entre Brasil e Estados Unidos.

“Olhando para dados recentes, como a produção industrial, o mercado já estava precificando que o Copom daria um sinal de extensão do ciclo de cortes. O BC não fechou as portas para nova redução de 0,25 ponto, mas o tom do comunicado é mais para pausa do que para queda”, afirma Jacques Zylbergeld.

O economista-chefe para América Latina da consultoria Pantheon Macroeconomics, Andrés Abadia, ainda espera novo corte da taxa Selic em 0,25 ponto porcentual em setembro, mas pondera que a “crescente incerteza política sugere cautela, pois pode manter as expectativas de inflação elevadas e limitar o espaço para alívio adicional nos juros”.

Para Abadia, os termos de troca favoráveis e o apelo do carry trade, mesmo com redução da Selic, continuam a dar sustentação ao real. É improvável contudo, que haja um movimento sustentado de apreciação da moeda, observa. “A taxa de câmbio deve permanecer em uma faixa entre R$ 5,05 e R$ 5,25 até as eleições”, afirma.

Lá fora, o dólar ganhou força em relação a moedas fortes, com o índice DXY voltando a superar a marca dos 100,000 pontos na máxima da sessão, aos 100,020 pontos. As taxas dos Treasuries também avançaram em bloco com a alta do petróleo e a informação do Financial Times de que o presidente do Federal Reserve, Kevin Warsh, estaria inclinado a votar por alta dos juros em setembro caso as próximas leituras de inflação surpreendam para cima.

O superintendente de câmbio do Banco Rendimento ressalta que, mesmo em um cenário que combine alta de juros nos EUA em setembro com nova redução da taxa Selic, o diferencial entre juros internos e externos permanecerá bem elevado, mantendo a atratividade das operações de carry trade. Apesar do provável aumento da volatilidade por conta do noticiário político, Zylbergeld não trabalha com uma alta expressiva do dólar.

“Em um momento de maior estresse, o câmbio pode ir para cerca de R$ 5,20. O carry e o fluxo ainda são muito favoráveis. De outro lado, já vimos que o dólar não consegue se manter abaixo de R$ 5,00”, afirma Zylbergeld, ressaltando que, na ótica do investidor estrangeiro, não há preocupação com a eventual reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Bolsa

Depois de se sustentar no começo do dia na faixa dos 177 mil pontos, o Ibovespa encerrou o pregão desta quinta-feira perto das mínimas, em 175 mil pontos. O índice operou pressionado principalmente pelos riscos de um juro mais alto por mais tempo nas economias globais, como resultado do fortalecimento da inflação na esteira da alta do petróleo.

No fim do pregão, o Ibovespa caiu 1,23%, aos 175.546,36, perto da mínima de 175.514,86. Na máxima do dia, o principal índice da B3 foi aos 177.720,00 pontos.

O avanço do petróleo vem como resultado do aumento da tensão geopolítica na região do estreito de Ormuz, que continua afetando o humor global. Luiz Mendes, chefe de alocação da Angatu Private, afirma que o mercado segue influenciado pelo tema mesmo com sinais de avanços no curto prazo diante do risco de novas interrupções na cadeia de fornecimento global e novas escaladas nas hostilidades. “O mercado está olhando para a dinâmica que está ocorrendo há meses, de olho na opcionalidade de acabar o conflito no local”, afirma.

Nicolas Gass, chefe de alocação de investimentos e sócio da GT Capital, reforça o diagnóstico ao apontar que o Brent voltou a representar um prêmio de risco, um vetor que melhora a sustentação do setor de petróleo na B3, mas não necessariamente reduz a cautela do restante do mercado. O petróleo Brent para outubro, negociado na Intercontinental Exchange de Londres (ICE), encerrou em alta de 3,83% (US$ 3,04), a US$ 82,49 o barril.

O movimento da bolsa também aconteceu um dia depois do Copom decidir cortar a Selic em 0,25 ponto porcentual, sinalizando algum espaço para novas reduções, mas deixando o mercado dividido em relação ao futuro do ciclo de calibração.

Segundo operadores, o mercado interpretou o comunicado como mais duro e, com isso, reavaliou o espaço para cortes mais rápidos daqui para frente. A consequência para as ações é um ambiente menos favorável para tomada de risco, principalmente em companhias que dependem mais de financiamento e de demanda doméstica.

Na ponta corporativa, o pregão foi de dispersão, com poucas altas relevantes e quedas mais disseminadas entre setores. Do lado negativo, SmartFit foi a maior queda no dia, em baixa de mais de 7%, após o resultado do segundo trimestre mal digerido pelo mercado. Mendes, da Angatu, destaca o nível de investimentos realizado pela empresa, considerado elevado e que prejudicou o resultado, embora seja um aspecto favorável em termos de fundamentos de longo prazo, na sua visão.

Para Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, os investidores ficaram em compasso de espera pela divulgação do balanço de Petrobras, prevista para após o fechamento do mercado, enquanto no exterior o mercado adota postura defensiva antes do payroll – o relatório de emprego e desemprego – nos Estados Unidos. A divulgação é relevante por ser capaz de mexer com expectativas de juros e, por tabela, com o apetite por risco

Taxas de juros

Os relatos de explosão no Estreito de Ormuz reacenderam preocupações firmes com a inflação energética mundial e embutiram mais prêmio de risco na curva de juros no período da tarde desta quinta-feira, com as taxas intermediárias e longas subindo mais de 10 pontos-base. O movimento dá sequência à abertura da curva desde cedo, na esteira de ajustes após o Copom ter deixado claro que o balanço de riscos está assimétrico, mas sem fechar as portas para novos cortes da taxa Selic.

A curva precifica um corte de 17 pontos-base na Selic em setembro, o que configura visão majoritária de corte de 0,25 ponto porcentual, mas ainda há apostas de manutenção da taxa em 14%. O leilão do Tesouro, considerado expressivo em período de hiato de dealerança (em que os dealers do Tesouro não têm metas a cumprir), também contribuiu para a abertura e a inclinação da curva.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2027 encerrou em 13,77%, de 13,755% do ajuste de quarta-feira, a para janeiro de 2029 subiu de 14,009% para 14,12% e a para janeiro de 2031 avançou de 14,193% para 14,33%.

Os juros futuros renovaram sucessivas máximas no período da tarde, a partir da piora do quadro geopolítico. Houve relatos de que os termos do acordo entre EUA e Omã envolvendo a reabertura do Estreito de Ormuz proíbem a navegação de navios dos EUA, Israel e “países hostis”. No pico da sessão, o petróleo subiu mais de 5% no pregão eletrônico após a Tasnim reportar que houve duas explosões na ilha Qeshm, no Irã, decorrente de disparos contra alvos inimigos na entrada da principal rota do petróleo.

O sócio João Ferreira, da One, avalia que os investidores estão observando muito atentamente o mercado de juros lá fora, que acentuou alta a tarde a partir do aumento de risco geopolítico. Os rendimentos dos Treasuries subiram desde cedo com a notícia do Financial Times de que o presidente do Federal Reserve (Fed), Kevin Warsh, está preparado para aumentar as taxas de juros na reunião de setembro se as leituras de inflação divulgadas nas próximas semanas forem altas e os mercados subirem expectativas pra os custos de empréstimos.

O quadro externo mais negativo, ajustes pós-Copom e a expectativa do Tesouro de aproveitar janelas favoráveis para emitir mais títulos prefixados acabaram contribuindo para a inclinação da curva nesta quinta-feira, resume o chefe de Estratégia Macro e Dívida Pública, Luis Felipe Vital. “O Tesouro fez uma oferta muito próxima da média do ano, mesmo com o hiato de dealerança.”

O estrategista-chefe da Sincra, Gustavo Cruz, considera que os riscos de inflação mais alta apontados pelo Copom no comunicado puxaram a percepção de que o comunicado foi mais hawkish, o que impulsionou a curva de juros a partir dos vértices intermediários e longos.

A falta de sinalização sobre o que acontecerá na reunião de setembro impõe cautela e o reflexo disso é abertura da curva de juros, acrescenta Luise Coutinho, Head de Produtos e Alocação da HCI Advisors.

Na sexta, o mercado monitora o relatório do mercado de trabalho norte-americano, conhecido como payroll, que será divulgado às 9h30. O Projeções Broadcast estima criação de 63 mil a 130 mil empregos em julho, com mediana de 80 mil.

Estadão Conteúdo

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