O dólar à vista caiu 0,83%, a R$ 4,8639, o menor nível desde 20 de novembro (R$ 4,8517). O movimento acompanhou a desvalorização global da moeda americana, ainda pressionada pela expectativa de cortes de juros nos Estados Unidos. O andamento da agenda do governo no Congresso, a elevação do rating do Brasil pela S&P e a ata do Copom de dezembro, que descartou a possibilidade de acelerar os cortes da Selic, também apoiaram o real.
A divisa americana passou todo o dia em queda ante a brasileira, desde a máxima de R$ 4,8979 (-0,14%) vista logo após a abertura. À tarde, desceu pontualmente à mínima de R$ 4,8627 (-1,06%), na sequência do upgrade pela S&P, mas rapidamente moderou as perdas No fim do dia, perdia menos ante o real do que na comparação com outras moedas emergentes e exportadoras de commodities, como o rand sul-africano (-1,42%) e o peso chileno (-1,12%).
O economista-chefe da Nova Futura Investimentos, Nicolas Borsoi, afirma que a elevação do rating já era precificada pelo mercado e, por isso, teve impacto limitado nos preços de ativos hoje. Com a mudança do rating, de BB- para BB, a S&P apenas igualou a sua nota à das duas grandes outras agências de classificação, Moody’s e Fitch. Todas elas, agora, situam o Brasil dois níveis abaixo do grau de investimento.
“Acho que o mercado já precificava uma melhora do rating brasileiro, porque o CDS Credit Default Swap brasileiro está em níveis muito baixos, mais condizentes com ratings melhores”, afirma Borsoi, lembrando que o CDS de cinco anos hoje era negociado a 136,82 pontos, de 254,27 pontos no início do ano. “Se tiver uma revisão negativa das notas, aí, sim, afetaria o mercado.”
Para o diretor de produtos de câmbio da Venice Investimentos, André Rolha, três principais fatores explicam a queda do dólar ante o real: a perspectiva de redução dos juros nos Estados Unidos a partir de março ou maio, o compromisso do BC brasileiro de não acelerar o ritmo de cortes dos juros e o andamento das pautas do governo no Congresso, inclusive com a aprovação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LDO) hoje.
“O andamento das reformas no Congresso gera otimismo do investidor estrangeiro; temos um aumento do apetite global por risco, devido à perspectiva de uma política monetária mais frouxa nos Estados Unidos; e a perspectiva de que a taxa Selic não vai ser cortada tão rápido também mantém o nosso carry atrativo e ajuda a sustentar o real”, diz Rolha, para quem as quedas recentes abrem espaço para a moeda testar um novo suporte, na linha de R$ 4,75.
Ibovespa
O Ibovespa atingiu ainda pela manhã o inédito nível intradia de 132 mil pontos e voltou a ganhar dinamismo à tarde, após a agência de classificação de risco de crédito S&P ter elevado o rating de escala de longo prazo do Brasil para “BB”, com perspectiva estável.
No fechamento – em máxima histórica pela terceira vez nas últimas quatro sessões, duas delas consecutivas -, o índice mostrava alta de 0,59%, aos 131.850,90 pontos, tendo chegado no melhor momento do dia aos 132.046,93 pontos, saindo de mínima a 131.085,81 e de abertura a 131.087,68 pontos na sessão, com giro a R$ 20,6 bilhões. Na semana, o Ibovespa sobe 1,27% e, no mês, avança 3,55%. No ano, ganha 20,15%.
“Por volta de 15h30 quando veio a notícia da S&P, houve forte ingresso de fluxo que reaproximou o índice das máximas. O principal ETF associado a Brasil em Nova York subia em torno de 1,3%. E o dólar foi negociado em baixa perto de 1%, a R$ 4,86. Segue o otimismo em torno da redução de juros e o apetite por ativos de risco”, diz Thiago Lourenço, operador de renda variável da Manchester Investimentos.
“Esta semana é decisiva para que o mercado atinja novos níveis de preço, considerando que o fluxo deve cair muito a partir da próxima semana com a chegada do fim do ano”, acrescenta Lourenço Neste fechamento de 2023, o mercado tem mostrado “força compradora”, observa o operador, que vê espaço para que o Ibovespa teste o nível de 135 mil pontos no que falta para o fim do ano. “Tivemos uma alta bem distribuída pelos ativos da Bolsa hoje, à exceção de poucos papéis. A grande maioria das ações subiu, sejam as de maior liquidez, sejam as small caps ações de menor capitalização de mercado.”
Na ponta ganhadora do Ibovespa nesta terça-feira, destaque para Braskem (+7,15%), Dexco (+3,97%) e Raízen (+3,37%), com Embraer (-2,74%), Pão de Açúcar (-2,70%) e Petz (-2,59%) na fila oposta. Entre as ações de maior liquidez, Petrobras (ON +0,66%; PN +1,14%, na máxima do dia no fechamento) e Vale (ON +0,70%) subiram e, entre os grandes bancos, apenas Bradesco PN (sem variação) não avançou na sessão.
A S&P Global Ratings justificou a perspectiva estável para a nota BB do Brasil citando a expectativa de “progresso lento” na gestão dos desequilíbrios fiscais e a perspectiva fraca para o crescimento econômico. A agência, por outro lado, ressaltou que esses pontos negativos são contrabalançados por posição externa forte e pelo efeito da política monetária na ancoragem das expectativas de inflação.
No comunicado, a instituição acrescentou que a arquitetura institucional da maior economia da América Latina deve sustentar uma postura pragmática na formulação de políticas macroeconômicas. “Esperamos uma correção fiscal muito gradual, mas antecipamos que os déficits fiscais irão permanecer elevados”, ressalta.
A agência de rating apontou também que pode elevar a nota brasileira outra vez nos próximos dois anos, caso as reformas fiscais sustentem o crescimento de longo prazo nacional. A S&P avalia que um progresso mais rápido do que o esperado na solução de “desequilíbrios fiscais”, somado a uma estabilização do nível da dívida, também pode resultar em aumento da nota.
Com a elevação do rating da S&P nesta tarde, o Brasil está agora, em todas as principais agências de classificação de risco de crédito, a dois degraus do chamado grau de investimento – na Moody’s, o rating está em Ba2 e na Fitch, em BB.
Para o Goldman Sachs, o Brasil ainda tem longo caminho a percorrer – e reformas a fazer – se quiser recuperar o grau de investimento, ou seja, o selo de bom pagador, reporta o jornalista Cícero Cotrim, do Broadcast. “Fora a política monetária, o atual mix macro e microeconômico e a perspectiva de reformas ainda estão abaixo do padrão do grau de investimento”, afirma em relatório o diretor de pesquisa macroeconômica para América Latina do Goldman Sachs, Alberto Ramos.
Destaque da agenda doméstica pela manhã, a ata do Copom veio em sentido semelhante ao do comunicado da decisão de política monetária da semana passada, sem alterar a perspectiva de que a Selic continuará a ser cortada ao ritmo de meio ponto porcentual nas próximas reuniões.
“Quando a gente olha para o DI, a curva de juros abriu um pouquinho de manhã, principalmente no miolo, com uma ata do Copom que pode ainda ser considerada hawkish”, diz João Vitor Freitas, analista da Toro Investimentos. Ele acrescenta que, na ata, o Copom deu uma “esfriada” na expectativa da parcela do mercado que apostava em sinal mais suave do que o do comunicado, ante a guinada de tom, mais moderado, observada na última reunião do Federal Reserve.
Juros
Os juros futuros fecharam a sessão com queda nos vencimentos longos e estáveis no trecho curto. A decisão da S&P de elevar o rating do Brasil anunciada esta tarde tirou o mercado do marasmo que prevaleceu ao longo da terça-feira, mesmo num dia de divulgação da ata do Copom, considerada neutra em relação ao comunicado da semana passada.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2025 encerrou em 10,060%, de 10,057% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2026 fechou a 9,62%, de 9,65% ontem no ajuste O DI para janeiro de 2027 terminou com taxa em 9,72% (9,76% ontem no ajuste) e a do DI para janeiro de 2029 passou de 10,20% para 10,14%.
O rating de escala de longo prazo do Brasil passou de BB- para BB, com manutenção da perspectiva estável. A melhora foi motivada pela aprovação da reforma tributária, que marca um progresso na questão fiscal nacional, segundo agência.
A reação imediata a anúncio à tarde foi discreta, mas encorpou até o fechamento. A percepção é que, com a alteração, a nota do Brasil pela S&P se equiparou às das demais agências e que os ativos já preficificavam algo do tipo. Ainda, há leitura de que a retomada do investment grade ainda tem um longo caminho a percorrer.
O economista-chefe da Nova Futura Investimentos, Nicolas Borsoi, afirma por exemplo que contratos de Credit Swap Default (CDS) do País já estavam “numa situação de quase investment grade”, rodando nesta tarde com 136,2 pontos, ante 254 no começo do ano, no contrato de 5 anos.
Já Alexsandro Nishimura, economista e sócio da Nomos, destaca que a elevação era esperada, “mas é sempre uma notícia positiva e que reflete uma nota mais condizente com o quadro brasileiro”. “A S&P ainda deixou em aberto a possibilidade de nova melhora na nota caso as reformas ampliem o crescimento de longo prazo do país”, afirma.
A S&P admitiu que pode elevar o rating outra vez nos próximos dois anos caso as reformas fiscais sustentem o crescimento de longo prazo. Afirma que um progresso mais rápido do que o esperado na solução de “desequilíbrios fiscais”, somado a uma estabilização do nível da dívida, também pode acarretar em um aumento do rating.
Até a S&P, as taxas longas oscilavam perto dos ajustes. Chegaram a ensaiar queda pela manhã, acompanhando com certa distância a baixa dos yields dos Treasuries, mas quando os rendimentos dos títulos dos EUA desaceleraram o ritmo, as taxas por aqui voltaram a ficar de lado.
No trecho curto, a ata trouxe rigidez para as taxas. Os dirigentes reafirmaram o forward guidance de queda de 0,50 ponto porcentual da Selic nas “próximas reuniões”, decepcionando quem contava com algum indicativo de aumento na dose para 0,75 ponto. O documento chamou a atenção para a desancoragem das expectativas de inflação, considerada um fator de preocupação, e apontou que embora tenha havido um progresso desinflacionário “relevante”, ainda há um longo caminho para a ancoragem e o retorno da inflação à meta.
O economista-chefe do Banco Fibra, Marco Maciel, disse que a ata não trouxe novidades quanto ao conservadorismo na redução da Selic em 50 pontos nas próximas reuniões e reforçou o cuidado não só com a trajetória da Selic ao longo de 2024, mas também com a taxa terminal no fim do ano que vem. “Isso significa, de acordo com as nossas simulações para um cenário mais conservador de juros, que a postura mais cautelosa do Copom levaria a Selic para 10%, razoavelmente acima da taxa terminal de 9,0% contida em nosso cenário básico.
Estadão Conteúdo