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Economia

Dólar cai 2% na última sessão do ano, mas sobe 7,4% em 2021

Ante emergentes, o movimento piorou no segundo semestre diante de dados de que a recuperação global será pior que o esperado no ano que vem

Agência Estado

30/12/2021 19h23

Foto: Reprodução

Em um ano coroado por preocupações em relação a novas cepas da covid-19 globalmente e, aqui, por incertezas fiscais, econômicas, políticas e, principalmente sobre a condução e intensidade da política monetária em um momento de inflação ascendente, o dólar avançou sobre o real. Mesmo com uma queda contundente, de 2,06%, na última sessão do ano, levando a moeda a R$ 5,5759 nesta quinta-feira, no acumulado de 2021 a divisa americana saltou 7,46% sobre a moeda brasileira. Há um ano, 2020 terminava com o dólar a R$ 5,1887.

“Desde o início da pandemia você tem elevação do dólar, 2021 foi uma sequência dos riscos globais de 2020. Teve movimento de todo o mundo procurando portfólios mais defensivos, isso significa que a moeda americana teve grande procura global, assim como ouro e algumas criptomoedas”, destaca Rodrigo Franchini, sócio da Monte Bravo Investimentos.

Ante emergentes, o movimento piorou no segundo semestre diante de dados de que a recuperação global será pior que o esperado no ano que vem. Isso, num cenário de países desenvolvidos com juros mais altos e com os Estados Unidos retirando estímulos monetários da economia, o que enxuga a liquidez global, afasta interesse e fluxo dos investidores em países como o Brasil.

No dia, após subir quase 1% ontem, o câmbio encontrou espaço hoje para não só devolver a alta do dólar, mas reverter o quadro para o mês e garantir uma valorização do real em dezembro. No mês, o dólar caiu 1,06% frente a divisa brasileira.

Num dia de alívio geral para os ativos domésticos, dados fiscais brasileiros divulgados ontem e hoje, que mostram uma surpresa positiva na arrecadação federal retiraram um pouco do mau humor interno. E, lá fora, dados melhores nos Estados Unidos diminuíram a aversão a risco. Com um fluxo melhor de investidores para os ativos de risco doméstico, o que sustentou uma alta de 0,7% na bolsa, o dólar cedeu.

“Em temos de indicadores, tivemos divulgação de dados fiscais ontem (Governo central) e hoje (setor público consolidado), que foram positivos. Ontem a moeda brasileira teve um desempenho ruim, hoje está tirando um pouco”, aponta Felipe Sichel, estrategista da Moldamais.

Hoje, o Banco Central mostrou que o setor público consolidado, que inclui governo central, estados, municípios e estatais, teve um superávit de R$ 15,03 bilhões em novembro, melhor resultado desde 2013. Em 12 meses, o resultado é positivo em R$ 12,76 bilhões, o melhor desde outubro de 2014.

Favorece o cenário local ainda a boa percepção dos investidores em relação ao novo marco cambial. A lei permite, entre outras coisas, a abertura de conta em dólar no Brasil por um investidor estrangeiro, a compra e venda de moeda estrangeira por agentes que não apenas bancos e corretoras e a facilitação de remessa do exterior para uma instituição brasileira que tenha um correspondente bancário fora do País.

Assim, o real conseguiu um alívio, inclusive, superior aos pares emergentes, depois de semanas pressionado. Lá fora, a divisa cai ante o peso mexicano e opera próxima da estabilidade, mas com viés de alta, ante o rand sul africano e os pesos argentino e chileno. Aqui, a moeda terminou o dia bem distante da máxima intradia, pela manhã, quando chegou a tocar os R$ 5,7044. Na mínima, a moeda americana operou na casa dos R$ 5,54.

“O real já está pressionado há muito tempo, você já tinha um preço além do movimento normal, pelo risco. Qualquer movimento vindo lá de fora que melhorasse um pouco a percepção de risco, traz melhora forte. Moeda muito estressada acaba tendo muito fluxo e muita volatilidade”, afirma Franchini, da Monte Bravo.

Para o ano que vem, o cenário para o câmbio não é animador. Com a retirada efetiva dos estímulos americanos e as altas de juros prometidas, que devem ser seguidas por outros países desenvolvidos, o fluxo a emergentes deve ficar prejudicado. No Brasil, o cenário se agrava pelas incertezas eleitorais, que devem garantir um câmbio volátil e com tendência de alta.

Taxas caem na última sessão de 2021, mas ano é marcado por forte pressão na curva

Os juros futuros terminaram 2021 em baixa ante os ajustes anteriores, com a queda do dólar e dos yields dos Treasuries dando suporte ao movimento, influenciado ainda por fatores técnicos relacionados a ajustes de carteiras típicos do fim do ano. As preocupações com os protestos dos servidores por aumentos salariais seguem no radar, mas não conseguiram exercer pressão como ontem, com o mercado preferindo olhar para mais números positivos das contas públicas. O superávit do setor público consolidado de novembro veio muito acima do esperado. O alívio de prêmios nesta quinta-feira contrasta com o que prevaleceu na curva ao longo do ano, marcado por forte pressão de alta nos principais vencimentos em função do ciclo de aperto monetário e do afrouxamento da disciplina fiscal do governo.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 fechou em 11,795% (regular) e 11,775 (estendida), de 11,821% ontem no ajuste, e a do DI para janeiro de 2025 caiu de 10,692% para 10,60% (regular e estendida). O DI para janeiro de 2027 encerrou com taxas de 10,61% (regular) e 11,57% (estendida), de 10,591% ontem.

“Hoje temos basicamente a puxada do dólar para baixo para explicar o DI, além dos aspectos fiscais mais positivos”, resumiu o economista-chefe da Infinity Asset, Jason Vieira, que lembra ainda que em fim de mês, de trimestre, e de ano, “o que não falta hoje é ‘fim’ para puxar ajustes de posições dos fundos”.

Se ontem a moeda americana, ao se aproximar dos R$ 5,70, levou consigo os DIs, hoje era dia de devolver. O dólar passou boa parte da sessão abaixo dos R$ 5,60 para fechar em R$ 5,5759, queda de 2,06%. Os retornos dos Treasuries, do mesmo modo, estiveram sob controle, com a taxa da T-Note de dez anos rodando à tarde abaixo de 1,52%, de 1,55% ontem.

Ainda que a perspectiva de um ano fiscal difícil em 2022 esteja mantida, os números divulgados desde ontem acabaram servindo de argumento para estancar a correção de alta da curva. Segundo o Banco Central, o superávit primário do setor público ficou em R$ 15,034 bilhões em novembro, superando em larga margem o teto das estimativas coletadas pelo Projeções Broadcast, de R$ 9,50 bilhões, no melhor resultado para o mês desde 2013.

“Diante da continuidade de surpresas fiscais no curto prazo, com resultados primários mais positivos do que o esperado, a perspectiva para os próximos meses tem viés de melhora”, avaliam as economistas Juliana Damasceno e Luíza Benamor, no serviço on line da Tendências Consultoria. No entanto, acrescentam que o elevado serviço da dívida representa uma ameaça para a sustentabilidade fiscal, dadas as pressões altistas da conta de juros, que exigem superávits primários mais elevados para aliviar o resultado nominal.

O fechamento das taxas hoje, última sessão de 2021, vai na contramão da tendência de alta que predominou ao longo do ano, com as pressões inflacionárias vindas sobretudo dos choques de oferta nas cadeias produtivas e da crise hídrica deteriorando as expectativas de inflação dos agentes. Não por acaso a Selic começou o ano em 2% e termina em 9,25%, na tentativa do Banco Central de estancar esse processo.

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