FOLHAPRESS
O dólar está em alta nesta quarta-feira (29), com mercado à espera das decisões de juros dos Estados Unidos e do Brasil.
A definição pelo Fed (Federal Reserve, banco central norte-americano) é aguardada para às 15h, no horário de Brasília, seguida por uma entrevista coletiva com o presidente da autoridade monetária, Jerome Powell -a última dele à frente do cargo.
Já o Copom (Comitê de Política Monetária) publicará o novo patamar da taxa Selic às 18h30, após o fechamento dos mercados.
Às 13h04, a moeda norte-americana tinha alta de 0,36%, cotada a R$ 4,999. Já a Bolsa tinha perdas de 1,41%, a 185.952 pontos, sob pressão da Vale. O impasse nas negociações no Oriente Médio também norteia os investidores.
O mercado não antevê grandes surpresas nesta “superquarta”, como é apelidada a data em que os bancos centrais do Brasil e dos Estados Unidos decidem sobre juros. A expectativa é que o debate sobre as consequências econômicas da guerra no Oriente Médio, em especial sobre a inflação, se torne o ponto central das decisões.
Por lá, o consenso aponta para uma manutenção da taxa de juros na banda de 3,5% e 3,75% ao ano, mesmo nível desde dezembro.
Com os preços do petróleo em alta vertiginosa desde o início do conflito, autoridades do Fed já expressaram preocupação com a possibilidade do choque se traduzir em uma inflação mais alta nos próximos meses. Isso levaria à manutenção dos juros por mais tempo -ou, no cenário mais extremo, à retomada do ciclo de aperto monetário.
As negociações estagnadas e o contínuo bloqueio do Estreito de Hormuz, via marítima responsável por um quinto do transporte global de petróleo, pressionaram o preço do barril para novamente acima de US$ 110. Antes da campanha de bombardeio israelense-americana contra o Irã, a cotação era de cerca de US$ 70.
O repasse já atinge o bolso de consumidores norte-americanos, que viram a gasolina subir para a média de US$ 4 o galão (R$ 20 por cerca de três litros). A expectativa é que os próximos dados de inflação, sobretudo o PCE (Índice de Preços para Despesas com Consumo Pessoal, métrica favorita do Fed para avaliar a alta de preços), já tragam reflexos dessa disparada.
O mercado vê poucas chances do Fed reduzir a taxa de juros antes do meio do ano. E isso a despeito da provável pressão sobre o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, que assumirá o banco central mais importante do mundo na próxima reunião, em junho, caso seu nome seja aprovado entre os parlamentares dos EUA.
Ele foi escolhido por Donald Trump em meio à cruzada do presidente por juros mais baixos. Powell, nomeado por Trump no primeiro mandato, resistiu à pressão do republicano no último ano, mantendo as decisões de política monetária ancoradas nos dados econômicos.
Warsh agora terá de convencer seus pares de que o aumento da produtividade dos EUA se traduzirá em inflação mais baixa e permitirá uma política monetária mais frouxa.
“As notícias desde a última reunião em março -dados melhores sobre o mercado de trabalho, mas nenhuma mudança nos dados decepcionantes sobre a inflação alta- podem tornar a discussão um pouco mais ‘hawkish’ [agressiva no combate à inflação], mas não a ponto do Fed sugerir a necessidade de aumento nos juros no comunicado”, disse Michael Feroli, economista-chefe do JPMorgan para os EUA.
Juros mais altos nos EUA costumam ser uma má notícia para os mercados globais. Como a economia norte-americana é a maior do mundo, a renda fixa de lá é lida como um investimento praticamente livre de risco, o que tira a atratividade de outros ativos mais arriscados.
No Brasil, o Copom deve cortar a taxa Selic em 0,25 ponto percentual, a 14,5% ao ano, segundo o consenso do mercado.
Na avaliação de economistas ouvidos pela Folha de S. Paulo, o comportamento da inflação corrente, a piora nas expectativas e a alta nos preços do petróleo tornam o ambiente mais desafiador e exigem maior cautela por parte do comitê.
Na prática, isso deve se traduzir em um ritmo de cortes de juros mais lento ao longo do ano e um ciclo de queda da Selic mais curto do que o projetado pelos agentes econômicos antes da guerra.
Fernando Gonçalves, superintendente de Pesquisa Econômica do Itaú Unibanco, diz que a piora significativa das expectativas de inflação até 2028 reforça a avaliação de que haverá menos espaço para corte de juros do que se imaginava antes da guerra. O banco revisou para cima sua projeção para a taxa Selic ao término do ciclo, de 12,25% para 13%.
Na terça (28), o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) revelou que a inflação medida pelo IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) acelerou a 0,89% em abril. O índice foi pressionado pela alta dos alimentos e dos combustíveis com a guerra e reforça a necessidade de uma postura mais cuidadosa do Copom.
“O dado reforça a leitura de que o ciclo de cortes deve seguir com reduções graduais, de 0,25 ponto percentual ao longo de 2026, diante de núcleos e serviços ainda pressionados”, afirma Lucas Barbosa, economista da AZ Quest.