Com o maior percentual em dez anos, as dívidas no cartão de crédito se tornaram as grandes vilãs do planejamento financeiro dos brasileiros: esses números podem trazer sérias consequências para o cenário nacional.
De acordo com a Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), 81,8% das famílias possuem pendências relacionadas a esse produto.
E os números não param por aí. Segundo o levantamento, 67,2% das famílias possuem algum tipo de dívida. Em agosto de 2021, o cartão de crédito representava 82,8% das inadimplências de famílias com até 10 salários-mínimos.
O valor em dívidas no cartão é expressivo, se comparado a outras linhas de crédito, como cheque especial e crédito consignado, que não passaram de 10% do total de inadimplências dos consumidores.
Na prática, isso significa que mais pessoas estão usando o cartão no dia a dia, ao mesmo tempo em que deixam de quitar seus débitos integralmente dentro do prazo.
Embora o prazo médio de pagamento seja dentro de 60 dias, os percentuais ainda são alarmantes, pois restringem a margem de consumo dos devedores, impactando no comércio.
Entre os fatores que podem explicar esse cenário estão a facilidade de acesso aos cartões de crédito, somado às taxas de juros praticadas no Brasil. No entanto, essas características podem ser uma combinação perigosa para o consumidor.
Volume de dívidas no cartão de crédito aponta cuidado ao usar e, principalmente, parcelar
Muitas pessoas podem não entender a gravidade de deixar acumular dívidas no cartão de crédito, mesmo que esse seja o principal motivo da inadimplência de 25% dos consumidores que possuem débitos pendentes.
Entretanto, a pesquisa da CNC mostra como é fácil perder o controle das contas no cartão, transformando a fatura em uma dívida exponencial. Isso acontece, principalmente, por conta das taxas de juros praticadas no Brasil.
De acordo com dados divulgados pela Agência Brasil, os encargos anuais podem chegar a 875%, um dos maiores do mundo. Em termos de comparação, países norte-americanos e europeus têm uma média de juros de apenas 3%.
Assim, quando o consumidor deixa de pagar suas dívidas no cartão de crédito, elas começam a acumular juros compostos, que cobram o percentual sobre o valor já atualizado, criando uma bola de neve de atrasos.
Sem o devido planejamento, o consumidor deixa de dar conta do valor integral, que acaba com uma soma maior a cada mês, sem contar parcelamentos, que adicionam as mensalidades ao valor em atraso.
Atualmente, a média das taxas de juros no Brasil é de 12,5% ao mês. Isso significa que uma dívida de R$1 mil se transforma em R$1.125,20 no período de 30 dias. Em um ano, esse valor passaria dos R$4 mil.
Em comparação a outros produtos financeiros, os cartões de crédito acumulam as maiores tarifas do mercado, o que tornam suas dívidas mais perigosas para o consumidor.
Mesmo um pequeno valor em atraso na fatura podem apresentar juros altos, dificultando o acerto total. Inclusive, 10,5% das famílias inadimplentes afirmam não ter condições de quitar as dívidas no cartão de crédito, segundo o levantamento da CNC.
A longo prazo, as taxas de juros apenas tornam os débitos menos acessíveis, aumentando a porcentagem de endividados no País.
Como evitar o acúmulo de novas dívidas?
Para não fazer parte dos 81,8% de consumidores com dívidas no cartão de crédito, existem algumas dicas para evitar o acúmulo de débitos a longo prazo. Confira algumas recomendações importantes:
Olhando com cuidado para os juros
Apesar da média de juros do cartão de crédito no Brasil ser de 300% ao ano, algumas companhias podem somar mais de 800% em custos.
Muitas taxas são abusivas, além de outras tarifas que só aumentam a conta, como a anuidade e as cobranças da própria administradora.
Por isso, é fundamental focar no melhor custo-benefício para escapar dos juros. Atualmente, é possível conseguir cartões de crédito sem anuidade e taxas extraordinárias. Nesse caso, vale a pena avaliar algumas opções e escolher a melhor para o seu bolso.
Entendendo que “limite” não é “dinheiro na conta”
O seu limite total não significa “dinheiro na conta”. Muitos consumidores podem confundir esses dois conceitos, e gastar o teto do cartão mesmo que não corresponda aos ganhos reais.
Isso gera erros comuns, como parcelamentos a longo prazo, o que compromete a renda sem planejamento, ou mesmo compras até o limite, sem considerar outros débitos.
Assim, o primeiro passo é saber diferenciar o limite total e o limite de renda do consumidor, para evitar dívidas no cartão de crédito, e, pior, atrasos que acumulam juros.
Se informando sobre o assunto
Quanto mais conhecimento o consumidor tiver, melhor será o seu controle pessoal, evitando pendências e contas que não consegue pagar. Por isso, é importante pesquisar sobre o assunto, acompanhar o mercado financeiro e consultar avaliações detalhadas antes de pedir um cartão.
O próprio site do Banco Central fornece informações atualizadas sobre os juros rotativos cobrados pelas principais instituições, com transparência e acessibilidade. Dessa forma, o consumidor evitará propostas fictícias, podendo identificar as reais cobranças que cada banco oferece.
Soluções para as dívidas no cartão de crédito
É comum que os consumidores se desesperem ao acumular dívidas no cartão de crédito, principalmente quando acompanham o crescimento assustador do montante final.
No entanto, é fundamental manter a calma, e lembrar que existem saídas para a inadimplência. O primeiro passo é reconhecer os débitos e limitar os gastos, com medidas como redução de compras ou até mesmo cancelamento do cartão.
Em seguida, verificar se existe a opção de negociação para o valor total, e quais as alternativas mais vantajosas, como solicitar um empréstimo com juros menores do que o rotativo.
Seja como for, o consumidor deve assumir o controle da situação, e procurar quitar as dívidas no cartão de crédito o quanto antes, para evitar saldos maiores no futuro.
Com isso, será possível encontrar a melhor saída para o endividamento, restaurando o seu poder de compra e ficando livre de restrições no mercado.