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Economia

Correios querem compensação por serviço postal universal

Segundo pessoas a par das discussões, o tema deve ser mencionado no plano de reestruturação dos Correios, mas de forma genérica

Redação Jornal de Brasília

29/11/2025 9h09

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Agência dos Correios em Florianópolis – Divulgação

IDIANA TOMAZELLI
BRASÍLIA, DF (FOLHAPRESS)

Os Correios querem uma compensação do governo pela prestação do serviço postal universal, uma garantia constitucional que hoje responde por uma parcela significativa dos custos da companhia. A empresa também estuda oportunidades de negócio e parcerias, mantendo o controle da União.

A estatal ainda não tem uma proposta fechada, mas avalia a possibilidade de reivindicar a criação de uma taxa para financiar a universalização, cobrada sobre uma base de cálculo a ser definida. Outras opções não estão descartadas.

Segundo pessoas a par das discussões, o tema deve ser mencionado no plano de reestruturação dos Correios, mas de forma genérica. O documento é crucial para viabilizar o empréstimo de R$ 20 bilhões para socorrer a companhia.

O plano terá um capítulo dedicado a outras medidas de ajuste, em que deve constar a menção a estudos de medidas relacionadas à universalização.

Eventuais receitas advindas dessa compensação, porém, não constarão nas projeções de fluxo de caixa da empresa para os próximos anos. Isso significa que o plano precisará demonstrar que os Correios conseguem alcançar a sustentabilidade financeira sem depender de uma decisão sobre esse tópico.

Técnicos reconhecem que alguma compensação pela universalização deve ser necessária e que a criação da taxa está na mesa de discussão. No entanto, a ideia enfrenta resistências de uma ala do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que teme um desgaste em pleno ano eleitoral, numa reedição do ocorrido quando o Executivo decidiu tributar as remessas internacionais de até US$ 50, o que ficou conhecido como “taxa das blusinhas”.

Procurados, os Correios se limitaram a dizer que “mais detalhamentos do plano serão divulgados em breve”. A estatal está em fase de negociação com bancos para fechar o empréstimo de R$ 20 bilhões, que pode ser feito em operações pulverizadas.

O Ministério da Fazenda não respondeu sobre a possibilidade de criação de uma taxa de universalização e direcionou os questionamentos ao Ministério das Comunicações, ao qual os Correios são formalmente ligados. A pasta não respondeu. O Ministério da Gestão, a Casa Civil e a Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência da República) também não se manifestaram.

A universalização é o que garante a presença dos Correios em todo o território nacional, inclusive em locais remotos, onde a prestação do serviço não é rentável —o que afasta a atuação de empresas privadas.

Hoje, a empresa mantém cerca de 10 mil unidades de atendimento, das quais 7.000 são agências próprias ou franqueadas. Em seu balanço contábil, a empresa informou que 71% das localidades atendidas, incluindo as terceirizadas, “operam exclusivamente para cumprir os critérios de universalização, isto é, não apresentam lucro em suas operações”.

“Esse índice eleva-se para 74% ao se incluir o custeio da estrutura administrativa operacional, e atinge 89% quando se considera o total dos gastos, contemplando toda a estrutura de suporte e demais despesas da empresa”, diz o documento.

Ainda segundo o balanço, a universalização respondeu por um prejuízo de R$ 4,82 bilhões no primeiro semestre de 2025. Como o resultado negativo total da empresa foi de R$ 4,37 bilhões no período, significa que outros segmentos dão lucro.

Ao anunciar a aprovação do plano de reestruturação, na semana passada, os Correios já deram pistas de que pretendem abordar o assunto. Em comunicado divulgado na sexta-feira (21), a companhia citou que “em diversos países, mecanismos formais de compensação asseguram a universalização, reconhecida como serviço público indispensável”.

“No Brasil, apesar da queda das receitas tradicionais, cenário que ocorre em todo o mundo, os Correios permanecem como o único operador capaz de atender todos os municípios, inclusive regiões remotas onde a presença do Estado é vital”, acrescentou.

A reestruturação da estatal também deve passar pela busca de novas oportunidades de negócios, para diversificar e ampliar suas receitas no futuro. O comunicado cita a possibilidade de “operações de fusões, aquisições e outras reorganizações societárias para fortalecer a competitividade da estatal no médio e longo prazo”.

Segundo interlocutores que participam dessas discussões, há um esforço da nova gestão dos Correios de estudar novos modelos, como uma joint-venture com parceiros privados para tocar negócios específicos, ou até reformulações mais amplas no futuro, como a abertura de capital, transformando a empresa em uma sociedade de economia mista, mantido o controle da União —como já ocorre com Petrobras e Banco do Brasil, por exemplo.

De acordo com as pessoas envolvidas, a análise sobre essas possibilidades será técnica, não ideológica, e deverá observar duas premissas: a manutenção do papel da empresa na prestação do serviço postal universal e a garantia da soberania logística. Dentro da estatal, técnicos ressaltam que os Correios têm papel relevante, por exemplo, na logística de urnas eletrônicas e de provas do Enem (Exame Nacional do Ensino Médio) em todo o território nacional, o que precisa ser preservado.

As possibilidades de negócio serão analisadas e construídas com o auxílio de uma consultoria externa e um aconselhamento especializado.

Em situação financeira bastante delicada, os Correios registraram um prejuízo de R$ 2,64 bilhões no segundo trimestre de 2025. O rombo é quase cinco vezes o resultado negativo verificado em igual período de 2024, quando ficou em R$ 553,2 milhões.

No primeiro semestre, o rombo alcançou R$ 4,37 bilhões, o triplo do prejuízo de R$ 1,35 bilhão observado em igual período de 2024.

Para além da “taxa das blusinhas”, que, de fato, desfalcou suas receitas, a empresa já vinha penando com a deterioração de suas operações e com o descontrole sobre ações judiciais que impactam o caixa da companhia. Enquanto isso, continuou aumentando despesas, sobretudo com pessoal.

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