São Paulo, 30 – Oficialmente reconhecido como país livre de febre aftosa sem vacinação pela Organização Mundial da Saúde Animal (OMSA), o Brasil quer aproveitar esse passo, considerado histórico, para ampliar as exportações de carne bovina para mercados mais exigentes – e mais bem remunerados. A conquista marca o fim de um processo iniciado há mais de três décadas, com investimentos robustos, tanto do governo federal quanto estaduais e da iniciativa privada, em programas de vacinação e vigilância sanitária.
“Como já faz mais de uma década que não temos nenhum surto de febre aftosa – ou seja, os programas de vacinação surtiram efeito -, a principal vantagem agora é que podemos acessar mercados mais exigentes, que pagam mais pela mercadoria. É claro que isso não acontece de forma instantânea, vai ter negociação, vai levar tempo, mas existe essa possibilidade”, explicou o CEO da Scot Consultoria, Alcides Torres, ao Broadcast Agro, sistema de notícias em tempo real do Grupo Estado.
O reconhecimento internacional chega em um momento estratégico. O Brasil é o maior exportador mundial de carne bovina, e a nova chancela pode ajudar o País a se consolidar também nos mercados de maior valor agregado – hoje cobertos principalmente pelos Estados Unidos e Austrália. A expectativa mais concreta é com o Japão, que deve concluir ainda este ano a habilitação do sistema sanitário brasileiro para passar a adquirir a carne bovina brasileira.
“A declaração do Brasil como livre de aftosa sem vacinação chama a atenção principalmente porque, em tese, os mercados que o Brasil já atende com outras proteínas animais podem ser ampliados. E esses mercados são justamente os que pagam mais pela tonelada de carne bovina – como Japão e Coreia do Sul, entre outros”, acrescentou Torres. Atualmente, o Brasil é fornecedor global, principalmente, da carne “commodity”, ou seja, que é ingrediente para misturas com outras carnes, como hambúrguer. O preço médio de importação gira em torno de US$ 5 100 por tonelada. Para o Japão, há potencial de ganhos, já que o país paga, em média, US$ 8.000 por tonelada.
A obtenção da certificação será, inclusive, seguida por uma visita de uma delegação japonesa em junho, para avaliar o sistema de inspeção federal. De acordo com o presidente da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carnes (Abiec), Roberto Perosa, após a visita técnica, os trâmites internos no Japão devem levar cerca de 60 dias. “Não se discute mais a qualidade da carne. O que está em avaliação agora é o funcionamento do sistema de inspeção sanitária”, disse Perosa à imprensa, antes de recente viagem à China.
Além de Japão e Coreia do Sul, com os quais o Brasil já está em tratativas, o País também mira outros mercados, como Indonésia e Filipinas – para exportações de miúdos bovinos -, além da Turquia. Também há planos para revisar os protocolos de exportação com países que já importam carne brasileira, com o objetivo de negociar melhores condições de comercialização da proteína.
Além de abrir mercados, o novo status também implica redução de custos para o produtor. A vacinação contra a febre aftosa era realizada mais de uma vez por ano, causando gastos com vacinas, mão de obra e manejo. “Sem a vacinação obrigatória, há uma economia direta e também uma simplificação das rotinas sanitárias no campo”, afirma Torres.
Em contrapartida, o fim da obrigatoriedade traz preocupações. Uma delas é a possível perda de controle sanitário sobre o rebanho. “Com a vacinação obrigatória, o produtor era obrigado a trazer o gado para o curral e aproveitar para aplicar outros tratamentos, como vermífugos. Agora, há risco de esse protocolo ser negligenciado”, alerta Torres.
Outro ponto citado por especialistas é a extensão territorial e a diversidade ecológica do Brasil, que aumentam o risco de reinfecção. “O maior risco não é apenas sanitário, mas comercial Um eventual surto pode fazer o Brasil perder mercados conquistados a duras penas. E não existe risco zero em biologia”, pondera o CEO da Scot.
Estadão Conteúdo