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Economia

Bolsa recua e dólar avança com cenário político brasileiro e dados dos EUA no radar

Ibovespa recua enquanto investidores avaliam inflação americana, juros do Fed e indefinições na equipe econômica do governo Lula

Redação Jornal de Brasília

29/10/2026 12h32

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Foto: Vanderlei Almeida/AFP

FOLHAPRESS

A Bolsa volta a cair nesta quinta-feira (29), com investidores cautelosos diante da indefinição sobre os rumos da política econômica do governo Lula 4 e atentos à divulgação de dados econômicos dos Estados Unidos.

No exterior, o destaque é o PCE (índice de preços das despesas de consumo pessoal, na sigla em inglês), divulgado pelo Departamento de Comércio dos Estados Unidos. O indicador é acompanhado pelo Fed (Federal Reserve, banco central americano) na avaliação da inflação e pode influenciar as expectativas para os juros do país.

Por volta das 10h20, o Ibovespa, índice de referência do mercado acionário brasileiro, caía 0,17%, aos 170.706 pontos. No mesmo horário, a moeda americana subia 0,13%, a R$ 5,350.

Nesta manhã, o Departamento de Comércio dos Estados Unidos informou que o PCE avançou 3,6% nos 12 meses até setembro, em linha com a expectativa dos analistas. O órgão também divulgou que o PIB (Produto Interno Bruto) do país cresceu 3,4% no terceiro trimestre, acima da projeção de 3,2% dos economistas consultados pela Bloomberg.

O Fed utiliza o PCE (índice de preços das despesas de consumo pessoal, na sigla em inglês) como referência para sua meta de inflação de 2%.

Na véspera, a instituição manteve a taxa de juros entre 3,75% e 4%, mas reiterou o compromisso com a estabilidade de preços. “O acúmulo de mais informações ajudará o Comitê a determinar a orientação de política monetária adequada para assegurar o retorno da inflação, em tempo hábil, à meta de 2% do Comitê”, afirmou o Comitê Federal de Mercado Aberto, responsável pela definição dos juros. “O Comitê garantirá a estabilidade de preços.”

Para Leonel Oliveira Matos, analista de inteligência de mercados da StoneX, os números mostram um quadro inflacionário mais desafiador, persistente e disseminado nos Estados Unidos, o que pode levar o Fed a elevar os juros nos próximos meses. “A principal surpresa veio do PIB norte-americano, que cresceu acima do esperado […] O crescimento mais forte da atividade econômica nos Estados Unidos representa um fator de risco inflacionário.”

Segundo ele, embora os dados reforcem a perspectiva de novas altas de juros pelo Fed, movimento que tende a fortalecer o dólar, essa reação não se concretizou. Por volta das 10h15, o índice DXY, que mede o desempenho da moeda americana ante seis divisas fortes, avançava 0,10%.

No mercado doméstico, as atenções permanecem voltadas ao cenário político, a possíveis sinalizações sobre a política econômica do governo Lula e aos nomes que ocuparão os cargos da equipe econômica.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, disse na terça-feira (27) que reafirmou ao presidente Lula a necessidade de dar sinais ao mercado. Segundo ele, o governo já tem medidas prontas para apresentar, incluindo iniciativas para buscar o centro da meta fiscal.

A aliados, Lula já sinalizou a possibilidade de indicar o governador do Piauí, Rafael Fonteles, para o Ministério da Fazenda. Fonteles teria indicado que aceitaria renunciar ao mandato para assumir o comando da pasta.

Em meio às indefinições, os juros futuros operam sem direção única. A taxa do contrato de DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2028 caía 3 pontos-base, para 14,380%, enquanto a do contrato para janeiro de 2031 avançava 3 pontos-base, para 15,11%.

Gustavo Danilo, especialista em renda fixa da Manchester Investimentos, afirma que o movimento mostra que o mercado ainda tenta encontrar um novo patamar para os juros após a eleição. “Tivemos algum alívio, inclusive com atuação do Tesouro, mas hoje a curva volta a abrir principalmente do miolo para os vencimentos mais longos. A parte curta se movimenta bem menos, então a discussão neste momento parece estar muito mais ligada ao prêmio fiscal e às expectativas para os próximos anos do que a uma mudança imediata na trajetória da Selic”, diz.

Na quarta-feira, também foi divulgado que a alíquota da CBS, tributo federal previsto na reforma tributária, poderá ser de 11,3% em 2027, segundo proposta apresentada pelo TCU (Tribunal de Contas da União) para manter a carga dos tributos federais sobre o consumo. O percentual ficou acima das projeções.

Franciny de Barros, sócia da área tributária do escritório Candido Martins Cukier, afirma que a divulgação de uma alíquota superior à esperada, a cerca de dois meses do início da cobrança, gera incertezas sobre o impacto nos orçamentos das empresas, inclusive daquelas que já haviam se preparado para a reforma.
“A alteração nas projeções compromete o planejamento financeiro e a segurança jurídica das empresas que já haviam avaliado os reflexos da transição”, afirma.

Cristina Camara, professora de direito tributário e financeiro da CEPED/UERJ, avalia que o impacto poderá ser significativo, especialmente para o setor de serviços, que tem menos possibilidades de aproveitar créditos.

O debate sobre alternativas de arrecadação também trouxe de volta a possibilidade de tributação de investimentos hoje isentos, como LCIs, LCAs, CRIs, CRAs e debêntures incentivadas.

Para Gustavo Danilo, a discussão sobre uma eventual cobrança de IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) sobre esses instrumentos acrescenta incertezas. Embora não considere o tema o principal responsável pela alta dos juros futuros, o especialista afirma que a possibilidade de mudanças aumenta as preocupações com a previsibilidade das regras, especialmente por envolver investimentos que financiam setores importantes da economia. “Até existir um desenho mais claro, acaba sendo mais um elemento de incerteza”, afirma.

No exterior, a decisão do Fed concentrou as atenções ao longo do dia. O banco central americano manteve a taxa de juros entre 3,75% e 4%, em uma decisão que contou com dez votos favoráveis e dois contrários.

Segundo Fernando Saad Benati, estrategista global da Avenue, a manutenção dos juros veio em linha com as expectativas do mercado. Agora, os investidores acompanham a comunicação do Fed em busca de sinais sobre os próximos passos da política monetária, já que o presidente da instituição, Kevin Warsh, tem evitado antecipar as decisões futuras.

As expectativas para a reunião de dezembro indicam uma probabilidade próxima de 80% de uma nova alta de juros, segundo Benati.

Bruna Centeno, economista, sócia e advisor da Blue3, afirma que, como a manutenção dos juros já era esperada, as atenções se voltaram principalmente para o comunicado do Fed, em meio à recente escalada das tensões envolvendo os Estados Unidos.

Segundo a especialista, o agravamento do conflito tem pressionado os preços do petróleo, aumentando as preocupações com a inflação americana.

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