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Economia

Bolsa fecha em queda de 14% após primeiro circuit breaker em seis anos, e dólar e juros disparam

Na mínima do dia, o principal índice da Bolsa chegou a recuar 17,34%. Moeda americana fechou em alta de 8,41%, cotada a R$ 5,409

Redação Jornal de Brasília

26/10/2026 18h35

bolsa de valores

Foto: Daniel Roland/AFP

MATHEUS DOS SANTOS E JÚLIA GALVÃO
FOLHAPRESS


O Ibovespa despencou nesta segunda-feira (26) e fechou o dia em queda de 13,88%, aos 176.608 pontos, menor patamar desde 17 de julho. A Bolsa brasileira acionou o mecanismo de circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020, após a vitória do presidente Lula (PT) sobre o senador Flávio Bolsonaro no segundo turno das eleições presidenciais frustrar as apostas de parte do mercado na vitória do candidato do PL.

Na mínima do dia, o principal índice da Bolsa chegou a recuar 17,34%. O resultado eleitoral também provocou uma disparada do dólar e dos juros futuros, em meio ao aumento da aversão ao risco dos investidores.

A moeda americana fechou em alta de 8,41%, cotada a R$ 5,409. Um avanço tão intenso não era registrado desde 15 de janeiro de 1999, quando o dólar subiu 11% em uma única sessão. Na máxima do dia, a moeda chegou a subir 12,32%, a R$ 5,604.

Para Thomas Haugaard, gerente de portfólio da gestora de ativos Janus Henderson, a reação do mercado reflete a surpresa de analistas. “O resultado de domingo (25) foi surpreendente. A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva reverteu o resultado do primeiro turno. Embora as pesquisas para o segundo turno indicassem uma disputa acirrada, os investidores precificavam uma vitória de Bolsonaro. O resultado, portanto, expôs uma clara assimetria: a aposta na vitória de Bolsonaro já estava precificada, enquanto o risco de uma vitória de Lula não estava.”

O movimento também se refletiu nos juros futuros. Às 17h06, a taxa do contrato de DI (Depósito Interfinanceiro) para janeiro de 2027 subia 22 pontos-base, para 13,696%, enquanto a taxa para janeiro de 2031 avançava 254 pontos-base, para 15,190%.

O risco-Brasil, indicador que mede a percepção dos investidores sobre o risco de investir no país, fechou em alta de 19,15%, após disparar 27% no início do pregão. A elevação sinaliza uma maior desconfiança em relação à capacidade do Brasil de honrar seus compromissos financeiros, o que pode encarecer a captação de recursos no exterior por empresas e pelo governo.

A reação negativa reverte parte da valorização dos ativos brasileiros nas semanas anteriores à eleição, quando investidores apostavam na vitória de Flávio Bolsonaro e na adoção de medidas mais rigorosas de ajuste fiscal em um eventual governo do senador.

Entre a confirmação das candidaturas e a última sexta-feira (23), último pregão antes do segundo turno, a Bolsa brasileira acumulava alta de 15,3%, enquanto o dólar havia recuado cerca de 2% no período.

Ao longo do ano, a Bolsa e o real também se beneficiaram do movimento de diversificação das carteiras globais, com investidores buscando alternativas aos ativos americanos.

Nesta segunda, entre as poucas ações que encerraram o pregão em alta estavam as de empresas exportadoras, que recebem boa parte de suas receitas em dólar e podem se beneficiar da valorização da moeda americana. A maior alta foi da Suzano, cujas ações avançaram 10,07%. Já a Vale, uma das empresas de maior peso no Ibovespa, subiu 4%. Também registraram ganhos as ações da Embraer, WEG, Bradespar e Klabin.

MUDANÇA DE RUMO

A reeleição de Lula aumentou o receio de investidores de que o governo não adote medidas suficientes para equilibrar as contas públicas. A expectativa de continuidade de uma política fiscal expansionista tende a elevar o prêmio de risco exigido pelo mercado para financiar o governo, pressionando os juros futuros.

Taxas mais altas, por sua vez, encarecem o crédito para empresas e consumidores e podem reduzir as perspectivas de lucro das companhias, afetando o desempenho da Bolsa.

A preocupação com o cenário fiscal também apareceu nos relatórios de instituições financeiras. O J.P.

Morgan rebaixou a recomendação para o real e os títulos públicos brasileiros de overweight (exposição acima da referência) para marketweight (exposição em linha com a referência) após a vitória de Lula.

Em relatório, Vinicius Moreira e sua equipe afirmaram que o resultado, considerado inesperado pelo banco, deve provocar uma “reavaliação significativa” dos ativos brasileiros. Os analistas também citaram preocupações com a postura da oposição, após Flávio Bolsonaro não reconhecer a derrota, além das incertezas sobre a composição do novo governo e os rumos da política econômica.

O BTG Pactual, por sua vez, afirmou esperar uma venda expressiva de ações brasileiras nas próximas semanas e projetou uma desvalorização de 10% a 15% do real.

“Taxas de juros de longo prazo, uma moeda mais fraca e expectativas desancoradas podem levar o Banco Central a evitar um corte de juros mais agressivo no curto prazo”, afirmaram os analistas do banco.

Para Rebecca Nossig, estrategista de ações da Nomad, a forte queda da Bolsa reflete o aumento da aversão ao risco após o resultado eleitoral. Segundo ela, o acionamento do circuit breaker busca conter a pressão vendedora e evitar uma sequência de desvalorizações.

“Esse movimento defensivo dos agentes financeiros ocorre devido a um descompasso de expectativas do mercado em relação ao resultado das urnas, forçando os operadores a buscarem o dólar como refúgio enquanto aguardam sinalizações claras sobre as futuras diretrizes econômicas e fiscais do país”, afirma.

Daniel Teles, especialista e sócio da Valor Investimentos, também atribui a reação negativa dos investidores às preocupações com as contas públicas.

“O mercado entende que o governo pode continuar com gastos altos, crédito subsidiado, políticas mais populistas e aumento da relação entre dívida e PIB (Produto Interno Bruto). Então, os juros teriam trajetória de alta”, afirma.

Segundo ele, empresas com receitas em dólar tendem a enfrentar melhor esse cenário, enquanto companhias mais sensíveis aos juros, como as do varejo, podem ser mais prejudicadas.

A reação dos ativos já era esperada por agentes do mercado. Levantamento do Citibank com 73 gestores de fundos de ações e multimercado mostrou que 80% dos entrevistados esperavam que a vitória de Lula provocasse uma queda superior a 5% no Ibovespa nesta segunda-feira. Outros 7% projetavam recuo entre 1% e 5%, enquanto 3% esperavam valorização de 1% a 5%.

No câmbio, 63% dos gestores esperavam uma desvalorização superior a 5% do real, enquanto outros 28% estimavam recuo entre 2% e 5%. Já 6% projetavam valorização superior a 5% da moeda brasileira.

Para os analistas, contudo, a trajetória do dólar e da Bolsa no médio prazo dependerá das sinalizações sobre a política fiscal. “Pode haver um movimento muito forte no pós-eleição, mas sua consolidação vai depender das medidas do candidato eleito. A depender de como o vencedor conduzir a política fiscal, podemos ter uma reversão das expectativas iniciais”, diz João Daronco, analista da Suno Research.

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