ALEXA SALOMÃO
SÃO PAULO, SP (FOLHAPRESS)
A PF (Polícia Federal) atribui a Augusto Lima, ex-sócio do Master, a elaboração de carteiras fraudulentas repassadas pelo Master ao BRB, banco do governo do Distrito Federal. Segundo a PF, o BRB comprou R$ 12,2 bilhões em CCBs (Cédulas de Crédito Bancário) consideradas falsas.
Uma auditoria citada na petição estimou em pelo menos R$ 5 bilhões o prejuízo ao banco público pelas compras desses ativos. Essas informações se tornaram públicas após a retirada do sigilo de documentos do caso Master na quinta-feira (10).
O documento também identifica pagamentos milionários do Master à Terra Firme, empresa controlada por Lima, que, na avaliação da PF, coincidiram com momentos em que ele atuava junto ao BRB para liberar recursos ao banco de Daniel Vorcaro.
Inúmeras reproduções de mensagens, registradas nos documentos, mostram a participação do empresário nas negociações entre Master e BRB.
Lima foi preso em novembro dentro da Operação Compliance Zero, com Vorcaro e outros executivos das instituições por suspeita de envolvimento nas fraudes de carteiras. Solto 11 dias depois, passou a usar tornozeleira eletrônica.
O empresário é conhecido como o criador do Credcesta, um cartão de benefício consignado, com desconto das parcelas do empréstimo na folha de pagamento. Lançado para servidores públicos da Bahia em 2018, foi disseminado pelo Master, chegando a 24 estados e 176 municípios.
As carteiras transferidas para o BRB com suspeita de fraude eram originadas de operações com crédito consignado. Elas foram adquiridas pelo Master da consultoria Tirreno, criada em dezembro de 2024 e que prestou serviços ao banco de Vorcaro de janeiro a junho de 2025. Antes, parte desses consignados haviam sido firmados por meio de associações de servidores públicos da Bahia. Mais tarde, identificou-se que elas tinham relação com Lima.
A petição da PF amplia a relação do empresário com essas operações ao destacar textualmente que as carteiras, a partir de janeiro de 2025, “aparentemente, passaram a ser elaboradas pelo próprio Augusto Lima”.
Para reforçar o protagonismo de Lima, o documento cita que ele e Henrique Peretto, apontado como controlador e dono da Tirreno, trocaram mensagens para participarem juntos de uma reunião com o então presidente do BRB, Paulo Henrique Costa, em 28 de maio de 2025.
Outro indicativo do papel de Lima, segundo a PF, são os conteúdos de mensagens enviadas por Vorcaro.
Os investigadores afirmam que Vorcaro recorreria pessoalmente a Lima para conseguir recursos no BRB.
A representação cita textualmente que o ex-banqueiro preso recorria a Lima para que ele interviesse para que o banco público fizesse pagamentos ao Master.
A PF também identificou e considerou suspeitos repasses do Master para a Terra Firme, empresa do conglomerado que pertence a Lima. Os repasses eram formalmente justificados como pagamento por serviços, mas, segundo a PF, podem indicar desvio de recursos da instituição.
Reportagem da Folha já mostrou que a Terra Firme da Bahia recebeu R$ 186 milhões do Master entre 2022 e 2025, e uma filial, outros quase R$ 74 milhões. No documento agora tornado público, a PF afirma que pagamentos superiores a R$ 3 milhões feitos pelo Master à Terra Firme “coincidem, em vários momentos, com as interferências de Augusto Lima perante o BRB” para o pagamento das carteiras.
Em 29 de agosto de 2024, segundo o documento, um funcionário chamado Raimundo envia a Lima uma nota da Terra Firme ao Master. Logo depois, Lima envia o contato de Alberto Félix, tesoureiro do Master.
A imagem da nota fiscal, reproduzida na página, mostra o valor de R$ 3.665.962,47.
Depois, em 7 de abril de 2025, aparecem mais duas notas, de R$ 3.334.230,12 e R$ 3.665.962,47, totalizando R$ 7.000.192,59 em um único lote de cobranças.
O documento da PF também identificou que, em novembro de 2024, o BRB já enxergava problemas nas carteiras do Master. Nas conversas entre o então presidente do BRB Paulo Henrique Costa e o então diretor de finanças e controladoria Dário Garcia, a PF diz que uma carteira Credcesta tinha R$ 179,6 milhões de valor contábil, mas somente R$ 110 milhões foram considerados aptos –um corte de quase 40%.
A polícia afirma que isso já evidenciaria inconsistências no material enviado pelo Master.
Em outro trecho, a PF diz que Dário, com aval de Paulo Henrique, movimentou-se para ampliar de 4% para 5% o limite de inadimplência admitido nas carteiras e que novas compras seriam feitas em partes (tranches), sem reiniciar todo o ciclo de aprovação.
O documento tem 82 páginas e ao final traz a data de 3 de fevereiro de 2025. No entanto, a assinatura digital da delegada de Polícia Federal no cabeçalho consta como registrado em 18 de fevereiro de 2026, e foi endereçado ao ministro André Mendonça, do STF (Supremo Tribunal Federal), que havia assumido a relatoria do caso Master no Supremo poucos dias antes, em 12 de fevereiro.
A argumentação da PF no documento buscava autorização para quebra do sigilo bancário e fiscal dos envolvidos para aprofundar as investigações.
Alegações não se sustentam, diz defesa de Lima
Em nota enviada à Folha, a defesa de Augusto Lima rechaçou “de forma veemente” o conteúdo da petição.
“Não há fundamento para atribuir a Augusto Lima os ilícitos mencionados”, afirmou.
“As informações e insinuações mencionadas reproduzem alegações formuladas no início da investigação e que, passados dez meses de apuração, não se sustentam diante dos próprios elementos já reunidos.”
A defesa também rechaça que o empresário tenha tido proximidade com BRB e a negociação de carteiras.
“Jamais tratou com qualquer representante do BRB sobre supostas carteiras falsas e não participou das negociações. Não assinou documentos de cessão de carteiras ao BRB nem prestou informações falsas ao Banco Central. Tampouco manteve tratativas com órgãos de fiscalização sobre esses fatos ou foi responsável pela contabilidade do Banco Master.”
Segundo a defesa, a Polícia Federal já afastou, em relatório, a alegação envolvendo as associações. Quanto às transferências mencionadas pela reportagem, havia contrato regular de prestação de serviços, e os serviços contratados foram prestados, afirma.
“Insinuar, apenas em razão dos valores envolvidos, que esses pagamentos representariam desvio de recursos em favor de Augusto Lima é uma ilação grave e sem respaldo nos fatos”, diz a nota.
Segundo a defesa, também é preciso considerar a questão cronológica. Diz que Augusto Lima deixou a sociedade e a direção do Master em 28 de maio de 2024, conforme documentação do Banco Central. A operação policial ocorreu somente em 18 de novembro de 2025, um ano e seis meses depois de seu desligamento.
“Desde o início das apurações, Augusto Lima permanece à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários. Após dez meses de investigação, a defesa considera inadmissível que acusações antigas sejam novamente apresentadas como novidade, ignorando elementos já conhecidos da própria apuração.”
A defesa ainda reitera que “confia que a investigação será conduzida de forma técnica, isenta e com absoluto respeito aos fatos e ao devido processo legal, tendo a certeza de que a inocência ficará comprovada”.