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Economia

Ataque ao Irã provoca racha no Brics, com árabes como alvos da retaliação do regime

Com isso, a guerra regional em curso no Oriente Médio, iniciada por ataques dos Estados Unidos e de Israel, permanece sem resposta conjunta do Brics.

Redação Jornal de Brasília

04/03/2026 6h37

Foto: Brics/Divulgação

O Brics, foro preferencial de países do Sul Global, rachou e deixou de se posicionar a respeito do bombardeio ao Irã e suas retaliações subsequentes, que atingiram países árabes no Oriente Médio.

Entre eles, estão os Emirados Árabes Unidos e a Arábia Saudita, dois integrados pela expansão do agrupamento, além de países que dialogam com o grupo, como o Catar. Com isso, a guerra regional em curso no Oriente Médio, iniciada por ataques dos Estados Unidos e de Israel, permanece sem resposta conjunta do Brics.

A mudança é clara se comparada ao que ocorreu em junho de 2025. Oito meses atrás, o bombardeio prévio combinado por forças de Israel e dos Estados Unidos para destruir as instalações nucleares de Natanz, Isfahan e Fordow teve resposta de todos os 11 países – Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Egito, Etiópia, Indonésia, Irã, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita (Riad participa ativamente das atividades, mas nunca oficializou sua condição de membro).

Naquela época, Teerã revidou e a guerra durou 12 dias, mas não houve ataques com mísseis e drones nos demais países do Golfo Pérsico.

Agora, o Brics não se reuniu e não vai alcançar um comunicado conjunto. Discussões preliminares entre diplomatas levaram à conclusão de que a participação de iranianos e emiráticos inviabilizou um posicionamento comum. Um chamado para reunião nem sequer foi debatido.

Como os países árabes foram atingidos, e o grupo se posiciona apenas pela regra de consenso geral, na prática os ataques iranianos inviabilizam declarações unificadas e até mesmo reuniões emergenciais com todos os participantes.

O Irã nega ter problemas com seus vizinhos árabes e afirma mirar apenas em bases militares e locais que abrigam agentes de forças americanas e aliados, como forma de legítima defesa. Os EUA esvaziam embaixadas nos países e retiram pessoal. Dois drones atingiram a embaixada americana em Riade e o consulado em Dubai.

O Irã já atingiu instalações de aliados israelenses no Chipre, Jordânia, Síria, Iraque, Omã, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Kuwait.

Na época da guerra dos 12 dias, o Brics estava sob a presidência brasileira. As chancelarias conversaram e emitiram um comunicado conjunto. O grupo expressou “profunda preocupação com os ataques militares contra a República Islâmica do Irã desde o dia 13 de junho de 2025, os quais constituem violação do direito internacional e da Carta das Nações Unidas, e a subsequente escalada da situação de segurança no Oriente Médio”. Também criticou ataques a instalações nucleares. A declaração, um gesto de apoio político ao Irã, foi publicado ao fim do conflito, em 24 de junho.

Dias depois, durante a Cúpula do Brics no Rio, em 6 e 7 de julho, o Irã pressionaria ainda mais, como revelou o Estadão, exigindo menções nominais a Israel e Estados Unidos como autores do bombardeio e uma condenação veemente, com críticas a danos causados à infraestrutura civil iraniana, sem mencionar o estrago feito por seus mísseis balísticos em Tel Aviv. Eles depois pediram que o documento usasse termos ofensivos diplomaticamente, como “regime sionista”, para se referir ao governo de Israel. O tom que prevaleceu foi mediano, como proposto pelo Brasil.

Na ocasião, os países do grupo mais próximos de Israel e dos Estados Unidos – inclusive com bases militares americanas – e com relação conturbada com o Irã por causa das divisões entre xiitas e sunitas atuariam para moderar o tom e impedir que as encomendas iranianas fossem aprovadas. Entre eles, estavam justamente os árabes (Egito, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos), Etiópia e Índia.

Reunião adiada

Atualmente, o Brics é presidido pelo governo indiano, a quem caberia convocar uma eventual reunião emergencial, de ministros ou líderes, ou mesmo articular um posicionamento comum do grupo. Isso não ocorreu.

Ao revés, nesta semana, em razão da guerra, a Índia cancelou uma reunião em Jaipur da trilha de finanças, envolvendo ministros e representantes de bancos centrais. O encontro ocorreria entre 5 e 7 de março, com autoridades de todos os países. Pesaram, além das tensões, os riscos de segurança e interrupções em rotas de voos comerciais.

Um diplomata que atua com Brics e Ásia na chancelaria brasileira lembrou que a falta de coesão política já era um efeito deletério esperado pela expansão do bloco, em 2023, por pressão de países como China e Rússia, um problema que o Itamaraty alertou. O Brasil tentou conter a ampliação do Brics, mas terminou isolada e cedeu.

Agora, na avaliação deste diplomata, ficou mais difícil extrair uma posição comum, com tantos interesses conflitantes incorporados ao grupo.

Interlocutores diretos do presidente Lula também lembraram que a posição brasileira é única, em termos de condenação explícita do bombardeio, entre as grandes democracias, e que a divisão interna foi algo notado por todos. Uma articulação dentro do Brics está inviabilizada, no diagnóstico de diplomatas.

Pequim, Moscou e Pretória

Aliados, China e a Rússia indicaram claramente apoio político ao Irã e condenaram o ataque e o assassinato de líderes do país, entre eles o aiatolá Ali Khamenei, mas não fizeram mais promessas de apoio concreto.

Envolvimento militar no exterior tem sido descartados por Moscou, enquanto segue a campanha Ucrânia. O Kremlin também quer “garantir seus próprios interesses” na relação com Washington, indicou a presidência russa.

O porta-voz de Vladimir Putin, Dmitri Peskov, disse que a participação no Brics “não inclui a obrigação de prestar assistência mútua em caso de agressão armada, e não há atualmente contatos dentro do grupo em relação ao Irã”, reportou a agência estatal Ria Novosti.

A África do Sul, em choque com os EUA e Israel, tentou se equilibrar. O presidente Cyril Ramaphosa manifesotu “profunda preocupação com a escalada das tensões” no Oriente Médio.

“Esses acontecimentos representam uma séria ameaça à paz e à segurança regional e internacional, com consequências humanitárias, diplomáticas e econômicas de grande alcance”, disse comunicado do governo sul-africano, que imbute uma crítica ao argumento dos israelenses e americanos de ação militar preventiva. “O Artigo 51 da Carta da ONU prevê a legítima defesa apenas quando um Estado é alvo de uma invasão armada. A legítima defesa antecipatória não é permitida pelo direito internacional, e a legítima defesa não pode se basear em suposições ou antecipações.”

Nova Délhi

A posição da Índia, atual presidente do Brics, também é complexa. Nova Délhi dialogou somente com líderes dos países árabes com os quais mantém mais proximidade e foram alvejados por Teerã. Ele condenou de forma veemente os ataques iranianos a Dubai, mas não se manifestou pelo assassinato do líder supremo Khamenei.

O premiê Narendra Modi havia visitado Israel justo antes dos ataques. Ele telefonou ao primeiro-ministro Binyamin Netanyahu e pediu a “cessação imediata das hostilidades”.

Em seguida, já conversou por telefone com os líderes de: Catar, EAU, Kuwait, Omã, Jordânia, Arábia Saudita e Bahrein.

Periasamy Kumaran, secretário de Ásia da chancelaria indiana, disse que Modi defendeu diálogo e diplomacia durante as conversas com os líderes de Israel e dos Emirados Árabes Unidos, e que “civis não devem virar alvos”.

O diplomata disse que o governo indiano manifestou profunda preocupação com os acontecimentos no Irã e no Golfo Pérsico em geral e pediu que as partes exerçam contenção, evitam a escalada de hostilidades e priorizem a segurança de civis. Ele também destacou a preservação da soberania e da integridade territorial dos países.

O contato político com Teerã ficou limitado a um telefonema entre os chanceleres S. Jaishankar e o iraniano Seyed Abbas Araghchi.

Em novo comunicado oficial do Ministério das Relações Exteriores, o governo Modi disse que se preocupa com os quase 10 milhões de indianos que vivem e trabalham na região do Golfo.

“Não podemos nos omitir diante de qualquer acontecimento que os afete negativamente. Nossas cadeias de comércio e de suprimento de energia também atravessam essa região. Qualquer interrupção significativa tem sérias consequências para a economia indiana. Como um país cujos cidadãos são proeminentes na força de trabalho global, a Índia também se opõe firmemente aos ataques à frota mercante. Nos últimos dias, alguns cidadãos indianos já perderam a vida ou estão desaparecidos em decorrência desses ataques”, disse a diplomacia de Nova Délhi, em tom crítico indireto aos iranianos. “Estamos em contato com os governos desta região, bem como com outros parceiros importantes. O primeiro-ministro e o ministro das Relações Exteriores realizaram discussões com seus homólogos.”

Estadão Conteúdo

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