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Economia

Aproximação comercial entre Brasil e África não é imperialista, diz cientista africano

Arquivo Geral

03/06/2010 14h56

Ao longo da última década, a corrente brasileira de comércio (soma das exportações e importações) com os países africanos quase quadruplicou. Segundo o Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior (MDIC), em 2008 o volume bateu recorde e atingiu US$ 307 bilhões – sem contar a Argélia, Líbia, Tunísia, o Egito e Marrocos, que fazem parte do bloco do Oriente Médio.

O interesse pela África fez com que o governo aumentasse, nos últimos oito anos, o número de embaixadas brasileiras no continente, passando de 19 para 35. Além disso, grandes empresas brasileiras como a Votorantim, Camargo Corrêa, Odebrecht e Petrobras também se instalaram naquele país para a construção de infraestrutura e produção de energia.

A maior presença brasileira no continente e o crescente interesse comercial não assustam os africanos, como afirma o intelectual zimbabuano Sam Moyo, presidente do Conselho para o Desenvolvimento da Pesquisa em Ciências Sociais em África (Codesria).

“Países como o Brasil obviamente têm interesses políticos e comerciais, mas representam uma mudança em relação aos padrões coloniais imperialistas anteriores. Vejo, sem ingenuidade, que há interesses, mas que há um novo movimento político”, disse o cientista social à Agência Brasil, após a aula inaugural no programa de pós-graduação de sociologia da Universidade de Brasília.

“A aproximação é bem diferente daquela que acontecia sob a lógica de Bretton Woods”, disse Sam Moyo, referindo-se ao sistema de comércio internacional estabelecido em 1944, ao final da 2ª Guerra Mundial.

“Os termos dos contratos que os países africanos têm com o Brasil não seguem a cartilha anterior, quando os países do norte emprestavam dinheiro e tinham nos contratos cláusulas dizendo que os governos não podiam investir em desenvolvimento local, para continuarem dependentes.”

Sam Moyo, que é professor adjunto da Universidade de Fort Hare, na África do Sul, vê diferenças entre o Brasil, Zimbábue e a África do Sul nos processos de anistia e reconciliação nacional, respectivamente após a ditadura militar (1964-1985), o fim da colonização (1980) e o apartheid (1994).

“No Zimbábue, com o fim da colonização, houve um processo de anistia geral, como aconteceu no Brasil. Lá, como aqui, as pessoas querem ter tribunais de verdade e reconciliação, mas as pessoas têm que ter muito cuidado com isso. O processo de reconciliação na África do Sul foi um processo coletivo de discussão do que é a verdade, do que é justiça e do que é reconciliação.”

Segundo o cientista social, o processo de reconciliação não foi perfeito na África do Sul. “Falta um elo na cadeia entre a reconciliação, a verdade e a reparação pelas perdas e sofrimentos que aconteceram. Não basta apenas uma reconciliação moral, há um lastro material muito forte que precisaria ser enfrentado de outra maneira”, afirmou Moyo.

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