ISABELLA MENON
WASHINGTON, EUA (FOLHAPRESS)
Após anunciar o tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros, os Estados Unidos negam que queiram acabar com o Pix, apesar de o sistema de pagamento ter sido um dos pontos das reclamações por parte dos americanos e de o USTR (Escritório do Representante de Comércio dos EUA) ter incluído o sistema na investigação da seção 301.
Um alto funcionário do governo Trump afirmou que os EUA não querem uma situação em que as empresas americanas sejam colocadas em desvantagem enquanto um sistema operado pelo Estado recebe, na visão dos americanos, um tratamento diferenciado.
Segundo esse funcionário, a expectativa é que todas as empresas concorram nas mesmas condições comerciais. Porém ele não detalhou qual seria a solução para isso.
Ainda de acordo com esse representante dos EUA, o governo Trump reconhece a importância do Pix para os brasileiros, mas não quer que empresas americanas sejam obrigadas a propagandear ou obrigadas a usar o Pix. A expectativa é que o Pix compita com as empresas americanas nas mesmas bases.
Como a Folha de S.Paulo mostrou, durante as audiências da seção 301, brasileiros e americanos argumentaram a favor do Pix e defenderam o sistema como uma infraestrutura pública que ampliou a concorrência, reduziu custos para consumidores e empresas e criou oportunidades de negócios, inclusive para companhias dos EUA.
Nas negociações que antecederam a confirmação do tarifaço, autoridades brasileiras rejeitaram qualquer negociação envolvendo o sistema de pagamentos. Em nota após o anúncio, o governo voltou a defender a ferramenta.
“O Pix é um patrimônio do nosso povo e referência internacional de infraestrutura pública digital. No Brasil, não vamos abdicar de proteger nossas famílias e nossas crianças contra a ganância de um punhado de tecno-oligarcas”, diz o comunicado.
Após mais de cinco anos de seu lançamento, o Pix se consolidou como principal meio de pagamento utilizado no país. Em 5 de dezembro do ano passado, o sistema bateu recorde ao registrar 313,3 milhões de transações em um único dia.
A modalidade já reúne mais de 170 milhões de brasileiros cadastrados, superando a população brasileira economicamente ativa (aproximadamente 110 milhões). Ao longo do tempo, novas funcionalidades foram desenvolvidas, como Pix agendado, Pix por aproximação e Pix automático.
O ataque ao sistema também é visto por autoridades brasileiras como um recado para os países que estudam seguir o caminho do Brasil e implementar um sistema de pagamentos instantâneos gratuito. A fragmentação do sistema financeiro global em sistemas regionais e nacionais ameaça a supremacia dos EUA e é uma dor de cabeça para Visa e Mastercard, o duopólio americano do setor.
A ascensão de sistemas “soberanos”, especialmente na Europa, uma grande fonte de negócios internacionais da Visa e da Mastercard, pode corroer suas margens operacionais de mais de 50%. Em seus últimos relatórios anuais, ambas as empresas mencionaram o tratamento “preferencial” de sistemas domésticos de pagamentos como um risco aos negócios.