Estatisticamente, a Universidade de Brasília (UnB) é um local tranquilo. Segundo a Polícia Militar, os crimes que acontecem com maior frequência dentro da instituição, como furtos a carros, têm pouco potencial ofensivo. Porém, para alunos e docentes, a realidade está distante dos números e análises da corporação. Na avaliação deles, a sensação de insegurança é diária, principalmente para as mulheres.
Só no início deste semestre, afirmam, houve quatro tentativas de estupro dentro do campus Darcy Ribeiro, na Asa Norte. A recomendação, enviada a estudantes por meio de redes sociais, é para não irem sequer ao banheiro sozinhas.
“O que acontece aqui na UnB é muito grave e não é novidade. Alguns moradores de rua, com deficiência mental, vivem aqui. Frequentemente, atacam alunos. Chegam a ficar tocando em suas partes íntimas na frente das pessoas”, conta Nina Ricardo, 24 anos. No início desta semana, ela, uma professora e outras colegas foram atacadas por um morador de rua, que já tem histórico de agressão a estudantes e docentes.
“Segurança aqui dentro, você só vê quando são chamados. Ou seja, depois que a coisa já aconteceu. O policiamento é feito mais nos estacionamentos. E a iluminação é péssima. O caminho para a parada de ônibus é escuro, o mato está alto. A gente fica exposto a um morador desses que pode, sim, tomar uma atitude extrema, a ponto de tirar a vida de alguém”, ressalta a aluna de História da Arte. “Já fiz tudo que a UnB pediu. Pedimos segurança, liguei para a ouvidoria e fiz boletim de ocorrência”, completa.
Alerta
No Facebook, uma aluna, cuja identidade será preservada, comentou em um grupo de estudantes da instituição que o suposto agressor “está em um quadro de psicopatia e precisa de atendimento mental, o que dificulta inclusive atendimento ou punição judiciária. Brasília não tem internação psiquiátrica pública que atenda esses casos, não tem onde interná-lo (…) E, concluiu, “no entanto é visível que o perfil do agressor é misógino: ele tem agredido várias mulheres no campus. E quanto mais denúncias houver, melhor.”
Com medo de que o homem, identificado como Renatinho, volte a agir, o Departamento de Artes Visuais chegou a suspender as aulas. Contudo, a PM minimiza a situação. O major do 3º Batalhão, responsável pela Asa Norte, Wladimir Cuevas, procurou o JBr. para afirmar que a corporação atende plenamente a UnB. E diz não haver notícias de crimes contra a vida ali nos últimos anos. “As pessoas se sentem inseguras em locais ermos. Não significa que o local é perigoso”, destacou.
Suspeito é levado à delegacia
O homem suspeito de atacar mulheres na UnB, conhecido como Renatinho, foi localizado ontem e levado à 2ª DP (Asa Norte) pela Polícia Militar. Até o fechamento desta edição, ele permanecia detido na delegacia. Uma vez que não houve flagrante, era aguardada uma decisão da Justiça sobre a situação dele.
O capitão Jorge da Silva, comandante da companhia responsável pela área da UnB, esclarece que trabalham no local uma viatura, que percorre os estacionamentos por 24 horas, duas motocicletas com agentes e seis policiais para fazer a ronda a pé no campus de segunda a sábado. “Nosso objetivo é nos aproximarmos da comunidade acadêmica”, destacou.
Para ele, no caso específico do morador de rua, “o caso é complicado, pois ele tem deficiência mental”. A intenção para os próximos meses, disse, é colocar mais 12 policiais dentro da universidade para identificar e monitorar pessoas suspeitas.
Transporte
A falta de ônibus é outro problema que deixa os alunos expostos a crimes, em busca de transporte público. “A maioria dos alunos acaba subindo, a pé, para o ponto de ônibus da L2 Norte”, diz Yara Ribeiro, de 21 anos. A jovem reclama da violência dentro do campus e afirma: “está muito perigoso andar sozinho na UnB, especialmente para as mulheres. Desde que começou o ano letivo, tivemos notícia de quatro tentativas de estupro.”
Por meio do Whatsapp, ela recebeu um áudio aconselhando as alunas a não irem ao banheiro desacompanhadas. “Avisem as meninas que isso está acontecendo dentro da UnB, principalmente no subsolo. Evitem andar sozinhas, inclusive no banheiro”, diz a mensagem. “Os vigilantes da UnB não podem prender nem andam armados, eu acho. Andem em grupos grandes. Se cuidem, porque a situação não está fácil”, conclui a jovem que enviou as recomendações.
Invasão às salas de aula
Os moradores de rua, conta a estudante de mestrado Leila Braga, de 29 anos, chegam a entrar nas salas de aula. “Tem um tal de Paulo Caô que já entrou em centros acadêmicos com facão, abriu os armários e roubou tudo. Além de assaltar as barraquinhas de lanches. Enfim, eles andam à vontade pelo minhocão e não fazem nada pela nossa segurança”, afirma. “Não posso dizer que isso acontece todos os dias, mas acontece com uma certa frequência”, completa.
Para a estudante, a situação é grave, já que se trata de universidade pública e federal. “Tem um maluco que bate nos outros com um pedaço de pau. A maioria deles já foi presa. Mas sempre voltam para lá. O estacionamento, o caminho até a L2, até o centro olímpico, é perigoso demais. Claro que não é só na UnB, mas acho que aquilo é uma instituição federal. Deveria ser melhor guardada”, opina.
Pouca iluminação, mato alto e dificuldade de contato com os seguranças da própria universidade. Estes são outros problemas relatados por alunos da UnB. De acordo com eles, esperar os ônibus de volta para casa à noite é uma tarefa difícil e exige coragem. “A iluminação é péssima. Se você precisar ir à biblioteca ou sair à noite, é melhor desistir e dormir por lá mesmo, porque o percurso dá medo”, desabafa o estudante de Engenharia Ambiental Laílson Carvalho, de 21 anos. “A demora dos ônibus também é uma reclamação frequente e antiga aqui. Esses dias, saí da aula por volta das 22h e demorou quase duas horas para passar um ônibus. É absurdo”, ressalta.