FÁBIO PESCARINI
FOLHAPRESS
Motociclistas que usam a faixa azul na cidade de São Paulo trafegam, em média, a 72,2 km/h, velocidade superior aos limites do trânsito no município.
Os cálculos foram feitos por pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo), da UFC (Universidade Federal do Ceará), do Instituto Cordial e da organização de saúde Vital Strategies.
Eles fazem parte do estudo “Impacto da Faixa Azul na Segurança Viária”, que será divulgado nesta sexta-feira (30).
A média da velocidade foi identificada a partir de imagens de drones em toda a rede de faixas azuis na capital paulista.
Ao todo, foram 32 horas de filmagens processadas por dois algorítimos de inteligência artificial, que analisaram veículos e suas trajetórias para conseguir avaliar métricas de velocidade.
A média de 72,2 km/h foi verificada em trechos distantes de semáforos ou com intervalo espacial entre veículos superior a 20 metros.
A faixa azul é um projeto-piloto implantado inicialmente na cidade de São Paulo e uma das bandeiras da administração Ricardo Nunes (MDB). Atualmente há 233,3 km de sinalização no asfalto para trânsito exclusivo de motos em 46 avenidas e ruas da cidade.
A sinalização viária está em testes em outros municípios brasileiros e o governo Lula (PT) tem planos para regulamentar vias exclusivas para motociclistas em todo o país.
A gestão municipal contesta os dados e diz que desde a implantação, até dezembro de 2025, a velocidade média ficou em 49,5 km/h, dentro do limite regulamentado para esses locais.
A prefeitura diz que no período as vias com faixa azul tiveram queda das mortes de motociclistas (29 para 22), de ocorrências com feridos (1009 para 810) e atropelamentos com feridos (61 para 39).
Segundo os pesquisadores, porém, mais da metade dos motociclistas que trafegavam pela faixa azul durante as filmagens estavam acima de 70 km/h.
A velocidade máxima no município é de 50 km/h. Na avenida 23 de Maio, que liga o centro à zona sul e onde foi implantada a primeira faixa azul no município em 2022, o limite é de 60 km/h.
Um relatório preliminar do estudo, apresentado em julho do ano passado, apontava que 7 em cada 10 motociclistas circulavam acima do limite na faixa azul. O número piorou no texto final e passou para quase 90% dos condutores, explica Mateus Humberto, professor do Departamento de Engenharia de Transportes da Escola Politécnica da USP.
O trabalho compara a circulação de motociclistas em ruas e avenidas, com e sem faixa azul, e conclui que, de forma geral, não é possível dizer que a sinalização reduz lesões e mortes no trânsito.
Com 475 vítimas, o número de pessoas em motos mortas em acidentes de trânsito no ano passado na capital foi 18% maior que em 2023 (402 casos), primeiro ano após a implantação da faixa azul. Porém, é menor que os 481 óbitos de 2024, o maior desde o início da sinalização.
O levantamento parcial, do meio do ano passado, havia identificado aumento de 33% nos acidentes com motociclistas nos cruzamentos de vias com faixa azul, locais tradicionalmente mais críticos em termos de risco viário e, ao mesmo tempo, uma redução de 33% nos acidentes nos meios de quadra.
Mas o texto final diz que os acidentes dobraram nesses cruzamentos.
No relatório conclusivo não foi possível identificar os dados no meio da quadra, aponta Ezequiel Dantas, diretor global de dados da Vital Strategies, organização internacional com foco em saúde.
“A faixa azul tem aceitação popular forte, é querida pelos motociclistas, que se sentem mais seguros e quando isso acontece, aceleram mais”, afirma.
A segunda fase do trabalho ouviu 57 entregadores que usam motocicletas, entre novembro de 2024 e fevereiro de 2025.
Conforme os pesquisadores, foi crítica comum dos entrevistados como a sinalização termina antes dos cruzamentos.
O documento diz que ainda não é possível dizer se faixa azul reduz morte de motociclistas, por falta de estudos científicos.
“No plano internacional, as avaliações sobre faixas dedicadas a motociclistas são limitadas e concentram-se em contextos asiáticos, sobretudo na Malásia e na Índia, onde predominam motofaixas fisicamente segregadas”, diz o texto.
O trabalho lembra que no Brasil as faixas não têm barreiras físicas, sendo delimitadas apenas por sinalização horizontal sobre o pavimento e compartilhadas com o tráfego geral.
“Além disso, faixas não protegidas, como a faixa azul de São Paulo, operam em ambientes urbanos de alto fluxo, onde a interação entre motocicletas e demais veículos permanece intensa.”
O documento critica os relatórios trimestrais enviados pela CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) à Senatran (Secretaria Nacional de Trânsito), sem estrutura metodológica, conforme os pesquisadores.
O estudo faz sugestões de melhorias para a faixa azul. A principal é aumentar o controle de velocidade.
Também é preciso reforço e continuidade de sinalização horizontal nas aproximações de travessias e implantar transições mais legíveis para entradas e saídas do corredor de motos.
“Nossa esperança é que resultados sejam usados como insumos se houver regulamentação”, diz Dantas.
A prefeitura diz ter adotado nas vias medidas como sinalização de velocidade no pavimento, aumento da quantidade de painéis móveis com orientações, fiscalização com duplas de motos percorrendo as faixas azuis e uso de equipamentos eletrônicos, pontos fixos de operadores nos principais cruzamentos com a faixa preferencial e campanhas educativas.
A meta é é chegar a 400 km até 2028, mas a gestão nunes reclama da não liberação de novos trechos por parte da Senatran, dizendo que tem feito reiterados pedidos ao órgão federal.
Em nota, a secretaria afirma analisar todos os pedidos de ampliação de faixa azul e confirma estudar a implantação da proposta em âmbito nacional, seguindo resolução do Contran (Conselho Nacional de Trânsito). “Os projetos aprovados até o momento têm execução prevista até 31 de março, quando será iniciada a fase de avaliação.”