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Brasil

Vaga na Câmara foi comprada com material de construção

Arquivo Geral

14/07/2010 12h04

A gravação de uma conversa entre funcionários da Câmara mostra que o esquema de venda de vagas de terceirizados, revelado pelo Congresso em Foco, permitia várias formas de pagamento. Além dos tíquetes-alimentação, a despesa poderia ser quitada até com material de construção e mão-de-obra de pedreiros e pintores para a ex-funcionária terceirizada Patrícia Guedes Silva, acusada de comercializar as vagas na Casa.

 

 

Tudo está documentado com notas fiscais, segundo áudios como o trecho reproduzido abaixo. São duas conversas obtidas pelo site, que somam 37 minutos e 16 segundos e estão divididas em cinco arquivos digitais. A pedido da fonte que repassou os áudios, o Congresso em Foco só publica as transcrições das conversas, para evitar a identificação de um dos interlocutores.

 

 

Procurada pela reportagem, Patrícia reclamou de “perseguição” e não fez novos comentários.  Em entrevista, o garçom Severino Garcia de Araújo negou suas próprias declarações gravadas em áudio, ao dizer nunca ter comprado vagas. 

 

Como mostrou o Congresso em Foco, a Polícia Legislativa da Câmara investiga um esquema de venda de vagas de garçons e copeiras na Casa. Patrícia foi indiciada pelos policiais por estelionato. Ela é acusada por duas ex-funcionárias de receber de R$ 1.000 a R$ 3.500 para contratar servidores terceirizados e de desviar copeiras da Câmara para lhe prestarem serviços particulares.

 

Na primeira conversa, no início de março deste ano, o nome de Patrícia não é dito. Severino, funcionário do Anexo II da Casa, e seu interlocutor referem-se apenas a “ela”. O garçom diz que pagou a “ela” o equivalente a R$ 4 mil ou mais pelas vagas de um filho identificado apenas como Rogério, que trabalhou na Câmara, e da filha Fernanda Freitas de Araújo, que atua no Anexo III. O problema é que Rogério foi demitido depois, o que irritou Severino.

 

Revestimento e pintura

 

Na segunda conversa, o nome de Patrícia é mencionado. Ela acontece depois da primeira reportagem do Congresso em Foco, publicada em 17 de junho. O garçom Severino diz que bancou uma obra na casa de Patrícia, que foi a encarregada geral dos 800 terceirizados na Câmara mantidos pela empresa Unirio Manutenção e Serviços Ltda. Severino afirma que pagou 60 metros quadrados de pisos cerâmicos, além da mão-de-obra de um profissional para colocar o revestimento e outro para fazer pintura.

 

 

Na gravação, o garçom diz possuir nota fiscal da loja para comprovar tudo. Em determinado momento, faz menção a um cheque assinado que “ficou lá.” O garçom assegura que não foi apenas um favor prestado a Patrícia. Explica que o motivo da obra realizada foi o emprego para seu filho Rogério: “E o Rogério entrar aqui?”. Severino afirma, com irritação, que a então encarregada geral tem “rabo preso” com ele.

 

“Muito burra”

 

Neste trecho da gravação feita em março, o garçom Severino diz que o preço pago ficou em torno de R$ 4 mil pelo menos. E afirma que “ela” é “muito burra” porque o garçom sabe de tudo. Em outros trechos das gravações, Severino cita nomes de pessoas que compraram vagas.

 

 

FUNCIONÁRIO X – Tu sabe, todo mundo sabe que ela vende vaga ali.

SEVERINO – Isso, pronto. 

FUNCIONÁRIO X – Tu já tá sabendo…

SEVERINO – Todo mundo sabe desde o começo. Mas ela é muito burra. Ela sabe que eu sei de tudo e ela [inaudível] na hora. Pra mim, ou ela é doida ou é burra demais.

FUNCIONÁRIO X – O que eu sei de nome de gente que pagou vaga. A mulher do Genésio é um…

SEVERINO – Todo mundo vendeu, todo mundo vendeu. Eu paguei pra Fernanda, pra Rogério entrar. Todo mundo

FUNCIONÁRIO X – Mas tu pagou muito?

SEVERINO – Paguei, paguei.

FUNCIONÁRIO X – Mil reais cada um? Mil?

SEVERINO – Ficou uns quatro mil ou mais…

 

Ainda na mesma conversa de março, mas um pouco antes de revelar o preço pago, o garçom Severino diz como foi sua conversa com “ela” para readmitir o filho Rogério, que, mesmo depois de pagar para entrar na Câmara, acabou sendo dispensado da empresa. O funcionário mostra que a reclamação com Patrícia aconteceu ainda este ano, já na gestão da empresa Unirio – que sucedeu a Capital Empresa de Serviços Gerais Ltda na prestação de serviços para o Legislativo.

 

SEVERINO – Busquei lá embaixo e [inaudível] e falei: “Ó, a partir de hoje, a partir de hoje, eu só falo com você, quando você fichar o Rogério. Eu só vou dar pra você bom dia e boa tarde”.

FUNCIONÁRIO X – Pra você fichar o Rogério?

SEVERINO – É, é. [inaudível]  Hoje faz… Segunda-feira faz oito dias, segunda-feira faz oito dias que eu cheguei pra ela e falei: “Ó, A partir de hoje, eu só falo com você quando você fichar o Rogério seja onde for. Eu não sou otário, não, tá entendendo?”…

FUNCIONÁRIO X – Ela tava só?

SEVERINO – …Ela: “Estou”. “Ó, a partir de hoje, eu só falo com você quando você fichar o Rogério. Eu só vou dar bom dia e boa tarde porque é minha obrigação, tá bom?”. Ela: “Tá bom”. 

(…)

SEVERINO – Quem fichou ele aqui? Ela. Quem tirou ele daqui? Ela. Então, ela tem muito [inaudível]. Eu tô errado?

 

Na segunda conversa, após 17 de junho, Severino fica irritado ao confirmar que Patrícia tem “rabo preso” com ele.

 

FUNCIONÁRIO X – Não, meu, a Patrícia tem o rabo preso com você não. 

SEVERINO – Hein?

FUNCIONÁRIO X – A Patrícia tem o rabo preso com você não. 

SEVERINO – Tem não?

FUNCIONÁRIO X – A Patrícia não.

SEVERINO – É mesmo?

FUNCIONÁRIO X – Poder vir Vanilson. Ela tá c* e andando pra você.

SEVERINO – É mesmo? Quem botou 60 metros de cerâmica na casa dela?

FUNCIONÁRIO X – Quem?

SEVERINO – Quem foi que botou?

FUNCIONÁRIO X – Tu é ceramista?

SEVERINO – É.

FUNCIONÁRIO X – Tu corta cerâmica?

SEVERINO – Eu corto. Eu comprei e botei. Quem botou? Quem pintou a casa dela? Foi você? Foi o Vanilson [José Vanilson, encarregado da Unirio]? Você não sabe nada.

FUNCIONÁRIO X – Não, não, uai. Mas, mas…

SEVERINO – Você vem falar pra mim: “Ela não tem rabo preso comigo”!

 

Na sequência, o interlocutor desafia Severino a mostrar qual a relação entre a obra e alguma irregularidade. E o garçom ainda acrescenta que possui documentos para comprovar o que diz, citando o nome de uma loja chamada de Madecon:

 

FUNCIONÁRIO X – Tu pintou a casa da mulher. Você botou cerâmica na casa dele. E aí? É rabo preso?

SEVERINO – É não?

FUNCIONÁRIO X – Não… 

SEVERINO – E o Rogério…

FUNCIONÁRIO X – …Podia não ser.

SEVERINO – E o Rogério entrar aqui? O Rogério da…

FUNCIONÁRIO X – Ah, você botou pra…

SEVERINO – Aaaaaaah, você não sabe o que está falando, não!

FUNCIONÁRIO X – Não, agora entendi.

SEVERINO – Não, não entendeu foi nada. Tudo teve preço [inaudível] e eu anotei. Entendeu, pô? Eu tenho nota fiscal [som de palmadas na mão] da Madecon, entendeu? Tenho a nota fiscal [som de mais palmadas na mão]. O Luís pedreiro foi quem botou. O Zé Maria foi quem pintou. O Luís pedreiro [inaudível]. Eu tô calado. Tudo tem rabo preso aqui.

 

Severino faz comentários ofensivos a Patrícia e seus familiares pouco antes de citar a existência de um cheque assinado.

 

SEVERINO – Todo mundo sabe que ela é. Eu tenho é dó dela. Eu não. Meu salário é mil reais mesmo. Entendeu o que eu tô falando? Esse cheque assinado, esse cheque ficou lá.

 

O interlocutor do garçom diz que Patrícia pode mandar ele embora da empresa. “Vai ver vai te mandar embora depois”, diz o colega do garçom. Mas Severino desdenha dessa possibilidade e afirma saber de tudo.

 

SEVERINO – Ela não manda de jeito nenhum. Você é doido. Eu acho que você é doido. Como ela vai mandar o [inaudível] embora? Ou eu, que sei tudo? Eu tinha pago… Se ela pedir prova, eu tenho. Se ela pedir nota fiscal dos materiais, eu tenho, de tudo.

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