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Brasil

Último morador do Moinho a receber casa de Lula e Tarcísio vive isolado na favela demolida em SP

Após a demolição de centenas de imóveis, últimos moradores aguardam moradias subsidiadas

Redação Jornal de Brasília

25/08/2026 12h24

moradores da favela do moinho denunciam tentativa de demolicao do governo tarcisio

Favela do Moinho, no centro da capital paulista, antes do processo de demolição — Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

CLAYTON CASTELANI E DANILO VERPA
FOLHAPRESS

Depois de uma madrugada trabalhando em um edifício no centro de São Paulo, o porteiro Manuel Severino Silva dos Santos, 53, havia acabado de acordar quando recebeu a reportagem no início da tarde da última segunda-feira (17). “Minha vida é aqui”, disse, ao subir pela escada sem corrimão para mostrar por dentro a casa que ele construiu e reformou ao longo dos últimos 20 anos na favela do Moinho, também na região central da cidade.

Do lado de fora, uma escavadeira com uma tesoura pulverizadora de concreto acoplada ao seu braço metálico retorcia vergalhões e mastigava os restos dos silos de 30 metros que eram o símbolo da comunidade. Os estrondos provocados pela máquina entram pela janela do segundo pavimento do sobrado, um cômodo de 20 m² que conjuga quarto e cozinha. À direita ficam a cama e uma televisão grande presa na parede. À esquerda, a geladeira, a pia, o fogão e um pequeno banheiro. O piso térreo não chegou a ser concluído para que se tornasse habitável.

Assim como as torres do moinho de farinha abandonadas, centenas de casas da vizinhança foram demolidas após o início da remoção conduzida desde abril do ano passado pela gestão do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos). A residência de Santos é uma das duas últimas que restam inteiras no terreno repleto de entulho. “Estou morando no meio dos escombros, mas fazer o quê? É só isso o que restou da minha casa. Não tem outra opção, não tem para onde ir”, diz o porteiro.

Até a data em que a reportagem esteve no local, 850 famílias tinham sido incluídas em um plano de reassentamento acordado entre as gestões de Tarcísio e do presidente Lula (PT). O programa ofereceu moradias 100% subsidiadas aos que deixassem a área. A União era a proprietária do terreno -agora cedido ao estado para a criação de um parque público-, enquanto o governo paulista é o responsável pelas ferrovias de trens metropolitanos que cercam o lugar.

Santos ficou de fora. A carta de crédito não havia sido aprovada porque a análise inicial da sua renda somou ao salário de R$ 2.480 o adicional noturno, horas extras e o auxílio para alimentação. Isso o desenquadrou do patamar máximo de R$ 4.700 estabelecido pelo governo federal.

Em uma discussão no Judiciário, a gestão Tarcísio obteve o direito de derrubar as construções vazias sob a justificativa de evitar a reocupação. Os vizinhos foram saindo aos poucos até que a rua onde Santos mora, a principal do Moinho, se tornasse um caminho deserto.

“Aqui era o bar”, diz, apontando para os restos de uma construção sem porta nem telhado. “Era bom demais. A turma se reunia, conversava, fazia churrasco, tomava cerveja. Eu vivi aqui dentro, todo mundo era unido, de bom humor, sossegado. Na verdade, eu queria ficar”, lamenta.

Nascido em Bom Jardim (PE), divorciado e pai de um filho já adulto, Santos chegou ao Moinho quando “era tudo barraco de madeira”, diz. “Construí tijolo por tijolo. Todo mundo fez isso. Aí começaram a demolir, casa por casa, todo mundo saindo fora. Agora, você acorda, não tem ninguém. Só terreno vazio.”

O fim da favela do Moinho ocorre em meio a um amplo plano de requalificação urbana da região central paulistana. A um quilômetro do local, a gestão Tarcísio construirá a sua nova sede, ao custo de aproximadamente R$ 30 bilhões para erguer e manter as futuras torres de escritórios por três décadas.

Para seguir com a proposta, a equipe do governador afirmou que era preciso retirar a comunidade que, segundo investigação do Ministério Público, abrigava uma célula da facção criminosa PCC. A remoção iniciada há pouco mais de um ano coincide com o desmonte da cracolândia, uma concentração de milhares de usuários de crack que, por três décadas, ocupou diversos pontos na região.

Operações das forças de segurança do governo paulista na comunidade, porém, resultaram em confrontos com moradores. Muitos rejeitavam a ideia de deixar a favela para assumirem dívidas do financiamento imobiliário subsidiado pela CDHU, a companhia habitacional estadual.

A pacificação ocorreu em meados de 2025, quando as gestões Lula e Tarcísio fecharam um acordo para reassentar os moradores em imóveis totalmente subsidiados. O valor total oferecido foi de R$ 250 mil, sendo R$ 180 mil bancados pela União e R$ 70 mil pelo estado. Quem optou por sair para apartamentos que ainda não estavam prontos recebeu auxílio-moradia de R$ 1.200 mensais durante a espera.

Dezesseis meses após o acordo, há pouca coisa em pé no terreno. O caminho que vai se afunilando ao longo de meio quilômetro entre as ferrovias também preserva, além da casa de Santos, a cruz com cerca de dez metros de altura da fachada da igreja católica que existia no local, chamada pelos antigos moradores de Nossa Senhora do Moinho. Alguns metros à frente fica a residência onde Artur Ribeiro, 19, mora com a esposa e os dois filhos do casal, um de 11 meses e outro de 5 anos.

Ribeiro e sua família preenchem os requisitos para receber a moradia subsidiada. Mas o imóvel escolhido pela família não havia sido aprovado na vistoria até a data em que a reportagem esteve no local. Ele se recusa a aceitar o auxílio-aluguel por temer ser excluído do programa habitacional, caso saia antes de receber a carta de crédito para a compra da moradia definitiva.

“Se a gente sair daqui para ir para o aluguel, já sabe como é que funciona. De um mês para o outro, eles cortam o aluguel e a gente fica com uma mão na frente e outra atrás”, disse, demonstrando a mesma desconfiança que fez muitos dos seus vizinhos adiarem a mudança.

Na última sexta-feira (21), a CDHU informou ter concluído a reavaliação dos casos de Santos e de Ribeiro. Ambos tiveram suas cartas de crédito aprovadas. O governo paulista informou que espera encerrar o processo nos próximos dias.

De acordo com o balanço da companhia, com a definição da situação dos últimos ocupantes da área, 851 famílias foram atendidas. Desse total, além de Santos e Ribeiro, 644 estão em unidades definitivas e 205 recebem auxílio-moradia temporário enquanto aguardam a construção de suas casas.

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