Andreia Salles, Jorge Eduardo Antunes, Paulo Gusmão e Soraya Kabarite
Especial para o Jornal de Brasília
Unidos do Viradouro, Acadêmicos do Salgueiro e Beija-flor de Nilópolis foram as três melhores escolas, entre as sete que desfilaram entre a noite de domingo (3) e a manhã desta segunda-feira (4) de Carnaval. Um patamar acima das demais – Império Serrano, Acadêmicos do Grande Rio, Imperatriz Lepoldinense e Unidos da Tijuca –, as agremiações saltam na frente como favoritas, antes do desfile de mais sete escolas, que teve início na noite desta segunda-feira e só acabará na manhã da Terça-feira Gorda (5).
Em comum nos três melhores carnavais foi o luxo. Viradouro, Salgueiro e Beija-flor ignoraram a crise financeira propalada antes da folia e vieram com o que havia de melhor. É bem provável que as três agremiações desfilem no sábado das campeãs – e não será surpresa se a Viradouro levar o título. A escola de Paulo Barros, de fato, foi surpreendente, após três anos no Grupo de Acesso.
Império sob chuva
O desfile das sete primeiras escolas da elite do Carnaval carioca começou com um banho. Não que o tradicional Império Serrano tenha feito um desfile como nos tempos do histórico “Bumbum paticumbum prugurundum”, de 1982, seu último título. É que a chuva castigou a Passarela do Samba, na Avenida Marques de Sapucaí, atrasando em meia hora o começo da festa.
Embaixo d’água, os 3,2 mil componentes do Império, distribuídos em 31 alas, fizeram pouco, o que prova que não basta apenas ter grandes ideias. O enredo “O que é, o que é?”, do carnavalesco Paulo Menezes, era baseado na clássica música de Luiz Gonzaga Júnior, o Gonzaguinha. Mas o desfile foi pouco empolgante. A passagem da escola do bairro de Magno deu a sensação de que, se fosse no Grupo de Acesso, poderia até ser campeã. Mas, no Grupo Especial, sairá no lucro se permanecer na elite mais um ano.
De bom, apenas, a homenagem à dona Ivone Lara, no último carro. Com fantasias e carros alegóricos pobres, nem mesmo o empolgante refrão “é bonita, é bonita, é bonita”, do sucesso de Gonzaguinha empolgou o público.
Viradouro empolga
A seguir veio a Unidos do Viradouro, e o tetracampeão Paulo Barros fez mais um carnaval histórico. Após 11 anos longe da agremiação de Niterói, ele fez valer o refrão do bom samba-enredo e o “brilho no olhar voltou” para a escola, campeã com outro mito dos desfiles, o inesquecível Joãosinho Trinta.
No enredo “ViraViradouro” Paulo Barros revisitou o mago Merlin, Alice no País das Maravilhas, A Bela e a Fera, Piratas do Caribe, vampiros e múmias, entre dezenas de figuras ligadas ao mistério, magia, bruxaria, princesas, fantasmas, fadas e gnomos, personagens marcantes do imaginário literário e cinematográfico. Até a chuva parou para assistir a Viradouro e Paulo Barros.
Ele usou, novamente, suas alegorias como esculturas vivas, levou cascatas para a Avenida e fez transformações da Fera em príncipe. Trouxe também o Motoqueiro Fantasma para a avenida, com moto e tudo. Soube superar qualquer eventual falta de recursos, que todos reclamavam. Seus efeitos visuais em um carnaval marcado pela crise econômica seguiram o padrão de inovação. Usou e abusou da criatividade. Valeu até misturar veludo com plástico nas fantasias – e ficou ótimo.
O excelente samba-enredo deu o ritmo para um desfile empolgante, como as epopeias que ele levou à Sapucaí em carnavais à frente da Unidos da Tijuca e da Portela. A Viradouro e Paulo Barros passaram dando certeza de que estarão, ao menos, no Desfile das Campeãs. E talvez celebrando um título que será a volta da escola aos bons tempos.
Grande Rio vem fria
A Sapucaí ainda estava impactada com o desfile da Viradouro quando a Acadêmicos do Grande Rio entrou na pista. A ideia do casal de carnavalescos Renato e Márcia Lage era levar para a Marquês de Sapucaí um enredo levemente crítico dos maus hábitos e jeitinho dos brasileiros. O samba não ajudava muito, mas o histórico de Renato Lage, dono de quatro títulos na elite, recomendava bem, apesar da certa dose de hipocrisia do enredo, já que foi uma virada de mesa que manteve a Acadêmicos do Grande Rio no Grupo Especial, por conta da virada de mesa após o rebaixamento do ano passado.
Mas já se via antes do desfile que não ia funcionar. Mesmo com desfilantes às lágrimas, de emoção, a passagem da Grande Rio foi pouco emocionante, exceto pela comissão de frente, que usou drones para flutuar emojis na Sapucaí. Fora isso, a escola foi fria. Bem dividida em setores, pecou com fantasias muito iguais e sem criatividade, como as dos motoboys e dos guardas de trânsito.
O samba, como já dito, era pouco empolgante e arrastado e as alegorias pouco puderam fazer. Lógico que não foi o desastre do ano passado, quando a quebra do último carro alegórico fez o até então alegre desfile sobre Chacrinha virar um pesadelo. A passagem deve garantir a escola de Duque de Caxias na elite, mas é muito pouco para quem já foi grande.
Salgueiro passa forte
Após a monótona passagem da Grande Rio veio a Acadêmicos do Salgueiro, que usou uma receita clássica de carnaval. A escolha de orixás costuma dar bons sambas, enredos criativos e desfiles empolgantes. Foi o caso. Tendo Xangô como enredo, a escola da Tijuca passou grandiosa (com 3,5 mil componentes), firme e luxuosa.
Méritos do carnavalesco Alex de Souza, que usou e abusou do luxo para contar a história do homem que virou orixá e capitaneia a justiça em um mundo injusto. Carros alegóricos gigantescos e bem acabados, fantasias usando o que havia de melhor e a bateria do Salgueiro, a Furiosa, deram um tom empolgante à passagem.
No generoso desfile do Salgueiro sobrou espaço para homenagear o histórico professor Júlio Mesquita, que encarnou Xangô, padroeiro da escola, por quase quatro décadas. E o sincretismo religioso, que uniu os santos católicos Antônio, Jerônimo, João Batista e Santa Bárbara em torno da figura de Xangô, foi homenageado com um toque providencial de negritude, colocando o ator Ailton Graça, padre na novela “O sétimo guardião”, da Rede Globo, como um papa negro.
Usando e abusando de vermelho, preto, dourado, prata e branco, as fantasias harmonizaram com o desfile e ajudaram a contar essa saga – além do samba de refrão fácil e que foi cantado pelas arquibancadas. Um belo desfile, em síntese.
Beija-flor me busca do bi
Em busca do bicampeonato do carnaval carioca, a Beija-flor de Nilópolis apostou alto em uma história vitoriosa: a dela própria. A azul e branco da Baixada levou para a Sapucaí o enredo “Quem não viu vai ver… As fábulas do Beija-flor”, desenvolvida pela comissão de carnaval integrada por Victor Santos, Bianca Behrends, Rodrigo Pacheco, Léo Mídia, Cid Carvalho e Válber Frutuoso – Laíla deixou a escola rumo à Unidos da Tijuca.
Lembrado em um dos carros alegóricos, assim como outros mitos da escola – Joãosinho Trinta inclusive – Laíla fez falta, mas a Beija-flor soube superar sua ausência e cantar bonito os seus 70 anos de história no carnaval.
Claro que a pegada do enredo, nos dias atuais, faz com que se esqueça enredos complicados, como o que apoiava ações do regime militar. Mas o que importava era a passagem de tempos mais positivos – e a presença da veterana Pinah, a cinderela negra que encantou o príncipe Charles, do Reino Unido, era prova disso.
Abusando do luxo e da suntuosidade, a escola fez um grande desfile, com poucos problemas técnicos – o beija-flor do primeiro carro, que demorou quase meia pista para “alçar voo”. Imperceptível no meio de fantasias bem acabadas e entrosadas com o enredo, com o samba cantado por Neguinho da Beija-flor e pela escola inteira e graças à bateria de batida sincopada e forte. Desfile que, se não chegou a emocionar, foi bastante competitivo.
Imperatriz com problemas
A sexta escola a desfilar foi a Imperatriz Leopoldinense, com o enredo “Me dá um dinheiro aí”. Com samba de Elymar Santos, casal de carnavalescos Mário e Kaká Monteiro contou a história do dinheiro dos tempos antigos à era do bitcoin. Samba alegre, história criativa. Mas a escola enfrentou problemas com seu primeiro carro alegórico.
A estrutura, em duas partes, tinha de ser montada em frente ao setor 1, na pista. A segunda etapa da alegoria não entrava e depois demorou a ser encaixada na primeira, a coroa que simboliza a escola.
Com isso, formou-se um gigantesco buraco entre a ala que ia na frente e o carro alegórico. A Imperatriz deve perder pontos importantes por causa da falha.
Depois do incidente, que levou alguns diretores da escola às lágrimas, a passagem foi firme, com homenagens a artistas contemporâneos, como Chico Anysio e Moacyr Franco, que desfilou. Faltou, porém, uma dose de empolgação necessária.
Unidos da Tijuca fecha o desfile
Já com sol no céu, a Unidos da Tijuca veio para a Sapucaí contar a história do pão colo alimento – físico e espiritual. A mistura de religiosidade – que pontuou o desfile do começo ao fim – com crítica social deu certo, e a passagem foi tecnicamente muito boa, com a digital da comissão de carnaval integrada por Laíla, Annik Salmon, Marcus Paulo, Hélcio Paim e Fran Sérgio, alguns deles egressos da Beija-flor.
Embora as arquibancadas e cadeiras já estivessem vazias, a escola passou bem, mas sem a empolgação de Viradouro, Salgueiro e Beija-flor. Não surpreenderá se for para as campeãs, mas é quase improvável que leve para o Morro do Borel o quinto título da história.