Os fortes temporais que atingiram Juiz de Fora e Ubá, na Zona da Mata mineira, resultaram em pelo menos 47 mortes, cerca de 3 mil desabrigados e 400 desalojados. As chuvas intensas causaram enxurradas, deslizamentos de terra e cheias de rios acima do normal, afetando principalmente bairros pobres como Morro do Imperador, Paineiras, Parque Burnier e Cerâmica.
Especialistas atribuem a tragédia a eventos climáticos extremos decorrentes do aquecimento global, agravados por fatores humanos como a negligência em políticas ambientais e o planejamento urbano inadequado. O geógrafo Miguel Felippe, professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), destacou que as chuvas extremas tendem a se tornar mais frequentes devido às mudanças climáticas, e criticou a onda negacionista que afeta as agendas públicas. Ele apontou que o capital imobiliário empurra populações pobres para áreas de risco, resultando em maiores perdas humanas e materiais nessas regiões.
O meteorologista Marcelo Seluchi, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), explicou que a topografia montanhosa de Juiz de Fora, combinada com a umidade extra vinda de um Oceano Atlântico 3 graus Celsius acima do normal, intensifica as precipitações. Ele enfatizou a necessidade de adaptação, como evacuações preventivas e controle da expansão urbana em áreas vulneráveis, inspirando-se em práticas do Japão.
Para mitigar futuros desastres, os especialistas sugerem ordenamento territorial, conscientização da população sobre planos de contingência e intervenções de engenharia. O professor Matheus Martins, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), defendeu o uso de técnicas como pôlderes para gerenciar inundações em áreas de várzea próximas ao Rio Paraibuna, além de promover solos mais permeáveis e parques públicos. A conscientização deve incluir instruções claras para moradores de áreas de risco durante alertas.
No âmbito governamental, houve cortes significativos em verbas para defesa civil em Minas Gerais, de R$ 135 milhões para R$ 6 milhões entre 2023 e 2025, conforme dados do Portal da Transparência. O governo estadual não comentou o assunto. Já o governo federal aprovou R$ 30,1 milhões para contenção de encostas em Juiz de Fora entre 2024 e 2025 via Novo PAC, com R$ 1,2 milhão liberados até o momento. Para drenagem urbana, está programado um repasse de R$ 356 milhões no projeto Juiz de Fora + 100, que abrange bairros como Santa Luzia, Industrial, Mariano Procópio e Democrata, embora as obras ainda não tenham sido concluídas.